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Caçando Carneiros, de Haruki Murakami

a-wild-sheep-chaseEu tinha vinte e nove anos. Dentro de seis meses, daria adeus à casa dos vinte. Uma década vazia. Nada do que eu conquistara tinha valor, nada do que eu realizara tinha sentido. Tédio era tudo o que eu obtivera.

(Caçando Carneiros, Haruki Murakami)

Noite Tediosa

Fábula

Era uma vez, há muito, muito tempo atrás, em um reino muito, muito distante, com campos verdes que se estendiam até onde a vista alcançava, o céu azul ornamentado por nuvens brancas e pássaros cantantes, e um povo alegre e festivo de camponeses dedicados, um rei, que morava em um castelo de mármore branca como a lua, e passava seus dias sentado em um trono dourado com o assento estofado de penas de ganso e revestido de veludo vermelho, vestindo um manto de seda rubra e uma coroa encrustada de jóias, ao lado de uma rainha bela e esbelta de cabelos loiros como o sol e olhos verdes como esmeraldas, enquanto segurava com a mão direita o cetro real forjado de ouro maciço com um rubi brilhante preso na ponta, apoiando sobre a esquerda o queixo coberto por uma barba grisalha e olhando para o longo tapete vermelho com bordados dourados no chão, e exclamando a cada passar de horas vagarosas com uma voz de trovão que ecoava pelo salão e fazia tremular as cortinas e bandeiras que se espalhavam pelas paredes: que tédio!

O Viajante e O Tédio

Olhava as ondas de marasmo que quebravam na beira da praia, misturando-se aos grãos de estrela da areia cristalina. A lua vagava lentamente, levada pelo vento de um lado ao outro do horizonte, demorando-se sem pressa em cada segundo. E na rede ao lado se debatia, preso, o Tempo, buscando soltar-se e voltar à liberdade de nadar e passar sem restrições outra vez.

Vinte Minutos

Vinte minutos: eis o tempo que tinha livre antes de sair. Não poderia sair mais cedo, ou seria cedo demais; também não poderia sair muito mais tarde, ou se atrasaria. Conferiu uma última vez se estava pronto: roupa, carteira, chaves da casa, passagens de ônibus. Tudo certo.

Sentou no sofá e ligou a TV. Passou por todos os 80 canais por assinatura, e nada. Passou mais uma vez. Nada, de novo. Desligou a TV. Olhou para o teto: branco. Lâmpadas fluorescentes, para economizar energia. Corrimões de madeira nas bordas das portas para a cozinha e os quartos. Também brancos. Folheou mais uma vez o jornal do dia; nenhuma notícia que já não tivesse lido pela manhã. Olhou o relógio: nem cinco minutos haviam passado.

Ligou o computador, conectou à internet e checou os e-mails. Nenhum novo. Passou por meia dúzia de sites de notícias, e nada. Desligou o computador e pegou o celular. Começou a jogar um dos jogos que havia nele; perdeu duas vezes e desistiu. Olhou mais uma vez o relógio: ainda faltavam quase quinze minutos. Tentou se lembrar se não estava esquecendo alguma coisa. Estava vestido, com a carteira, as passagens de ônibus, as chaves de casa… Nada mais lhe vinha à cabeça. Olhou o relógio outra vez: nem um minuto a mais havia passado.

Levantou e foi até a cozinha. Abriu a geladeira, serviu um copo de refrigerante. Tomou devagar, apoiando as costas na pia. Olhou para as paredes: eram de azulejo, diferente das do resto da casa, exceto as do banheiro. Havia meia dúzia de armários de madeira, onde eram guardados pratos, talheres, biscoitos e afins. Virou para o chão, também de azulejo, e pensou em tudo que poderia estar fazendo de útil naquele momento: escrevendo um conto, lendo um livro, vendo um filme. Tudo levaria mais do que os pouco mais de dez minutos que ainda havia antes de sair. Deixou o copo vazio na pia e voltou para a sala.

Sentou outra vez no sofá, o tronco projetado para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. Olhou o relógio do vídeo: mais de dez minutos, ainda. Virou para a janela: o fiapo de céu atrás dos edifícios estava azul, quase não se via nuvens. Pensou como seria bom se caísse um meteoro gigante e acabasse com tudo de uma vez. Mas não aconteceu; olhou o relógio de novo: ainda teimava em não chegar na marca dos dez minutos.

Pegou o violão e dedilhou alguns acordes. Não havia inspiração para tocar. Levantou e caminhou até um ponto qualquer da sala; caminhou de volta e sentou mais uma vez no sofá. Ligou a TV, e passou outra vez pelos 80 canais por assinatura: outra vez nada. Não passou por eles de novo; desligou a TV e olhou mais uma vez o relógio: agora faltavam menos de dez minutos.

Desistiu de esperar mais, e saiu de casa.

A Casa

Longe de tudo, no meio das montanhas, havia uma casa. Uma casa simples, com armação de madeira, paredes de pedra e telhado de palha, onde todos os dias pareciam manhãs ensolaradas de domingo, e em todas as noites a lua cheia brilhava no alto do céu estrelado. Uma casa onde uma fina fumaça saía eternamente pela chaminé, os pássaros se reuniam diariamente para realizar vôos ornamentais e cantar suaves melodias de notas perfeitamente harmônicas, e a grama insistia em manter-se sempre crescida e verdificantemente verde. Uma casa em cuja volta os arbustos estavam sempre floridos, e borboletas de asas coloridas voavam em círculos concêntricos pelo ar intoxicante de tão puro. Uma casa ao lado de uma árvore de verdes folhas, de onde pendia um pequeno balanço de madeira suspenso por cordas envelhecidas mas ainda incrivelmente firmes. Uma casa onde morava uma jovem e bela moça chamada Anabelle, de longos cabelos cacheados dourados, profundos olhos verdes brilhantes e pequenas sardas salpicando o rosto, que todo dia pela manhã abria a janela, observava a paisagem e, após um longo suspiro, pensava: que saco!

Haicai do Tédio

Noite cheia de estrelas,
Eu conto as horas que passam:
Tempo que não volta mais.


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