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Íncubo

Paula amava os livros. Acho que foi isso que primeiro me atraiu nela. Não, me desculpe, estou mentindo – o que primeiro me atraiu em Paula foi a forma como ela mexia os quadris ao caminhar. Sou um homem, o que posso fazer? Mas os livros tiveram um papel importante mesmo assim, pois a primeira vez em que reparei nos seus movimentos foi em uma biblioteca. Eu estava sentado em uma das mesas, folheando um exemplar de algum autor que me interessava então, quando a notei passando ao meu lado em direção às estantes. Fazíamos o mesmo curso na mesma faculdade e estávamos na mesma turma em diversas disciplinas, de forma que logo a reconheci. Pertencíamos a grupos diferentes de amigos, no entanto, e sequer sabíamos os nomes um do outro. Assim, se ela me reconheceu, não me cumprimentou, e eu também não chamei a sua atenção de qualquer forma. Apenas a observei enquanto caminhava, os quadris balançando como ondas entre um lado e outro do corpo, até dobrar em um corredor de estantes e desaparecer da minha vista.

Durante as semanas seguintes, nas aulas que dividíamos, não consegui prestar atenção em outra coisa que não fosse Paula. Roubava olhares entre as explicações dos professores, a buscava entre as cabeças dos colegas que nos separavam. Decorei todos os detalhes do seu rosto, dos cabelos marrons na altura dos ombros ao pequeno sinal que tinha na bochecha esquerda, próximo ao nariz, passando pelos lábios finos, como se desenhados por um lápis recém apontado, e os olhos da cor do mel protegidos por um par de óculos – e me perdoem se eu admitir que mulheres de óculos sempre me pareceram mais sexies e atraentes. Acho até que seria capaz de adivinhar suas medidas, tanto tempo que passei observando: pouco mais do que um metro e sessenta de altura, acredito, e um pouco cheia no busto e nos quadris, mas não tanto que isso fosse um defeito. Tudo bem, não é uma estimativa muito exata, mas tenho certeza de que saberia dizer se uma peça de roupa serviria nela apenas de olhá-la.

Você com certeza já percebeu aonde quero chegar. É claro que eu não era mais um adolescente, e não vou dizer que estava apaixonado por Paula antes de trocarmos uma palavra sequer. Mas, bem, eu estava sim interessado nela. Muito interessado. Tinha mais certeza disso cada vez que cruzava com ela na biblioteca, o que já acontecia com alguma freqüência. Parecia incrível encontrar alguém que a freqüentasse mais do que eu. Ensaiava começos de conversas, pensava em assuntos que poderiam interessá-la. Éramos colegas em várias aulas, então não deveria ser difícil perguntar sobre alguma prova ou fazer um comentário sobre um dos professores, certo?

Mas essas coisas nunca são tão simples, é claro. Não que eu fosse exageradamente tímido, mas também nunca fui exatamente um pegador. Sempre que me aproximava com uma frase na ponta da língua, acabava recuando no último instante. Às vezes isso acontecia pelo medo de ser rejeitado, e de me tornar motivo de piada na turma. Outras, pelo contrário – o medo justamente de ser bem recebido, de ela também se interessar por mim, e eu não saber mais o que fazer, ou, pior, de ela ser completamente diferente de como eu a imaginava. Passei algumas semanas nessa indecisão, chegando a poucos metros de abordá-la e então voltando atrás. Até que veio a festa.

Era uma dessas festas de faculdade típicas, em que os alunos se reúnem em um centro estudantil munidos de engradados de cerveja, garrafões de vinho e um bom aparelho de som. Acho que estavam arrecadando dinheiro para custear uma viagem a um encontro de estudantes em uma cidade do interior, ou talvez para reformar o centro, não lembro com certeza. Talvez apenas quisessem uma desculpa para se embebedar e rolar alguma pegação, como geralmente é o caso. O importante é que Paula estaria lá, e seria uma boa oportunidade para eu tentar me aproximar. De fato, assim que a vi sozinha e tive uma oportunidade, me aproximei e tentei puxar uma conversa.

– Oi. – eu disse.

– Oi. – ela respondeu.

– Gostando da festa?

– Sim.

– Pois é.

E foram essas todas as palavras que trocamos naquela noite.

Saí de lá pouco depois, me odiando. Foi só no dia seguinte que soube que Paula havia ficado com Júlio César, outro colega nosso e um dos meus melhores amigos na faculdade. Mais alguns dias e soube também que haviam começado um namoro sério. Reagi bastante bem à notícia, até. De alguma forma, a possibilidade de tê-la tão perto me ajudou a superar o que eu achava que sentia. Sabia que ela logo não seria mais uma estranha misteriosa, mas se tornaria uma presença constante no nosso grupo de amigos, o que talvez reduzisse um pouco do seu charme para mim.

Uma vez apresentados, nos tornamos bons amigos rapidamente. Ainda nos cruzávamos com freqüência na biblioteca, mas agora sabíamos nossos nomes e nos cumprimentávamos, além de muitas vezes dividirmos a mesma mesa de leitura. Reparei em alguns livros que ela retirava com freqüência, como A Divina Comédia e Paraíso Perdido, além de um volume antigo cujas páginas amareladas haviam sido restauradas e colocadas em uma encadernação nova, que não estampava o título. No início não me incomodei muito a respeito, mas vê-la tantas vezes com ele em mãos despertou minha curiosidade, até que um dia não resisti perguntei sobre o que tratava.

– Ah, é um livro velho sobre demônios que eu encontrei por aqui. – ela respondeu.

– Demônios? – acho que eu parecia um pouco assustado, pois ela me olhou de forma séria, e a sua voz assumiu um tom defensivo.

– Sim. Você não é crente, é?

– Não, não. Eu só não esperava por algo assim.

– E você tem algum problema com isso?

– Não, claro que não. Todo mundo tem seus gostos estranhos. Eu mesmo ainda leio histórias em quadrinhos de super-heróis. – tentei forçar uma risada, mas ela ainda me olhava com seriedade. – Na verdade, tudo o que sei sobre o assunto vem de alguns jogos de RPG.

– Mas você não leva eles a sério, né?

– Não, claro que não.

A conversa seguiu com uma verdadeira aula sobre o assunto. Paula sabia de cor todas as principais entidades associadas ao Inferno, e era capaz enquadrá-las em diversas de classificações diferentes. Citou polêmicas e debates que existiam entre os estudiosos, falando com o mesmo fervor de alguém discursando sobre política ou futebol. Seus olhos brilhavam cada vez que dizia palavras como “íncubo” ou “súcubo”. Saí de lá um pouco desnorteado, ainda digerindo a surpresa de todo aquele conhecimento que ela possuía.

Na outra metade do namoro, Júlio parecia muito feliz. Era uma pessoa tímida, especialmente com as mulheres, e Paula era a sua primeira namorada que conhecíamos. Na verdade, ele parecia mesmo mais leve e relaxado, como se tivesse tirado um peso das costas quando começaram a sair, principalmente quando a turma toda estava junta. Fazia piadas com mais freqüência e não se retraía tanto quando falávamos de assuntos mais íntimos, como quando conversávamos sobre sexo.

Lembro de uma vez em que estávamos apenas os homens do grupo em um bar, tomando umas cervejas após um jogo de futebol, e, após algumas garrafas, o assunto apareceu. Sei que não é exatamente o tipo de coisa de que se fala tão abertamente, mas, bem, estávamos todos já um pouco altos, então um de nós contou alguma experiência que teve com uma ex-namorada e foi seguido por outros relatos dos demais presentes. Não demorou e já estávamos falando das atuais, até mesmo eu, que na época estava saindo com uma garota que conhecera em uma festa de outro curso. Já tínhamos ouvido uma boa quantidade de casos picantes quando Júlio, que ainda estava um pouco quieto, apenas ouvindo as histórias dos outros, nos interrompeu.

– Cara. – ele falou e suspirou devagar, como se calculasse o tempo de silêncio necessário para despertar nossa curiosidade. – Vocês não vão acreditar em tudo que eu e a Paula já fizemos.

E, de fato, não acreditamos. Júlio monopolizou todo o resto da conversa. Ouvimos atentos cada experiência que contava, balançando a cabeça em negação a cada detalhe que parecesse surreal demais para ser verdadeiro, e pedindo por mais em cada momento de silêncio. Parecia incrível que uma mulher, qualquer mulher, fosse capaz de se rebaixar da forma como ele dizia, e chegar a níveis tão extremos de devassidão. E ainda mais que tal mulher fosse Paula, por quem eu tivera uma paixão platônica ainda tão recente, e que eu ainda enxergava como algum tipo de poço de pureza virginal. Naquele dia, ao chegar em casa, fiz coisas que não me imaginava fazendo de novo desde os dezessete anos.

Levei algum tempo para me recuperar do que ouvi. Evitei Paula por uns dias, inventando desculpas e fingindo compromissos. No fim, no entanto, acabei cedendo, e voltei a falar com ela. O fato é que já éramos amigos bons demais, até mesmo com uma certa intimidade. Senti falta das nossas conversas sobre livros e literatura na biblioteca durante o tempo em que não nos falamos. E, bem, todos têm seus segredos sobre o que fazem entre quatro paredes, quando ninguém mais está olhando. Até mesmo eu. Como poderia julgá-la?

Mas acho que Paula percebeu que havia algo de errado. Notei alguma diferença na sua voz quando falava comigo, e uma postura mais distante e defensiva nas nossas conversas. Ela buscava se manter nos assuntos mais formais, como coisas que estávamos lendo ou os conteúdos das aulas que freqüentávamos. Quando um tema pessoal surgia, desviava dele assim que possível, voltando ao que falávamos antes ou buscando um novo assunto para discutir. Muitas vezes eu tinha a impressão de que ela escondia algo, alguma coisa que pensava mas não se atrevia a dizer, como se tivesse medo da minha reação.

Um exemplo de como iam essas conversas foi a vez em que reparei que a via ainda mais freqüentemente com o livro sobre demônios, aquele da encadernação restaurada. Se antes era apenas uma retirada recorrente, agora era praticamente impossível encontrá-la sem ele debaixo do braço. Perguntei sobre como iam as pesquisas de demonologia, esperando vê-la discursar com o mesmo fervor de antes, mas ela apenas respondeu que iam bem antes de mudar de assunto. Um pouco surpreso pela rejeição, preferi não voltar a falar sobre isso.

Algum tempo depois, soube que seu namoro com Júlio não estava indo muito bem. Era fácil de perceber vendo-os de fora: os dois já não se entendiam como antes, suas expressões e movimentos traíam um tanto de enfado quando estavam juntos, e seus diálogos eram repletos de alfinetadas e indiretas. O próprio Júlio confessou certa vez para os amigos, eu entre eles, que as coisas não andavam muito bem, e que estava desconfiado de que havia outra pessoa tentando tirá-la dele.

A notícia teve um efeito ambíguo em mim. Por um lado, Júlio era um dos meus melhores amigos, e eu não gostava de vê-lo angustiado desta forma. De outro, no entanto, eu realmente gostava de Paula, e a possibilidade de vê-la solteira outra vez fazia renascer sentimentos que eu acreditava já estarem superados. Caso a situação chegasse a um ponto crítico, não saberia dizer de que lado ficaria. Não ajudava ainda o fato de que Júlio logo começou a me tratar também com alguma frieza, como se quisesse se afastar de mim, mas não tivesse coragem de simplesmente romper relações. Seu tom de voz ao falar comigo era seco e direto, e ele parecia me evitar sempre que possível. Quando me encontrava junto com Paula eu podia quase ver os seus olhos entrando em combustão, tamanha a ferocidade reprimida.

Como acabou acontecendo, no entanto, pelo menos fui salvo de ter que escolher entre os dois. O que em nada diminuiu o impacto do que se seguiu. Estava indo para a biblioteca atrás de alguns livros, e topei com eles discutindo do lado de fora. Não sei como a discussão começou, pois peguei apenas os momentos finais.

– Você não pode me forçar a escolher assim! – dizia Paula, com o rosto contorcido e os olhos vertidos em lágrimas.

– Pois é o que estou fazendo! – Júlio respondeu com a rispidez de um tiro. – Ou eu, ou ele! Você tem que escolher!

Paula não respondeu, o que aparentemente foi resposta suficiente. Júlio se virou e começou a ir embora, mas então se deparou comigo pouco atrás, observando tudo em silêncio. Seu rosto empalideceu quando me viu, como se eu fosse a última pessoa que esperasse encontrar. Logo ele se recompôs, no entanto, me pegou pelo braço e me puxou para ir junto com ele.

– Que bom que você está aqui! – disse. – Vem comigo, eu preciso desabafar com alguém.

Fiz alguma força para me soltar e busquei Paula com o olhar, mas ela já havia nos dado as costas e entrava na biblioteca. Tentei pensar em alguma desculpa para dar a Júlio e ir atrás dela, mas nada me veio à mente. No fim, fui com ele até o bar da faculdade.

Aquela foi a última vez em que vi Paula. No dia seguinte soube que tinha sido suspensa por tempo indeterminado e internada em uma clínica psiquiátrica. Algum aluno a havia encontrado na biblioteca em um dos últimos corredores de estantes, com as roupas rasgadas e jogadas pelo chão, em uma posição que revelava muitos detalhes da sua anatomia. Segundo ouvi, tinha no rosto um sorriso largo que traía um prazer intenso, e não uma expressão de choque como se tivesse sido violada. Sobre sua barriga estava um livro aberto, de páginas velhas e amareladas restauradas e colocadas em uma encadernação nova, que não estampava o título.

Capítulo 31

Paulo olhou sério para André, que respondeu que sim com um gesto da cabeça. Ambos se viraram ao mesmo tempo apontando suas armas para dentro do aposento.

– Parados! – gritou André, mas não havia ninguém para ouvi-lo. O local estava vazio; apenas um amontoado de móveis velhos e restos de tecidos revirados por todos os lados.

– Chegamos tarde. – disse Paulo ao colega, enquanto guardava o revólver no coldre do lado de dentro do casaco. – Perdemos a pista outra vez.

Olharam-se frustrados. André desferiu um soco na parede, fazendo um pouco de poeira cair do teto. Todo o planejamento, todo o cuidado que tiveram… E mais uma vez o grupo dos Dezoito de Ystarko fugia entre seus dedos, levando Adriana. Como era possível que estivessem sempre um passo a frente?

– Vamos ver o que conseguimos encontrar. – Paulo colocou a mão sobre o ombro de André e suspirou profundamente. O colega consentiu com a cabeça, e começou a revirar o local. Nada: apenas jornais velhos, baratas mortas, pedaços de lápis sem ponta. A saída não fora apressada; houve tempo suficiente para que nenhuma pista descuidada ficasse para trás.

– Não vamos encontrar nada. – após alguns minutos de busca André já falava com decepção, mais do que desespero. – Vamos sair logo daqui.

– Está certo. – Paulo compartilhava do sentimento do colega. Adriana também era sua amiga, e se preocupava com ela, mas, antes disso, era apenas frustrante ver os Dezoito despistarem-nos tão facilmente. Sentia-se como um cachorrinho pulando para pegar um osso que o dono segura mais alto do que pode alcançar; chegava mesmo a se perguntar se todas as pistas encontradas até então não haviam sido propositais.

Cabisbaixos, os dois caminharam devagar em direção a porta. Pararam assustados antes de cruzá-la: um telefone estava tocando. Preocupados atrás de pistas que parecessem mais óbvias, não haviam reparado na linha telefônica ainda ligada. Viraram e correram até ele; chegaram a pegar ao mesmo tempo o gancho do aparelho, antes que Paulo recuasse e deixasse André atender. Sem tirar os olhos do colega, ele o levou até o ouvido.

– Alô? – disse, sentindo um calafrio correr a espinha.

Cara ou Coroa

– Cara eu, coroa você.

– Certo.

Jogou a moeda, que girou no ar uma, duas, três vezes. Apenas uns poucos segundos passaram, mas cada milésimo parecia conter um século inteiro.

Caiu, finalmente. Os dois se olharam longamente, um misto de ansiedade, medo e nojo refletido nos olhos, e se viraram para a moeda no chão.

Cara.

Ao menos já sabiam o que almoçar.

Os Homens Que Não Amavam As Mulheres

cover-145350-600Os Homens Que Não Amavam As Mulheres é um livro maldito. Literalmente – é um livro demoníaco, fruto do coisa-ruim mesmo. A própria história da sua publicação tem detalhes macabros: Stieg Larsson, o autor, era um influente jornalista político sueco que o escreveu e às suas duas continuações nas horas vagas, como um hobby, e morreu em um infarto fulminante antes de vê-los publicados, quando se transformaram rapidamente em um sucesso estrondoso de público e crítica. Não é de surpreender, portanto, que, uma vez que se comece a lê-lo, ele rapidamente devore a sua alma, e você se veja subitamente colocando-o cada vez mais alto na sua lista de prioridades, empurrando para trás outros assuntos mais urgentes como, por exemplo, o sono.

Trata-se de um suspense policial incrivelmente envolvente, daqueles que te deixam coçando o dedo para virar a página e continuar a leitura a cada fim de capítulo. Pode-se imaginá-lo, em um certo sentido, como uma versão século XXI de Agatha Christie; há todas as convenções do gênero, do crime insolúvel à lista de suspeitos, e o próprio protagonista brinca com a idéia constantemente, dizendo estar envolvido em uma variação do “crime do quarto fechado”. Antes de ser uma falta de originalidade, no entanto, isso é feito com bastante técnica e precisão – o mistério principal do livro é mesmo intrigante, e, por mais que o seu elemento central seja facilmente deduzível ainda nos primeiros capítulos, possui desdobramentos e reviravoltas suficientes para mantê-lo curioso até o fim.

O livro cativa e envolve também por se tratar de uma obra bastante contemporânea, que atualiza o gênero de forma muito eficiente para o século XXI. Os personagens não são caricaturas anacrônicas – pelo contrário, você consegue mesmo imaginá-los hoje em dia, e até comparar alguns dos elementos da sua personalidade e história pessoais com o de figuras reais. O cenário principal é a Suécia, com uma parte da história acontecendo em Estocolmo, mas, em realidade, poderia ser qualquer país capitalista ocidental. E a investigação que guia a narrativa faz uso constante de computadores e toda a tecnologia da informação, colaborando bastante com o ar de contemporaneidade da ambientação.

Para além de ser um bom entretenimento, a série toda também conta com um pano de fundo crítico bastante marcante, como seria de esperar de uma figura influente e controversa como era o autor antes de morrer. Os protagonistas são dotados de um forte espírito crítico, e, em alguns momentos, especialmente nos desdobramentos finais do enredo, têm-se a nítida impressão de que é o próprio Larsson que está falando a partir deles, emitindo seus julgamentos e opiniões pessoais. Entre outras coisas, o livro versa sobre a ética jornalística (e é difícil não lembrar aí do meu ranço com o jornalismo contemporâneo) e a política e economia capitalistas; o seu tema principal, no entanto, é a violência contra as mulheres, como se nota já título do livro, bem como nos dados estatísticos sobre o assunto que abrem cada grupo de capítulos. Constantemente as mulheres da história são vítimas de algum tipo de violência, seja sexual ou mesmo social e política, na forma de preconceito e discriminação, algumas vezes até parecendo um pouco de exagero – por outro lado, é só lembrar alguns casos recentes que foram notícia no mundo todo para perceber que, como diria Mark Twain, por vezes é a própria realidade que é mais inverossímil que a ficção.

Cabe fazer também um pequeno puxão de orelha à edição nacional do livro, bem como às edições que tradicionalmente são publicadas por aqui. Comprei ele na época do lançamento do segundo volume da série, quando este estava em promoção pela metade do preço, numa tentativa óbvia de fisgar leitores também para o segundo livro; se fosse pelo preço normal, provavelmente jamais o teria comprado, ou então o leria em alguma edição pocket importada, que custa aproximadamente o mesmo que eu paguei, mesmo nos períodos de dólar alto. Me interessei pela série e pretendo ler os volumes seguintes, mas não sei bem se estou disposto a pagar o preço completo de cada livro – se não houver uma promoção semelhante quando o terceiro for lançado, provavelmente acabarei lendo as edições importadas mesmo.

De qualquer forma, se você tem qualquer apreço pelo seu tempo livre, seus compromissos e a sua alma de maneira geral, fique longe de Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, bem como da série Millenium como um todo. Se, por outro lado, não os está usando para muita coisa mesmo, e gosta de um bom livro de mistério e suspense, é uma forte recomendação.

Nelinha e O Computador

Nelinha tinha medo de computadores. Não, era mais do que medo: tinha horror deles. Aquelas caixas de metal cheias sons, luzes, botões… Havia algo de demoníaco ali, algo que despertava o seu mais profundo pavor. O marido dizia que era bobagem, que computadores eram máquinas, e serviam apenas para o que você quisesse usá-los, mas para Nelinha pouco importava: era mais forte que ela, um sentimento irracional muito além de qualquer autocontrole.

Sentia um pouco de vergonha, é claro. Todos os dias via o marido, os filhos e os amigos alegres em seus PCs, visitando sites, lendo e-mails, jogando jogos, mas nunca conseguia reunir coragem o bastante para se juntar a eles. Quase conseguiu uma vez, ao ver o filho mais novo gargalhando e se divertindo frente ao monitor; tentou se aproximar com cautela, mas, antes mesmo que ele a percebesse, se virou tremendo e voltou para a cozinha. Em outra situação a filha tentou seduzi-la chamando-a para ver uma revelação bombástica sobre a novela das oito, mas, ao perceber que precisaria ler a notícia no computador, Nelinha preferiu esperar para assistir quando os capítulos fossem ao ar. E em outra ainda o marido tentou obrigá-la a criar uma conta em um programa de mensagens instantâneas, para poderem se comunicar durante o dia, mas ela resistiu e se recusou até ele desistir.

A gota d’água veio quando o marido ligou para casa numa tarde de quarta-feira, preocupado por ter esquecido de pagar a conta de luz. Pediu para Nelinha pegar o boleto e pagar pela internet, pois os bancos já haviam fechado; ele explicaria exatamente como fazer. Mas ela não lhe deu ouvidos: bastou o computador ser mencionado que deixou o telefone cair no chão, e correu chorando para o quarto. A luz foi cortada antes do fim do dia, e os dois brigaram violentamente naquela noite, deixando os filhos aos prantos. Foi quando Nelinha tomou a decisão: não poderia mais continuar assim.

Logo que a luz voltou, aproveitou uma tarde em que estava sozinha para resolver, afinal, aquela situação. Reuniu toda a coragem que possuía e se sentou na frente da máquina; suspirou profundamente, e apertou o botão de ligar. Quase pulou para trás: no exato instante em que o monitor acendia, um trovão caiu na rua, e começou a chover. Nelinha balançou a cabeça, e voltou para a cadeira; não ia ser o tempo lá fora que mudaria sua resolução.

O computador ligou devagar, e entrou no sistema operacional. Nelinha brincou com o mouse por um tempo, vendo a seta se mover entre os ícones da área de trabalho, e afinal clicou em um deles. Foi quando tudo parou de repente, e uma mensagem apareceu no monitor: este programa executou uma operação ilegal e será fechado.

Nelinha ficou pálida. Teria feito alguma coisa errada? Se o marido descobrisse, estava morta! Olhou para o teclado, e apertou o botão Enter; sempre ouvia o marido dizendo para os filhos apertarem ele. A mensagem sumiu, e ela suspirou aliviada.

Empalideceu novamente: outra vez ela aparecia, a mesma mensagem. Apertou Enter de novo, e de novo, e de novo, e ela sempre voltava. Tentou outras teclas: Esc, Tab, Shift, Ctrl, Alt, F1, F2, A, T, S, 4, >, ?… Nada funcionava.

Já tremia de pânico quando um novo barulho chamou sua atenção. Olhou para baixo, assustada: a entrada para CDs que estava aberta. Teria feito o comando sem perceber?

Nelinha não teve tempo de pensar – um grupo de fios saltou de dentro da máquina e agarrou o seu pescoço, puxando-a com força para frente. Ela tentava resistir, mas eram fortes demais; agarrou os fios com as mãos e tentou puxá-los para longe, mas o mouse pulou e golpeou a sua barriga, fazendo-a soltá-los, e então lhe amarrou os braços junto ao corpo.

Os fios continuavam puxando-a para frente, batendo-a contra o monitor uma, duas, três vezes, até a tela se quebrar e um fio de sangue começar a escorrer do canto da testa de Nelinha. Apertavam com força o seu pescoço; logo já não conseguia mais respirar, e tudo escureceu vagarosamente…

O marido e os filhos a encontraram morta, enrolada nos fios do computador, quando voltaram para casa no fim do dia. Nunca descobriram o que aconteceu.


Sob um céu de blues...

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