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O Baronato de Shoah – A Canção do Silêncio

O Baronato de Shoah – A Canção do Silêncio é o livro de estréia do autor paulistano José Roberto Vieira. Ele tem sido celebrado como o primeiro romance de fantasia nacional pensado desde a sua concepção como parte da estética steampunk – no entanto, esta é uma afirmação com a qual eu vou ter que discordar. Mais do que puramente máquinas a vapor (que no livro ainda é substituído pelo Nepl, ou Névoa, uma espécie de combustível místico-sobrenatural), o steampunk também se destaca por toda uma abordagem específica em cima de elementos do século XIX e o período vitoriano na Inglaterra; o cenário do livro, ao contrário, tem muito mais comum com a nossa própria época, com direito a bares noturnos e carros possantes a cada esquina. A impressão que eu tive, assim, é que ele tem muito mais em comum com o que alguns chamam de tecnofantasy, a fantasia tecnológica que marca certos jogos eletrônicos japoneses, em especial os da série Final Fantasy.

Nomenclaturas à parte (e quem liga realmente para um nome, certo?), o cenário do livro realmente não faria feio em qualquer exemplar da famosa franquia. Tudo o que você esperaria de um jogo da série está lá: armas impossíveis (em especial a bacanuda espadasserra que ilustra a capa), monstros destruidores, barcos voadores, poderes pirotécnicos… Há até um robô gigante, o que é sempre uma adição bem-vinda. A história de Sehn Hadjakkis e a sua sheyvet de companheiros envolve mesmo uma ameaça de apocalipse (que acaba, é claro, em uma grande batalha épica entre o herói e o vilão) e um segredo ancestral sobre a vida, o universo e tudo mais, como geralmente ocorre nos melhores destes jogos. E a sua inspiração na mitologia hebraica, embora em um primeiro momento crie algum estranhamento com tantos nomes esquisitos jogados no ar já nos primeiros capítulos, também ajuda a criar todo um clima diferente e único, dando um pequeno sopro de novidade para quem já está enjoado de meros dragões nórdicos e samurais misteriosos (o que não quer dizer que eles não dêem as caras eventualmente, é claro).

Não vou dizer também que o livro seja livre de falhas. Me incomodou principalmente o aspecto mais técnico e formal, no nível da construção frasal e de parágrafos mesmo, que algumas vezes me pareceu que podiam ter algumas arestas melhor aparadas; mas isso é esperado também de um romance de estréia, quando se está ainda montando um estilo próprio e experimentando com estruturas e formas de contar a história, e é o tipo de coisa que deve incomodar mais outros escritores (ou aspirantes a) do que propriamente o leitor comum. A fluidez do enredo também deixa a desejar em alguns pontos específicos, com alguns momentos que ocupam espaço sem parecer ter relevância maior para a história toda (como a história da menina-fantasma Minerva), e alguns personagens que acabam se tornando um tanto caricatos no seu desenvolvimento (em especial a protagonista Maya Hawthorn). Na maior parte do tempo, no entanto, ele corre muito bem, e é o tipo de livro que você consegue ler facilmente em poucos dias, já que, em especial nos momentos finais, consegue criar muito bem a tensão e apreensão sobre o que ocorrerá a seguir e o destino que terão certos personagens.

Em todo caso, mesmo com os poréns destacados, O Baronato de Shoah – A Canção do Silêncio ainda é uma leitura muito divertida, na qual alguém que tenha crescido jogando Final Fantasy e/ou assistindo animes como Neon Genesis Evangelion e Full Metal Alchemist certamente vai ir do início ao fim com um sorriso nos lábios, por reconhecer todas as referências e inspirações que foram usados na sua construção. É para estes, principalmente, que eu sei que posso recomendar o livro sem medo.

Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário

steampunk_capa_frenteHá quem diga por aí que estamos vivendo um princípio de começo de uma pequena onda de literatura steampunk no Brasil. Claro, isso não significa que tenhamos grandes autores consagrados subitamente interessados no assunto, ou que qualquer lançamento do gênero rivalize em atenção com o último livro de Crepúsculo ou do Paulo Coelho, mas apenas que, dentro do público ativo de certos nichos literários, tem havido um interese crescente no tema. Honestamente falando, não me considero informado ou envolvido o suficiente para confirmar ou negar essa afirmação; mesmo assim, é sempre interessante ver bons lançamentos nacionais, independente do gênero, como é o caso da coletânea Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário.

Acho que cabem aqui alguns esclarecimentos, antes de seguir adiante. Ao contrário do que dirá o senso comum, steampunk não se refere necessariamente a histórias com tecnologias avançadas à vapor substituindo o desenvolvimento tecnológico histórico. Há muito disso no gênero, sem dúvida, ou o steam no nome estaria bastante fora de lugar; mas também há muito mais de brincar com o espírito de uma época, parodiando ou especulando em cima de costumes e idéias que eram comuns naquele período. Assim, não espere ver em todos os contos do livro máquinas impressionantes e industrialismo exacerbado – na verdade, a impressão que se tem é que os contos que seguem esse imaginário mais à risca são justamente os menos interessantes.

Esse é o caso, por exemplo, de O Assalto ao Trem Pagador, do organizador Gianpaolo Celli, que abre a coletânea. Não que seja uma história ruim, claro, mas acaba pesando contra ela o fato de parecer um pouco genérica e inespecífica demais, como um episódio piloto de uma série de aventura. Mais bem-sucedido nesse sentido é A Música das Esferas, de Alexandre Lancaster, que retoma o personagem Adriano Monserrat apresentado em um projeto de série em quadrinhos para a internet anos atrás. Essa ascendência pode ser percebida facilmente no ritmo da história, que lembra um episódio de anime ou mangá; há ação, bons personagens, ciência exagerada, e um cenário bem construído no Brasil de meados do século XIX.

Aliás, é interessante notar como muitos autores, a despeito de escreverem em um gênero que invariavelmente remonta a um imaginário de origem européia, decidiram ambientar suas histórias no país, e em geral com bons resultados. A Flor de Estrume, de Antônio Luíz da Costa, mistura com bastante humor história alternativa e personagens machadianos clássicos, e foi um dos contos que mais me divertiu na coletânea. O Plano de Robida: Un Voyage Extraordinaire, de Roberto de Sousa Causo, é também um bom conto, apesar do final inconclusivo, como se fosse apenas o primeiro capítulo de uma história maior (e não duvido que seja mesmo); mas, bem, é difícil falar mal de uma história que reúne piratas e combates aéreos, dois dos meus pontos fracos. Já Cidade Phantástica, de Romeu Martins, é outra história que tenta seguir o gênero mais à risca, com um resultado razoável – apenas achei o desenvolvimento dele um pouco apressado, embora a mistura de história alternativa com personagens de domínio público seja interesante.

Saindo da terra brasilis, temos Uma Breve História da Maquinidade, de Fábio Fernandes. Não é um conto ruim, mas o desenvolvimento dele é um pouco estranho – exceto no início e no final, quase não há personagens específicos, e a maior parte se dedica a narrar os acontecimentos que se seguem ao sucesso de uma certa invenção; a impressão que se tem é de estar lendo um livro de história, ou uma descrição de cenário de RPG. Mas não é uma história ruim, de qualquer forma, para quem gostar desse tipo de leitura. Já O Dobrão de Prata, de Cláudio Villa, é o conto que mais destoa dos demais, por ter muito pouco de vapor e especulação científica de qualquer tipo. Mas também não é ruim por causa disso – é mais calcado no suspense, bebendo de fontes como Edgar Allan Poe e H. P. Lovecraft, e é eficiente nessa proposta.

Uma Vida Possível Atrás das Barricadas, de Jacques Barcia, é provavelmente o conto mais estranho do livro, no bom sentido. Ele conta a história de um casal peculiar tentando sobreviver em meio a uma revolução política, misturando tecnologia à vapor, alta fantasia e folclore europeu em um grande caldeirão que acho que posso chamar com poucos riscos de erro de new weird – e o autor provavelmente concordaria, sendo um dos editores do finado projeto Terra Incognita (junto com o já mencionado Fábio Fernandes). Por Um Fio, de Flávio Medeiros, enfim, encerra o livro com chave de ouro, adiantando a corrida armamentista da guerra fria em mais de um século para descrever o embate entre duas tecnologias de guerra revolucionárias: o submarino e o aeróstato. O ritmo é cuidadoso e há algo de discurso filosófico na narrativa, além de uma ótima participação de dois personagens literários clássicos que só fica óbvia nos momentos finais; talvez seja mesmo o melhor conto do livro, ou ao menos o que mais me cativou.

De negativo, acho que não posso deixar de comentar a respeito do preço das edições da Tarja Editorial, que geralmente tendem a ficar um pouco caras em comparação com o tamanho dos livros. Não digo que não entendo as razões para isso, é claro – posso ser um leigo no assunto, mas tenho alguma noção das dificuldades de estabelecer uma boa tiragem para um lançamento de alcance restrito, entre outras razões que podem elevar o preço final -, mas é difícil não sentir uma certa ponta de hesitação quando se olha para os quarenta reais que ele custa. Acho que, não fossem as constantes promoções do site da editora, que colocam à venda pacotes de livros por preços especiais, eu não teria me animado a adquiri-lo.

De qualquer forma, para quem passar por essa barreira, não há muito o que se arrepender. É normal que coletâneas de contos, e em especial aquelas que reúnem vários autores, tenham os seus altos e baixos; e é bom notar que Steampunk – Histórias de um Passado Extraordinário tem muito mais dos primeiros do que dos segundos.

As Verdadeiras Memórias do Docteur Mystère

DocteurMystereVeritablesSouvenirsDu2_13012005Bon Dieu de la France! As Verdadeiras Memórias do Docteur Mystère é uma daquelas revistas em quadrinhos fáceis de deixar passar nas bancas para quem não está procurando especificamente por ela. Não é infantil, nem mangá, nem um super-herói americanóide; até o formato da revista é um tanto diferente, mais luxuoso, alto e largo que o formato americano tradicional. Trata-se, na verdade, de um fumetti italiano baseado em um personagem do segundo escalão dos romances de aventura do século XIX, e que se propõe a fazer um pastiche satírico muito bem humorado dos clichês e lugares-comum da literatura da época.

A versão nacional teve duas edições lançadas pela Mythos Editora, e eu sinceramente espero que não sejam as únicas, pois foram duas das leituras mais legais que eu fiz nos últimos anos. O tipo de humor irônico e sarcástico que as histórias possuem é muito divertido, tomando a Europa vitoriana como cenário e fazendo dezenas de referências literárias e à cultura pop, lembrando em alguns momentos o RPG Castelo Falkenstein e as histórias d’A Liga Extraordinária (a HQ do Alan Moore muito mais do que o filme com o Sean Connery, obviamente). Muitas destas referências, inclusive, são simplesmente hilárias, daquelas de fazerem rir sozinho e em voz alta – prestem atenção no “mantra do marinheiro estrábico” da primeira edição, ou em todas as referências a sagas espaciais na segunda, de Guerra e Jornada nas Estrelas até os mechas espaciais nipônicos.

A arte é compentente. O estilo europeu pode causar algum estranhamento a alguém acostumado com a estética dos comics ou dos mangás, mas é eficiente e se presta bem ao tema da história, e tem ainda o mérito de ser totalmente colorida. A narrativa, no entanto, é algumas vezes um pouco repetitiva – todas as páginas possuem um formato básico de 12 quadros uniformes, sendo que com alguma freqüência algum deles acaba ocupando o espaço que seria de vários; não é uma história focada na ação, mas sim nos diálogos, o que deve causar algum estranhamento a quem está acostumado com a narrativa mais dinâmica de um mangá, por exemplo. Mesmo assim, há ótimas sacadas gráficas, como as “estrelas” do espaço na segunda edição, ou o pupilo do personagem-título se aproveitando para apalpar as donzelas em perigo sempre que tem a chance.

Quanto ao roteiro, há uma continuidade que quem ler ambas as edições vai perceber, além de personagens recorrentes. No entanto, cada volume possui uma história fechada, que pode ser perfeitamente compreendida e usufruida mesmo por quem ler apenas um deles. Talvez se possa dizer que seja uma série para um público restrito, já que nem todos possuem as referências necessárias para entender e apreciar suas ironias e piadas; mesmo assim, para quem gosta de pastiche de gêneros, ficção científica retrô (especialmente à vapor), literatura de aventura, e afins, é sem dúvida uma das mais divertidas de se ler.


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