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R. I. P.

Se queres transformar-te num homem de letras, e, quem sabe um dia, escrever Histórias, deves também mentir, e inventar histórias, pois senão a tua História ficaria monótona. Mas terás que fazê-lo com moderação. O mundo condena os mentirosos que só sabem mentir, até mesmo sobre coisas mínimas, e premia os poetas que mentem apenas sobre coisas grandiosas.

– Umberto Eco (1932-2016), Baudolino.

Baudolino

8577990028_TaEu sempre me surpreendo em reparar como livros importados, em geral, conseguem ser mais baratos que as edições nacionais. Por vezes a diferença é mesmo gritante, ficando na metade ou em até um terço do preço; em especial as edições em inglês e francês tendem a chegar nesse nível. O que acontece é que há uma vasta tradição lá fora de lançamentos em formatos mais baratos, com papéis menos luxuosos e tamanho de bolso (os famosos pocket books, para quem for dado a estrangeirismos), o que não é exatamente o padrão por aqui; em geral, até pouco tempo atrás, apenas clássicos saíam nesse formato, como nas séries editadas pela L&PM e Martin Claret. Só mais recentemente, e felizmente, há uma adesão maior à idéia, com alguns livros mais interessantes saindo em edições baratas. Um ótimo exemplo é a coleção BestBolso, da editora Best Seller (afiliada ao grupo Record), que consegue ter um acabamento muito bem cuidado sem por isso sair de um preço convidativo; pertencem à ela, por exemplo, o já resenhado por aqui O Jogo das Contas de Vidro, de Herman Hesse, e também este Baudolino.

O livro, do mesmo Umberto Eco que escreveu o clássico O Nome da Rosa, conta a história de Baudolino, filho adotivo do imperador Frederico Barba-Ruiva, que, preso na Constantinopla tomada pelos cruzados, encontra o historiador Nicetas Coniates. Enquanto o ajuda a fugir da cidade, Baudolino relata a história de como ele, nascido pobre em um pequeno vilarejo italiano, foi adotado pelo grande soberano do Sacro-Império, e, após a sua morte, empreendeu uma jornada fantástica para o oriente em busca do reino mítico de Preste João nas Índias, passando entre ambos os eventos por um curioso envolvimento na construção e difusão de diversos ícones do imaginário medieval. O bizantino, é claro, não acredita em tudo o que lhe é contado, e se cria assim uma narrativa em dois tempos em que o próprio texto por vezes critica e reflete sobre a história que conta, lembrando um pouco o que acontece em O Cavaleiro Inexistente, de Italo Calvino.

É um livro difícil de classificar exatamente; mistura o romance histórico, embaralhando personagens fictícios em eventos históricos conhecidos, com o romance de aventuras e o conto fantástico, com viagens até terras longínquas habitadas por seres maravilhosos, e há até mesmo um flerte com a história de mistério, com direito à clássica cena de enumeração de suspeitos para desevendar um crime insolúvel. Em todos os gêneros pela qual passa, no entanto, Baudolino continua uma obra cativante e tocante; talvez Eco não tenha toda a virtuose narrativa de um Calvino ou a prosa fabulosa de um Jorge Luís Borges, mas é ainda assim um autor muito eficiente em contar suas histórias e com uma imaginação bastante fértil, capaz de criar algumas passagens memoráveis em tom de fábula e fantasia. Certamente recomendado para qualquer um que goste de épicos de aventura e fantasia, especialmente aqueles de temática medievais, ou apenas de uma boa leitura repleta de momentos marcantes.


Sob um céu de blues...

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