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After School of the Earth

after schoolAcho que todos já devem ter tido em algum momento a fantasia do sobrevivente – de ser o último sobrevivente de alguma catástrofe, e como viver nessa situação. Pra um cara tímido e solitário como eu, que tem certa dificuldade em se relacionar intimamente com outras pessoas, o mundo de repente parece um lugar muito mais simples pra se viver quando se tira essas pessoas da paisagem, ou pelo menos a maior parte delas. Alguma parte do apelo de jogos como Shadow of the Colossus e Journey, ou mesmo livros/filmes como Eu Sou A Lenda e todos os demais que seguem o tropo do apocalipse zumbi, pelo menos para mim, está justamente em oferecer a visão de um ambiente assim, um mundo onde você é livre para explorar os cenários idílicos e desoladas sem o risco de dar de cara com outro ser humano no caminho.

After School of the Earth é um mangá que explora um pouco esse tema. Dois anos após figuras misteriosas conhecidas como phantoms começarem a capturar pessoas e fazê-las desaparecer, apenas quatro indivíduos sobraram em todo o Japão (ao menos, até onde eles mesmos saibam): o garoto Masashi e as garotas Anna, Yaeko e Sanae. Os capítulos então acompanham o seu dia-a-dia no mundo desabitado, buscando mantimentos e tentando sobreviver enquanto tentam descobrir as razões que levaram à situação atual.

O tom na maior parte do tempo é o que se costuma chamar de slice of life, ou seja, aquelas “fatias da vida,” histórias de tramas mundanas como fazer um filme, cuidar de uma gripe e os relacionamentos que se desenvolvem entre os personagens a partir disso. O próprio título é bem claro como metáfora: é o período “pós-escola” (ou talvez de férias escolares) da própria Terra, em que os personagens não têm mais responsabilidades além de se divertir e aproveitar o tempo livre para o lazer.

Vez por outra há um encontro com um phantom, e então a trama maior do desaparecimento da humanidade é retomada por algumas páginas. No entanto, achei estes os momentos mais descartáveis – a história está no seu auge enquanto explora os próprios personagens e seus relacionamentos, aquilo que perderam quando os phantoms atacaram, e a solidão que sentem no mundo desabitado e como os demais ajudam a superá-la. Os phantoms acabam funcionando mais como um lembrete de que aquilo não pode durar para sempre, e eventualmente a escola voltará para acabar com a alegria das férias.

A arte é boa, com personagens de traços mais mundanos e sem os exageros de estilização que são comuns em certos mangás com pitadas de humor. Gostei especialmente da composição das capas, evocando a idéia das férias com personagens em geral em trajes de banho em um cenário desolado qualquer na capa da frente, e então referindo o tema dos desaparecimentos ao mostrar o mesmo cenário mas sem os personagens na contra-capa.

E então há a questão do fanservice. O tema é polêmico, e não quero realmente fazer um juízo de valor aqui. Goste ou não, o fato é que ele meio que se tornou um elemento da própria linguagem dos mangás, ainda mais quando a trama já parte de elementos tão característicos do gênero infame dos haréns – fato do qual a própria história é bem consciente, e chega a usar como fonte de humor em alguns momentos. Pelo menos ele não chega a ser exagerado, talvez com exceção das piadas bobas sobre os peitos das protagonistas que cansam com certa rapidez, e não chega a ser usado como justificativa única da história na maior parte do tempo. Só o que incomoda é quando você se dá conta de que a fonte desse fanservice são personagens adolescentes; você tenta relevar isso com a consciência de que, bem, o próprio protagonista também é adolescente, e é impossível evitar alguma tensão sexual entre personagens na situação em que eles se encontram (e não é como se as minhas próprias fantasias de sobrevivente fossem totalmente livres de algumas perversões), mas também não há como evitar aquela pulguinha atrás da orelha durante a leitura. Pelo menos o autor sabiamente evita cruzar certos limites, e não sensualiza a personagem mais nova do grupo, que possui apenas onze anos.

Em todo o caso, mesmo com os poréns do parágrafo anterior, há algo nesse mangá que realmente me pegou e me envolveu. Provavelmente seja a aura de solidão dos personagens e da situação em que se encontram, algo com a qual eu posso me identificar e sentir empatia.

Nádegas a Declarar

policia-sao-paulo-reprime-manifestacaoNão tenho nada a dizer sobre as manifestações em São Paulo que já tenha sido dito por aí com muito mais propriedade. Me sinto até um pouco intimidado, vendo textos tão lúcidos e incisivos, quando eu mal e mal consigo tecer meia dúzia de linhas a respeito. Recomendo muito o texto do site Impedimento – um site sobre futebol, vejam só -, que cita uma música do Raul Seixas e faz uma reflexão brilhante sobre o papel da mídia e os espólios sociais do ocorrido; e o do jornalista e escritor Carlos Orsi, que se concentra mais especificamente no histórico repressivo da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Eles dizem tudo que eu não tenho capacidade pra dizer. Só não me venham levar a sério qualquer coisa que saia na revista Veja, por favor.

Mas esse é um blog pessoal, então me perdoem se eu me concentro nos meus próprios sentimentos pessoais um pouco aqui também. Ninguém é obrigado a dar a mínima. Não é nada que vá mudar a opinião de ninguém sobre o ocorrido, já que não é um relato político. O que me chocou mesmo nisso tudo foi ver pessoas com quem eu convivi boa parte da minha adolescência, com quem eu posso dizer até que cresci um pouco junto, defendendo com todas as letras que manifestante tem mais é que apanhar mesmo. Eu não era exatamente um cara muito popular na escola, e na verdade me repreendo bastante por ter assumido a persona do anti-social amargurado e deixado de aproveitar muita coisa do meu segundo grau. Sei que muita gente prefere fingir que essa época da sua vida não aconteceu, esquecer todo o bullying e repressão típicos dessa fase da vida, mas o meu sentimento é um pouco diferente; tem mais a ver com um tipo de lamento saudoso, uma nostalgia do que eu nunca tive. Um arrependimento, pra resumir.

Ao ver esse tipo de comentário, então, acabo olhando em retrospecto, e de repente o abismo que me separa daquela época fica muito maior. Não dava pra esperar que fosse diferente, visto todas as diferenças que existiam já naquela época, e só se intensificaram. Aquela coisa de estudar em um colégio particular morando em um bairro pobre, ou de ter estudado História em uma universidade federal e não Economia em uma norte-americana de renome internacional. E não que eu queira desprezar estas diferenças também, é claro, pois a oportunidade de sair do meu cubículo acadêmico é algo que eu gostaria de ter também, e ainda pretendo aproveitar algum dia.

Mas sei lá. Eu lembro dessas horas do meu texto Náufrago, que eu republiquei dias atrás. E é por não querer republicar de novo que eu prefiro só deixar o link para quem quiser ler mesmo.

Náufrago

a-deriva-a-derivaComo tudo havia começado? Como as coisas haviam chegado àquele ponto? Tudo o que lembrava era de acordar um dia e, como que por mágica, não ter mais quinze anos; e todos aqueles que sempre estiveram e sempre quis que estivessem com ele não estavam mais, ou era como se não estivessem, como se não fizessem mais a diferença que imaginou que fariam. E velha, tão velha!, era aquela fotografia! Tudo o que nela havia, tudo que representava, não existia mais. Os momentos de encanto que nunca aconteceram, as vidas sonhadas que nunca começaram, as pessoas imaginadas que nunca se conheceram.

Era ali que começava aquele oceano onde estava à deriva. Não era um mar de lágrimas, que há muito já haviam secado e não mais existiam para serem derramadas, mas algo como um mar de sonhos, ou talvez de vidas possíveis, que o cercavam e levavam em suas ondas e marés. E já nem mais se esforçava para evitá-las – depois de tantas tentativas frustradas de atingir terras firmes, aprendeu a se resignar na sua posição de náufrago fundamental, eternamente carregado para onde quer que o levassem.

Por vezes encontrava alguma embarcação, levada por um nobre capitão e seus marujos espirituosos, que o recolhiam e o ajudavam, e tentavam pô-lo novamente em uma ilha segura; e se esforçava para ser salvo, para ser digno e merecedor daquela atenção. Logo, no entanto, se perdia novamente nas águas, e voltava ao seu naufrágio quintessencial.

Outras vezes, ainda, encontrava novos náufragos como ele, também perdidos por águas labirínticas. Mas não demorava a perceber que, por mais que partilhassem do mesmo destino, não o faziam das mesmas formas: aqueles eram náufragos de outros mares e de outras vidas, sozinhos como ele, mas com mais nada em comum. E assim voltavam, cada um, para seus próprios oceanos solitários.

E talvez fosse esse, afinal, o seu destino último: o de ser sozinho, perdido; pertencente a todas as praias e ilhas paradisíacas banhadas por aquelas águas, e, ao mesmo tempo, a nenhuma delas; podendo participar de tudo, mas, por isso mesmo, participando de nada. E assim seria, até que uma onda mais violenta finalmente o derrubasse e o afogasse definitivamente.

Por vezes se perguntava se tal onda já não o havia atingido, e em não poucas delas de fato desejava que assim fosse.

Eeeee Eee Eeee

Eeeee Eee Eeee é um livro… Esquisito. Começando pelo nome: é uma transcrição do som que os golfinhos fazem, como uma onomatopéia mesmo, e que por razões que ficarão claras mais adiante surgem mais de uma vez ao longo do texto. Para além disso, ele conta a história de Andrew, um jovem nos seus vinte e poucos anos que trabalha como entregador em uma pizzaria Domino’s e basicamente não tem muitas perspectiva de futuro, exceto chorar a perda da ex-namorada, jogar pôquer e comer sushi com um antigo amigo de escola, e passar as madrugadas escrevendo histórias curtas. Até o fim do livro ele terá tido a vontade de sair em uma cólera assassina uma dúzia de vezes, encontrará animais falantes como ursos, golfinhos e alces, que por sua vez assassinarão celebridades como Elijah Wood, Salman Rushdie e Wong Kar-Wai, e ouvirá uma lição de moral do presidente dos Estados Unidos em um restaurante japonês, mas não mudará efetivamente nada em sua vida.

Resumindo, portanto, é um livro que sai do nada e vai para lugar nenhum – e essa é, na verdade, a sua grande qualidade. Entre a primeira e última frases o que se tem é uma crônica muito sincera de um estado de espírito, o dia-a-dia de vidas sem rumo e em depressão verdadeira, aquela que não é uma mera tristeza profunda, como quem nunca passou por isso parece achar que é, mas sim uma falta de vontade e de energia para viver. Se as aparições de animais falantes com poderes mágicos parecem absurdas e gratuitas, na verdade isso é um reflexo do próprio absurdo que é a vida aos olhos desses personagens – um mundo onde um golfinho pode matar uma celebridade a pauladas em uma ilha deserta e isso ser visto como algo banal, sem qualquer significado.

Nisso pode-se dizer que o livro lembra algo de um Charles Bukowski na última potência, com seus personagens vazios e marginalizados, a sujeira barrada no filtro do “sonho americano,” mas aqui longe das bebidas e das mulheres que disfarcem o seu fracasso. Mesmo o estilo do texto lembra um pouco as descrições cruas e frases curtas do velho safado germano-americano, que podem ser facilmente confundidas com descuido literário, mas que estão na verdade sempre certeiras no seu posicionamento, sem excessos nem arestas mal aparadas. Se a ação é truncada, com mais pontos finais do que vírgulas, é porque é assim também que os personagens se sentem quando fazem alguma coisa, repletos de incertezas e hesitações; e quando estas hesitações desaparecem temos algumas passagens de brilho verdadeiro, enquanto o autor discursa sobre a solidão, a natureza da consciência, e o que é, afinal, a felicidade.

No fim, certamente não vou dizer que Eeeee Eee Eeee seja um livro recomendado sem ressalvas para qualquer um. O estilo único demais e a falta de uma direção no enredo devem entediar e afastar a maioria dos leitores. Comigo, no entanto, ele ressoou de forma bastante forte, me remetendo à minha experiência pessoal e a forma como eu encarava a vida até não muito tempo atrás, que deixou feridas ainda abertas e lacunas profundas na forma como eu me relaciono com outras pessoas.  Se, como eu refleti em outro momento, vivemos mesmo na Era da Depressão, talvez o autor Tao Lin seja o cronista mais sincero desta geração.

The Ark Sakura

A eupcaccia, ou inseto-relógio, é uma criatura peculiar. Com pernas atrofiadas e mobilidade reduzida, ele sobrevive comendo as próprias fezes, usando as suas antenas para andar em sentido anti-horário em um ciclo eterno de excreção e ingestão, com o seu metabolismo lento garantindo o tempo necessário para os nutrientes serem repostos pela ação de bactérias. Como este movimento circular se dá sempre voltado em direção ao sol (já que à noite o inseto dorme), ele pode ser usado também medir a passagem do tempo.

Obviamente, a eupcaccia não existe de verdade. The Ark Sakura, no entanto, penúltimo romance do japonês Kobo Abe, abre com o encontro do seu narrador-protagonista com um vendedor que tenta fazê-lo comprar um espécime. Ela serve desde o início, assim, como uma metáfora: da mesma forma que o inseto, Mole (ou “toupeira”, o apelido pelo qual o conhecemos) também busca a autossuficiência, tendo passado a vida montando um abrigo nuclear contra um apocalipse que ele julga inevitável, a “arca” a qual se refere o título; e por isso mesmo ele logo vê na criatura o seu ideal concretizado, um sonho vendido como realidade, e que se dane a escatologia dos seus detalhes práticos.

O livro parte deste ponto, enfim, para desenvolver a sua fábula sobre a solidão e o isolamento social. Mole, afinal, possui já tudo o que precisa para manter a sua arca funcionando por anos – alojamentos, mantimentos, alguma dose de conforto, e mesmo uma conveniente privada cuja descarga possui força suficiente para desmembrar um corpo e enviá-lo sem dificuldade para um esgoto desconhecido. Tudo o que falta é uma tripulação para dividir com ele o isolamento, e que o ajude a reconstruir a civilização após o fim de tudo. É esta busca que o levará ao mundo da superfície, e trará com ele os elementos estranhos que terminarão por alterar os seus planos para o futuro.

A grande sacada do autor foi narrar esta história em primeira pessoa, de forma que o ponto de vista sobre todos os outros personagens e acontecimentos sempre passa diretamente pelas impressões do protagonista. Em meio à paranoia causada pelo isolamento, Mole não é capaz de demonstrar qualquer tipo de confiança, parecendo sempre suspeitar de segundas e terceiras intenções em qualquer ato realizado contra ele, e muitas vezes também nos seus próprios. Ao mesmo tempo, vemos a confusão no seu julgamento que é causada pelo contato inevitável com os outros personagens, e a lenta tomada de consciência a que isso leva sobre a sua condição.

O enredo todo também possui uma certa teatralidade muito interessante. Abe, além de um dos grandes romancistas japoneses do século passado, também era conhecido como escritor de peças de teatro, e é visível como este livro poderia facilmente ser convertida em uma. Uns 80% dele se desenvolve a partir da interação de apenas quatro personagens, e mesmo o seu cenário é amplo e espaçoso como um palco teatral, com grande ênfase dada a alguns poucos elementos e acessórios específicos. Mesmo as digressões pelo passado dos protagonistas é feita de forma indireta, através de relatos dos mesmos, e as ações e  diálogos longos através do qual o enredo se desenvolve às vezes parecem sob medida para serem atuados e/ou recitados.

Enfim, é um livro bastante interessante, e que me despertou um tanto de curiosidade sobre o resto da obra do autor. Vou procurar com mais calma por outros livros que tenham o seu nome na capa.

Blind Willow, Sleeping Woman

Haruki Murakami é, provavelmente, o mais influente e celebrado autor japonês contemporâneo. Livros como Norwegian Woods, Kafka à Beira-Mar, Minha Querida Sputnik e Após o Anoitecer venderam bem e foram elogiados pela crítica em todo mundo, e renderam mesmo uma indicação como um possível Nobel de literatura. Além destes, seu diário Do Que Eu Falo Quando Falo de Corrida também se tornou rapidamente um best-seller e referência literária. É um autor de peso, portanto, daqueles cujo nome muitas vezes aparece maior que o título do livro nas capas.

Blind Willow, Sleeping Woman é um livro de contos de sua autoria publicado em língua inglesa em 2006. Não se trata de uma versão de um obra original oriental, no entanto – os contos foram reunidos de diversas fontes, e incluem desde algumas das primeiras histórias do autor, escritas ainda na década de 1970 e revisadas para esta edição, até as que fizeram parte do livro de 2005 Tokyo Kitanshu (algo como Contos Estranhos de Tóquio), que foram publicadas em inglês pela primeira vez neste volume. Segundo confessa na introdução, algumas destas histórias foram até mesmo expandidas e tiveram trechos reaproveitados em alguns de seus romances mais conhecidos. Assim, o livro serve bem como um panorama geral da sua obra, fazendo um tour pelos seus principais temas e elementos recorrentes.

De maneira geral, são contos sobre o cotidiano, com personagens enfrentando problemas mundanos no Japão contemporâneo, lidando com a perda de entes queridos, a própria sexualidade, o medo de um terremoto como que aconteceu recentemente, ou o que quer que seja. Ao mesmo tempo, no entanto, a maioria deles não se tratam de histórias realistas no sentido estrito do termo – há geralmente algum elemento inesperado, um homem feito de gelo em uma história, um gênio que concede pedidos no último andar de um restaurante em outra, um macaco falante que rouba nomes em ainda outra, criando todo um universo muito semelhante ao nosso na aparência, mas com um tanto mais de magia e surrealismo no seu recheio. E mesmo nos casos mais mundanos, na verdade, há sempre uma certa tensão e estranhamento em cada parágrafo (o próprio autor se define como um escritor de “ficção estranha”, aliás), como se não fosse possível prever quando um elemento surreal dará as caras. Ler Murakami é como entrar em um estado de sonho em que você nunca sabe onde termina a realidade e começa a fantasia.

Como um músico amador frustrado, eu também acho interessante notar a constante presença da música nas histórias. Muitos personagens são músicos ou lidam com ela de alguma forma, sobretudo o jazz, uma vez que o próprio autor era dono de um bar dedicado ao estilo antes de passar a se dedicar exclusivamente à escrita. Há muitas referências a standards clássicos, e por vezes você quase consegue ouvir um piano solo no fundo, como se tocasse uma trilha sonora. Outro elemento constante são os personagens deslocados, em viagens de férias ou negócios, lidando com o estranhamento de estar em uma terra estranha, provavelmente ecos do período em que Murakami se auto-exilou do seu país natal.

O que nos leva, então, ao que seja talvez o tema mais marcante nestes contos: a solidão. É incrível notar como histórias escritas em um intervalo tão grande de tempo, chegando perto de trinta anos das mais antigas para as mais recentes, conseguem ser tão consistentes nesse ponto em especial. Mesmo quando não dizem com todas as letras, é fácil notar que a maioria dos personagens levam vidas solitárias, sem entes ou amigos próximos, muitas vezes porque de fato perderam aqueles que tinham e não foram capazes de encontrar novos. Assim, se agarram à música, a viagens ao exterior, ao sexo, ou mesmo a cangurus, como última âncora ao mundo em que viviam, exalando uma aura de melancolia a cada frase que os descreve ou diálogo de que participam. Houve um punhado de histórias em que, ao terminar, eu apenas larguei o livro de lado e fiquei parado, olhando para o teto, pensando sobre como o que eu acabara de ler refletia muito da minha própria vida.

Enfim, Blind Willow, Sleeping Woman é uma coletânea de contos bastante notável, de um dos principais nomes da literatura contemporânea. Nem todos os contos são muito leves ou de leitura fácil, mas mesmo assim são uma boa recomendação para qualquer apreciador de bons livros e boas histórias.

Haicai da Madrugada

Silêncio
Na escuridão,
Lágrimas no colchão.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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