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Ms. Marvel & Gavião Arqueiro

Recentemente tem sido lançadas por aqui, em encadernados de capa dura bastante caprichados, duas das séries mais bacanas produzidas pela Marvel em muitos anos. Como os volumes de ambas estão saindo praticamente ao mesmo tempo, acho que podemos falar delas em conjunto, ao invés de gastar um post inteiro apenas para cada uma.

ms-marvelEm primeiro lugar temos a nova Ms. Marvel. Kamala Khan é uma adolescente comum de Jersey City, que, após fugir de casa para ir a uma festa com os colegas de escola, se vê inalando uma névoa misteriosa que atingiu a cidade e lhe concedeu superpoderes metamórficos. Fã dos Vingadores, se inspira em uma de suas heroínas preferidas para escolher uma alcunha e proteger a cidade de perigos e vilões.

Kamala pertence àquele nicho muito particular dos super-herois, os herois adolescentes. Em certo sentido, ela faz aquilo que personagens como o Homem-Aranha, por toda a sua história prévia, já deixaram de fazer há algum tempo: cumpre o papel do herói que deve salvar a cidade, enfrentar vilões, e terminar tudo antes de se atrasar para a escola. Seu universo, no entanto, é atualizado em relação ao cabeça de teia, e por isso muito mais contemporâneo, com direito a celulares e internet onipresentes. Entre uma aventura e outra, espere vê-la lidando com dilemas muito mundanos, do conflito da sua rebeldia adolescente com a família tradicional até o relacionamento com colegas e amigos na escola.

Acima de tudo, Kamala esbanja carisma. É uma personagem com quem é muito fácil se identificar, pelo menos para quem passou pela experiência de ser um fã de quadrinhos adolescente. Nerd, chega mesmo a tietar seus ídolos quando os encontra em meio às histórias – o seu encontro com o Wolverine no segundo volume é simplesmente sensacional. O mesmo vale para os coadjuvantes das histórias, indo desde a família e amigos próximos, passando pelo mascote Dentinho, e até o próprio vilão Inventor; é fácil criar histórias envolventes e cativantes quando se tem um elenco de personagens tão carismático e imaginativo, e isso fica muito evidente quando se lê estes volumes.

Note que tentei evitar até aqui falar aquela palavrinha mágica, que por alguma razão além da minha compreensão virou meio que tabu e muito associada a essa última reinvenção do universo Marvel. Mas vou dizer logo então pra me livrar desse peso: representatividade.

Ms. Marvel é, sim, uma série que busca a representatividade. De alguma forma apenas ter uma protagonista mulher se tornou hoje algo quase subversivo; e a série ainda vai além, representando uma população (os muçulmanos americanos) que não costuma aparecer em destaque com muita frequência nos quadrinhos mainstream. E não pense que ela tenta fugir ou se esconder desse subtexto: ele é sim colocado em primeiro plano, na própria Kamala, a forma como a cultura da família traz conflitos e dilemas à personagem, e mesmo a trama desses primeiros arcos de histórias, que envolve adolescentes aliciados para um culto que os convence a se sacrificar por um suposto bem maior (defina alegoria). A autora, G. Willow Wilson, ela própria uma muçulmana americana, traz muito da sua experiência pessoal para a série, dando-a mais significado e verossimilhança.

Se eu não mencionei esse aspecto até aqui, é porque não queria reduzir uma série tão fantástica apenas a ele. Ao mesmo tempo, no entanto, ele não pode realmente ser separado dela – Ms. Marvel não é uma série fantástica “apesar da representatividade;” ter esse elemento faz parte do que a torna tão legal. Torna os conflitos e dilemas da personagem mais reais, deixa o seu universo mais contemporâneo e significativo, e de uma maneira geral a reveste de personalidade e atitude. O fato de ser uma série tão bem escrita, e ter personagens tão carismáticos, apenas potencializa isso. Mas se ainda assim você não conseguir gostar, apenas porque a protagonista é mulher ou muçulmana… Olha, sinto muito dizer, mas não é a representatividade que é o problema aqui.

gav-arqueiroA segunda série recebendo encadernados nacionais não chega a tratar de temas tão polêmicos. Vendo em um primeiro momento, aliás, chega a parecer o exato oposto: uma série sobre um protagonista homem, branco, cis-hétero. Mas isso não a torna menos bacana também – na verdade, é um mérito e tanto conseguir pegar um dos personagens normalmente tidos como mais sem graça da editora, e reinventá-lo como um dos mais legais e carismáticos.

Em Gavião Arqueiro, vemos a vida de Clint Barton quando não está se aventurando com os Vingadores. Aqui o fato de ele ser o “cara normal” do super-grupo – pelo menos tão normal quanto alguém capaz de enfrentar uma horda de mafiosos armados usando apenas arco e flecha pode ser – se torna o mote condutor da história: o vemos no dia-a-dia, em atividades cotidianas, lidando com problemas da vizinhança, e, claro, enfrentando a eventual gangue de mafiosos.

Há uma pegada meio noir contemporâneo nos roteiros, dos antagonistas oriundos do mundo do crime até a presença constante de femme fatales (algumas das quais entre suas companheiras de equipe). A caracterização do herói mesmo bebe muito dessa fonte: vemos Clint como um personagem mal compreendido, emocionalmente destruído, que busca de alguma forma fazer o que parece certo por meios nem sempre assim tão corretos. Como qualquer detetive durão de Raymond Chandler, espere vê-lo apanhando bastante de capangas e oponentes antes de conseguir resolver os problemas em que acaba se metendo.

É muito fácil se identificar com a relutância de Clint, que não é bem um super gênio, soldado experimental, nem portador de poderes radioativos; e os autores se aproveitam muito disso nas histórias. Longe das ameaças cósmicas de destruição do planeta, seus problemas são de fato muito mais mundanos, envolvendo relacionamentos com mulheres, a preparação para festas natalinas, até a forma como ajuda seus vizinhos a lidar com uma enchente na cidade.

O ponto em que a série mais se destaca, no entanto, mais do que os próprios roteiros, é a narrativa arrojada desenvolvida pelos autores. O enquadramento dos quadrinhos são muito dinâmicos, como em um filme de ação tarantinesco, buscando ângulos inesperados para mostrar o que está acontecendo. Em algumas histórias você quase consegue ouvir a trilha sonora de rock independente. E frequentemente há espaço para experimentalismos narrativos, que exploram as características dos quadrinhos que não podem ser replicadas em outras mídias – como idas e vindas no tempo entre as páginas, ou uma história inteira contada do ponto de vista de Sortudo, o cachorro de Clint, com sacadas visuais geniais para dar conta da sua percepção guiada pelo faro.

Tanto Ms. Marvel como Gavião Arqueiro, enfim, representam o melhor que a Marvel produziu nos quadrinhos em muito tempo. São séries fantásticas, que simplesmente não podem ser ignoradas por quem gosta do gênero.

Astro City

astro_city_herois_locaisEm um tempo onde cada temporada de cinema é dominada por adaptações de super heróis, pode ser difícil por certas coisas em perspectiva, e lembrar que, num passado não tão distante, ser um leitor destas histórias depois dos doze anos não era exatamente algo bem visto socialmente. Lembro bem dos meus quinze anos, rezando para o Vigia para que minhas coleções de gibis e bonecos dos X-Men não fossem descobertos, e meu já difícil relacionamento com colegas de escola só piorasse.

De alguma forma, no entanto, as coisas mudaram, e hoje os tais nerds tem o poder da cultura pop ao seu lado. Gostar de super-heróis aos quinze ou vinte ou trinta anos nem sempre é motivo de vergonha; na verdade, é bem possível que seja um aspecto bem importante do seu convívio social. Até pela minha profissão de historiador, não consigo não ter uma certa visão processual sobre esse fato, e não achar que os tempos atuais são, de certa forma, bastante estranhos (mas nunca vou achar que são piores por isso, é bom deixar claro).

Num contexto assim uma série como Astro City consegue atingir um zeitgeist bem particular, e é muito propício que esteja sendo relançada por aqui em encadernados regulares, obedecendo à ordem de publicação original. Já falei dela antes, quando outras editoras tentaram fazê-la emplacar; mas acho que poucas vezes estivemos em um momento tão potencialmente receptivo a ela.

A série foi criada por Kurt Busiek, Alex Ross e Brent Anderson, e revisita muitos dos temas que os dois primeiros já haviam explorado com personagens clássicos em suas obras-primas mais conhecidas, Marvels e Reino do Amanhã. Em certo sentido, é uma inversão de valores do cinema de super-heróis recente: ao invés de tentar imaginar como seriam super-heróis no mundo real, seguindo essa fórmula tão manjada que tem nos dado resultados tão duvidosos, Astro City busca imaginar como seria o mundo real se super-heróis existissem nele. Ou, talvez dito de forma melhor, como seriam as pessoas do mundo real em um universo assim. Mais do que o aspecto político ou social, é o aspecto cultural e humano que os autores buscam, o que já fez com que fosse chamada de “o romance de costumes do mundo dos super-heróis.”

Astro City deve ter sido a primeira série a seguir aquela fórmula de reimaginar os super-heróis mais icônicos em versões genéricas – você sabe, criar o Super-Homem, a Mulher Maravilha, o Capitão América locais, com outros nomes e uniformes -, e usá-las para contar as histórias que não poderiam com os originais, por tudo o que representam não apenas culturalmente, mas mercadologicamente mesmo. Isso não significa que todos os heróis presentes tenham um equivalente nas grandes editoras – há muitos conceitos originais, desde os mais esdrúxulos, como o Caixa-de-Surpresas e El Hombre, até os mais curiosos e fascinantes, como Léo Lelé -, mas, quando você lê uma história do Samaritano sobre como a atribulada vida de guardião maior da justiça o deixa com pouco tempo para aproveitar o simples prazer de voar, bem, você sabe de quem os autores estão falando.

Talvez seja justamente essa exploração do lado humano de um mundo onde ser apenas “humano” está longe de ser a regra que separe Astro City da maioria das outras reinvenções tomadas de nostalgia e saudosismo. Para um gênero (e uma mídia) muitas vezes relegadas a uma classificação de entretenimento menor, há muito ali de Literatura com L maiúsculo, de exploração de sentimentos e dramas e mesmo questionamentos sociais, éticos e morais. Então uma história da Primeira Família (uma versão local do Quarteto Fantástico) pode questionar o papel da infância, e as consequências de uma educação enclausurada e superprotegida. Outra, o longo arco que compõe o quarto volume encadernado, referencia a literatura noir com uma trama melancólica sobre redenção e desencanto (embora com um ato final que pareça jogar tudo pro alto em um blockbuster de ação, mas ei, não dá pra fugir sempre da sua referência base).

No fim das contas, Astro City é simplesmente uma série fantástica, que merece todo o hype que recebe da crítica especializada, e certamente muito mais popularidade e burburinho do que tem de fato. Talvez não seja para todo mundo – pode ser preciso mesmo uma história prévia com super-heróis para entender o que ela propõe, e entrar no jogo de referências -, mas, com a evidência do seu gênero atualmente, certamente há de encontrar o seu espaço. Para quem não conhece, recomendo muito que se aproveite o relançamento dos encadernados pela Panini.

Grandes Astros Superman

grandes-astros-supermanJá é repetitivo falar isso, mas realmente não considero o Super-Homem um dos meus personagens favoritos. Como explicar, no entanto, que sempre que me coloco a escrever resenhas sobre alguma história dele, acabo elogiando exageradamente, mesmo quando aparentemente vou contra a opinião corrente a respeito?

Bom, meu chute é que tenha a ver com o fato de que eu realmente seleciono aquilo que leio sobre ele – afinal, como bem disse Alan Moore certa vez, não existem personagens ruins, o que existem são roteiristas ruins. E realmente, é preciso um roteirista inteligente para entender o que torna o Super-Homem o símbolo que ele é, e conjugar isso tudo em um roteiro eficiente e cativante; mas, quando aparece alguém assim, é difícil não sair dali algo menos que uma obra-prima. Gente como Kurt Busiek é capaz disso. E gente como Grant Morrison também, como mostra Grandes Astros Superman.

Começo pelo argumento geral da história, que consegue tirar leite de pedra em apresentar uma história que realmente nunca foi contada – a história da morte do Super-Homem. Mas não a morte épica, como apresentada naquela ultra-saga da década passada, e sim a morte humana, comum, “morrida.” Não se trata de saber o que o mundo faria ao perder o seu maior herói, mas sim do que esse próprio herói faria ao descobrir que o fim é próximo e inevitável. Capítulo a capítulo, então, vemos o Super se preparando para esse momento, resolvendo aqueles assuntos pessoais pendentes e lidando com fantasmas passados. Cada edição apresenta um episódio fechado dessa preparação, que lida com o ícone do Super-Homem sob diferentes aspectos, naqueles que depois serão chamados “os doze trabalhos do Super-Homem”.

É realmente impressionante como o roteiro consegue lidar com toda a tralha de décadas e décadas de roteiros enfadonhos sem perder o compasso, das kryptonitas coloridas a Krypto, o super-cão – pois trata-se, aqui, do Super-Homem clássico, aquele da Era de Prata e tudo mais. Morrison consegue utilizar tudo isso realmente como apoio para a história que está sendo contada, sem nunca torná-los uma justificativa para o roteiro em si; consegue até mesmo criar ótimas deixas para tirar sarro desses elementos mirabolantes que eram comuns em certa épocaé dos quadrinhos de super-heróis.

E, claro, também não se pode deixar de comentar o trabalho do desenhista Frank Quietly. Ainda que sem um traço exuberante ou virtuoso, o trabalho de ilustração é perfeito, recheada de boas sacadas narrativas e, principalmente, com um trabalho de expressão anatômica muito destacado, principalmente nas diferenças de postura e expressão entre o Super-Homem e o alter-ego Clark Kent.

Enfim, Grandes Astros Superman é o tipo de série que justifica a existência de um personagem. Talvez não seja todo mundo que realmente o aprecie, claro; quem espera um Smallville em quadrinhos, por exemplo, vai achar uma boa dose de elementos estranhos, bem como alguém que espere algo mais na linha do Super pós-John Byrne (que também é bom nos seus próprios termos, claro, de um jeito diferente). Mas eu, pelo menos, apreciei bastante cada edição.

Super Haicai

passaroÉ um pássaro?
É um avião…?
…é um pássaro.

Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Não acredito que eu tenha visitantes de Marte para precisar fazer uma introdução muito grande sobre Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Trata-se do encerramento da trilogia de Christopher Nolan sobre o personagem, que começou em 2005 com Batman Begins e seguiu 2008 com O Cavaleiro das Trevas. Os três filmes fazem uma releitura de grande sucesso, tanto de público como de crítica, de toda a mitologia em volta do personagem, fugindo das cores e onomatopeias dos quadrinhos para dar a ela um tom mais sombrio e, dentro do possível em uma história que tem como protagonista um bilionário fantasiado de morcego combatendo o crime, realista.

Desta vez a ação ocorre oito anos após o filme anterior, quando Bruce Wayne, após assumir a culpa pela morte de Harvey Dent, abandonou o uniforme de Batman e se tornou recluso em sua mansão. A chegada de um novo vilão a Gotham, no entanto, faz com que ele precise sair do isolamento para impedir uma catástrofe sem precedentes, e no caminho acabe enfrentando os fantasmas acumulados de todos esses anos longe dos holofotes.

Acho que o que mais me chamou a atenção aqui foi a forma como o diretor reuniu várias sagas e histórias da carreira do herói em um único roteiro – apenas olhando por cima, é possível pegar elementos de O Cavaleiro das Trevas, O Filho do Demônio, A Queda do Morcego, Terra de Ninguém e até algo da série animada Batman Beyond -, e ainda assim conseguiu deixar ele bem amarrado e estruturado. As referências não param aí, é claro, e incluem ainda diversos elementos visuais e pequenas gags que apenas os fãs mais devotados vão reconhecer. Para além desse pequeno presente de encerramento, ele segue a mesma proposta dos filmes anteriores, usando o personagem para fazer um retrato do estado de espírito norte-americano após os atentados de 11 de setembro de 2001; as referências à paranoia e à guerra ao terrorismo são bastante evidentes, e é difícil imaginar que um filme de super-herois pudesse ser feito desta forma antes daquela data. No entanto, achei que faltou também o discurso sociológico mais apurado que havia no filme anterior, e a ambiguidade moral deixada pela escolha final de sustentar a luta contra a criminalidade em uma mentira.

Nesse ponto, em todo caso, acho que a escolha de Bane como vilão principal até acabou sendo bem acertada, apesar de eu ter tido minhas desconfianças em um primeiro momento. Nolan soube aproveitar bem as suas características que poucos parecem notar: mais do que um brutamontes anabolizado, ele é um vilão extremamente frio e calculista, cujos métodos envolvem longas torturas psicológicas antes de chegar ao primeiro golpe físico. A atuação de Tom Hardy nem de longe possui o mesmo brilho que Heath Ledger deu ao Coringa, é claro, mas, escondido o tempo todo por uma máscara, também não chega a decepcionar.

Se não há um Ledger no elenco, quem rouba a cena mesmo sempre que aparece é Joseph Gordon-Levitt como o policial esquentado mas bem intencionado que descobriu sozinho a identidade do herói. Anne Hathaway é linda e incorporou muito bem a Mulher-Gato, com uma atuação reminiscente da personagem na clássica série de TV, mas acho que sofre com outro problema: ela está um pouco fora do tom dos demais, parecendo uma personagem de quadrinhos perdida em meio ao realismo a que o filme se propõe. Possui habilidades quase sobre-humanas e participações repletas de punchlines, além de uma dinâmica com o Batman em cenas de ação que parece tentar emular Os Vingadores. A impressão final que fica é que ela foi meio que forçada no roteiro, provavelmente como uma exigência dos produtores ou algo assim. Também achei que o Michael Caine saiu de cena um pouco cedo demais, nos privando do seu ótimo Alfred a maior parte do filme mais do que ao Batman com seus conselhos paternais.

A direção de Nolan de maneira geral também possui seus altos e baixos, por mais que de maneira geral não baixe o nível dos trabalhos anteriores. A tentativa de fazer uma cena inicial tão impactante quanto a de O Cavaleiro das Trevas não foi exatamente bem sucedida, mas conseguiu abrir o filme de maneira eficiente.  Apenas achei que o uso de flashbacks para retomar os acontecimentos anteriores ficou um pouco repetitivo.

Mas enfim, na soma final, pequenos detalhes à parte, Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge ainda é um filme fantástico, cujo único grande defeito mesmo que eu consigo pensar é o de não ser tão bom quanto o anterior. Ainda assim, é um encerramento de luxo, se juntando aos dois anteriores na sua redefinição de paradigmas e estabelecendo novos patamares de qualidade para as adaptações de super-heróis no cinema. O filme do ano, provavelmente.

The League of Extraordinary Gentlemen: The Black Dossier

Não tenho estado exatamente muito empolgado com a última saga da Liga Extraordinária. O que antes era um mashup muito bem cuidado e divertido, mas sem por isso deixar de ser sério e sombrio, de obras literárias dos dois últimos séculos parece ter virado uma ode ao misticismo proferido pelo Alan Moore na sua vida particular, enquanto os protagonistas cada vez mais se afastam das suas personas originais e se tornam personagens completamente diferentes. No meio disso tudo, referências que precisam ser decifradas, para não terem problemas legais por estarem ainda fora de domínio público, tiram um pouco da graça da idéia original. Certamente há quem esteja achando ela interessante, é claro, mas à parte por polêmicas gratuitas, não vejo muito aonde ele quer chegar.

Em todo caso, entre as duas obras-primas originais e o seu momento jumping the shark, temos The League of Extraordinary Gentlemen: The Black Dossier. Este volume intermediário não pode ser lançado fora dos Estados Unidos por problemas legais, já que faz alusões diversas a personagens que ainda estão sob as leis de direitos autorais, fora o fato de o próprio Moore ter rompido relações com a DC Comics, que comprou a editora Wildstorm que publicava as histórias do grupo. Em certo sentido, pode-se dizer que ele faz a passagem de um momento para o outro: as referências ao mundo literário ainda estão no centro da narrativa, se estendendo até meados do século passado e incluindo até mesmo alguns elementos do cinema e dos quadrinhos, e eventualmente terminam por levar à salada indistinguível de personagens obscuros que a série se tornou nos últimos volumes.

Destaco, no entanto, que ela realmente vai muito além disso na sua proposta. Todo o livro é um exemplo único de design e composição, praticamente um experimento multimídia literário. A base do enredo é o dossiê negro do título, que os protagonistas Allain Quatermain Jr. e Mina Harker roubam da ala secreta do Museu Britânico. Ele reconta a história das Ligas reunidas pelo Império Britânico desde o século XVII até o fim da Segunda Guerra Mundial através de colagens de publicações e memorandos secretos, o que serve de deixa para que Moore explore referências e estilos: há desde romances ilustrados a peças shakespeareanas, passando por uma bíblia de Tijuana e mesmo um trecho de um romance beatnik.

A maior parte do volume é composto por estes documentos, enquanto o enredo da história em quadrinhos em si, que envolve a fuga dos dois protagonistas do Reino Unido, fica em geral em segundo plano. Pode-se dizer, assim, que ele funciona na verdade como uma espécie de livro de apoio para a série, delineando detalhes do cenário e personagens secundários que não são propriamente desenvolvidos pelas outras histórias. A forma indireta como tais elementos são apresentados, no entanto, em geral impede que estas apresentações fiquem maçantes, muito embora certos trechos possam ser realmente difíceis de superar.

Se passando na década de 1950, a história também tenta ambientar os personagens com relação às referências da época. Há espaço para James Bond e os Vingadores (não, não os da Marvel), muito embora eles não sejam referidos diretamente pelos seus nomes – num truque para tentar escapar dos direitos autorais, aparentemente sem sucesso, eles são referidos sempre por apelidos ou alcunhas menos conhecidas. O partido Ingsoc de 1984 também possui uma participação importante entre outras referências mais obscuras, bem como Orlando, personagem de Virginia Woolf que também foi bastante descaracterizado da sua persona e história originais (e agora que eu já li o livro eu posso falar isso =P).

Uma última surpresa ainda é guardada para o fim da história: toda a seqüência final é apresentada em três dimensões, para ser vista através de um par de óculos 3D destacáveis nas páginas centrais! É um espetáculo visual à parte, com direito mesmo a alguns truques curiosos de ilusões óticas. Acredito que o momento mais marcante, no entanto, seja o discurso do Duque Próspero de Milão, personagem de Shakespeare transformado aqui no líder precursor da Liga, que encerra o livro destacando o objetivo da série como um todo: o de ser uma homenagem à ficção e à imaginação, nos lembrando da importância que eles possuem para a alma humana e o nosso próprio avanço enquanto civilização. Ou, como ele mesmo diz, se nós somos meras fantasias, o que dizer de vocês, que roubam a sua substância de nós? Não apenas vocês, mas toda a humanidade no seu progresso emula as fábulas. Ou de onde viriam os seus foguetes e submarinos se não do Náutilus, da carvorita? (…) Duas mãos ilustrantes, cada uma desenha a outra: as fantasias que você criou criam você.

The League of Extraordinary Gentlemen: The Black Dossier, enfim, é uma experiência de leitura única e envolvente, e poderia ter sido um fim bastante digno para a série. Ele já começa a demonstrar alguns dos vícios que os volumes seguintes aprofundariam, mas no geral, por todo maravilhamento do seu experimento narrativo, bem como pelo seu discurso em favor da ficção e da imaginação, é certamente uma leitura que vale a pena.

Superman – O Retorno

Bueno, como uma meia dúzia de outros HQéfilos metidos a sabe-tudo, eu também não sou exatamente um grande fã do Super-Homem. Tudo bem que ele pode ser o ícone máximo de uma mídia e também de um gênero, mas sei lá, não acho ele um personagem assim tão interessante e de características tão aproveitáveis. Pôxa, ele é super! Ele pode tudo! Ele é indestrutível! Qual é a graça nisso? E isso sem entrar, é claro, em toda a americanofilia que ele representa e o seu papel cultural no confronto de ideologias políticas.

Mas é claro também que eu não desprezo ele enquanto personagem – gosto muito mais do Batman, mas ele tem alguns elementos bem interessantes de serem explorados quando nas mãos de um roteirista eficiente. Existem pelo menos dois “modelos” de história clássicos que funcionam muito bem com ele: uma é o lado político da existência de um super-homem, tão bem aproveitada em grandes obras dos quadrinhos como O Reino do Amanhã, Entre a Foice e o Martelo, e em alguns episódios (os melhores, geralmente) da velha série animada da Liga da Justiça; e o outro é o lado pessoal, a do super que vive entre pessoas normais, e que foi também já muito bem aproveitada em histórias como Identidade Secreta e também no ótimo primeiro filme do Super-Homem, aquele com o Cristopher Reeve. Este segundo modelo é também o caminho que segue Superman – O Retorno.

E aí temos toda aquela questão que os fãs chatos sempre reclamam, das mudanças do personagem, da Lois Lane quase casada e com um filho e tudo mais. O fato, no entanto, é que isso tudo funciona muito bem dentro do filme, e ajuda mesmo a dar uma profundidade diferenciada aos personagens e ao roteiro, naquele gênero “super-heróis com coração” que as adaptações para cinema têm tentado seguir pelo menos desde o Homem-Aranha. O filme realmente dá mais atenção a esse lado dramático, embora a parte da ação também esteja muito bem representada – com direito a final apoteótico e simbolismos religiosos.

Os atores não chegam a decepcionar. O Brandon Routh é melhor como Clark Kent do que como Super-Homem, mas de maneira geral está ótimo como ambos; a Kate Bosworth não impressiona muito, mas também não achei ela tão decepcionante (e ela é uma gracinha); o Kevin Spacey é deliciosamente maluco como Lex Luthor, apesar de estar meio solto na trama, como o super-vilão com planos megalomaníacos genéricos de dominação mundial da vez; e o James Mardsen é uma boa surpresa como Richard White, o “outro” da Lois Lane. Os efeitos digitais, no entanto, estão um pouco estranhos e “borrachudos” em alguns momentos, apesar de no geral funcionarem bem.

Enfim, fazem já alguns anos que Superman – O Retorno saiu, e a sua recepção entre os fãs desde então não melhorou muito exatamente. Mas, se eu posso ter uma opinião própria, independente do que outros possam achar, ainda vejo ele como uma produção muito bacana e instigante, a prova da capacidade do diretor Bryan Singer dentro do gênero, e uma grande homenagem à cinessérie original, com direito a dúzias de referências e uma certa participação muito especial. Faltou alguma coisa? Ah, sim, ainda tem o tema musical clássico composto pelo mestre John Williams, que simplesmente não tem preço.


Sob um céu de blues...

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