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Trechos

Trechos de coisas aleatórias que eu tenho feito, mas não tenho conseguido me empolgar pra terminar/publicar. Às vezes pondo aqui e tendo algum feedback (hahah) eu me animo, vai saber.

1.

Em um manto de pura escuridão
Vem a mim
A dama da morte.

 Kaneda Shimaru tossiu e levou a mão à boca para proteger o caderno de haiku. Estava ajoelhado, vestindo um quimono simples. Olhou por um instante para a própria mão e a limpou com um pano de seda, então o dobrou com cuidado e colocou o tecido branco coberto de manchas vermelhas sobre o chão. Uma contração na orelha esquerda, arredondada na base e pontuda como uma folha, o fez levantar o olhar instantes antes de a porta de entrada para o quarto se abrir.

Samurai!

A voz pertencia a uma moça jovem de rosto delicado e olhar suplicante. Cobria o corpo com um vestido fino de tecidos escuros. Ao perceber o olhar do elfo, tocou no par de tiras que o prendiam nos ombros, soltando-as e deixando-o cair sobre o chão.

Kaneda se levantou. A moça se aproximou devagar, deixando o vestido para trás, como se convidasse o samurai a observar o seu corpo se mover ao caminhar. Próxima o bastante, virou o rosto para cima e o encarou em um pedido sem palavras, os lábios tremendo em antecipação.

Um corte na respiração e os olhos arregalados revelaram o espanto. Kaneda havia atravessado o seu ventre com a espada, deixando o sangue respingar sobre o chão. Um movimento para retirá-la e o corpo inerte da jovem desabava em um baque surdo.

Quase ao mesmo tempo uma porta lateral se abriu, revelando uma elfa de cabelos púrpuras em uma armadura delicada segurando uma jovem pelo rosto e cobrindo a sua boca com a mão. Ao lado, outro samurai em armadura completa também observava o ocorrido.

– O quê…? – disse a jovem assim que a boca foi descoberta.

Kunoichi. – respondeu Kaneda. – Um beijo dela arderia com algo mais do que paixão.

Olhou para a espada e viu o sangue escuro borbulhando como ácido. No chão, a pele da jovem começava a derreter, revelando o desenho intrincado de veias e artérias.

– Vamos. Temos que sair daqui.

O elfo limpou a espada com um movimento, e os quatro seguiram em silêncio pelo corredor e para fora da estalagem. Buscaram seus cavalos no estábulo e então partiram na escuridão da noite.

2.

Auuuuuuuuuuuuuuuuuuuu! – um uivo distante ecoava pela noite, atravessando becos e ruelas estreitas. A ele se juntava o som de pés correndo sobre poças d’água – tap, tap, tap -, enquanto uma jovem surgia da escuridão, dobrava uma esquina e seguia adiante em velocidade. Um par de seios volumosos balançava a cada passada, pouco ocultos sob a camisa branca molhada pela chuva; no rosto, a pele escura se contorcia para manter a boca aberta, ofegante, e os olhos arregalados.

Atrás dela vinha um grande morcego, os olhos vermelhos brilhando na escuridão, voando um par de metros acima do chão. A moça corria, mas ele era mais rápido: logo já estava sobre ela, a apenas uma batida de asas de tocá-la com suas presas. Ao se virar e vê-lo tão próximo, a jovem se desequilibrou e caiu sentada no chão.

O morcego diminuiu a velocidade e se aproximou, se deixando envolver por uma névoa púrpura. Por trás dela era possível ver a sua sombra mudando de forma, as patas se alongando, as asas afinando; quando a névoa se dissipou não era um morcego que revelava, mas um homem alto e magro, com o porte de um nobre, envolto por uma capa negra com gola alta. Seu rosto era redondo e pálido, coberto de rugas e outras marcas da idade, com olhos vermelhos brilhantes e um sorriso largo que deixava a mostra um par de caninos longos e afiados.

Caminhou vagarosamente até a moça, como que saboreando cada segundo, deixando seus passos ressoarem pela rua. Ela tremia e o fitava com pavor; ele salivava enquanto respirava, sentindo o aroma do medo. Quando chegou perto o bastante, esticou o braço para agarrá-la, ao mesmo tempo em que abria a boca e posicionava o rosto para aproximá-lo do pescoço. Já podia quase sentir a textura da sua pele, os dedos escorregando no suor, quando foi subitamente atingido por um spray de gás amarelado.

O vampiro recuou e levou as mãos aos olhos, que ardiam e lacrimejavam. A jovem se levantou, largando a lata do spray no chão, e acertou um chute entre as pernas, fazendo-o se encolher; em seguida, se colocou em posição de defesa, os punhos erguidos em frente ao peito, então o agarrou pelo braço e o torceu para trás, forçando-o contra as costas.

– Quem é que tá com medo agora, hein? Seu velho tarado! Filho da p… – o vampiro não terminou de ouvir, pois já se deixava cobrir novamente pela névoa púrpura e voltava à forma de morcego, se libertando da captora e voando em direção ao luar.

Seguiu em uma trajetória irregular, ainda atordoado pelo efeito do gás, se batendo entre telhados e paredes altas, sobrevoando a cidade até uma velha mansão na beira de um penhasco. Entrou por uma janela aberta no andar mais alto, percorreu corredores parcamente iluminados por velas em candelabros, desceu um par de escadarias até os andares mais baixos, e enfim chegou a um grande salão, onde se converteu novamente em homem e se deixou cair sobre uma poltrona estofada.

3.

Podemos incluir a ficção científica, ou FC, em uma visão semelhante, embora voltada para o tempo oposto – o futuro. Grosso modo, podemos dizer que ela expressa o imaginário científico de uma determinada época. É possível buscar suas raízes desde o gênero das histórias gregas das “ilhas bem-aventuradas”, passando por obras renascentistas de cunho social, que poderiam ser interpretadas, de certa forma, como exercícios de ficção científica social, muitas vezes consideradas como obras de “proto-FC.” É a partir do século XIX, no entanto, especialmente com nomes como Júlio Verne e H. G. Wells que a ficção científica passa a tomar suas formas mais contemporâneas, tendo como característica principal “uma extrapolação dos efeitos humanos de uma ciência extrapolada (…).”

Nesta visão extrapolada da ciência, predominou durante algum tempo uma espécie de otimismo positivista no progresso do conhecimento. Tal otimismo, é claro, está relacionado ao próprio contexto do período, o chamado “século da ciência,” onde havia de fato uma crença em uma evolução contínua da humanidade e da tecnologia. Mesmo autores que possuíam visões menos brilhantes, como o britânico H. G. Wells, aquiesciam de certa forma a estes paradigmas, e mesmo que obras como A Máquina do Tempo apresentassem prognósticos bastante sombrios para o futuro último da humanidade, em última instância havia, ainda, uma crença subjacente na própria ciência e na tecnologia.

Isso passou a mudar, no entanto, a partir das décadas de 30 e 40 do século XX, quando passou a predominar na FC ocidental uma visão pessimista e apocalíptica do progresso científico. Sobre esta mudança de comportamento, destacou Muniz Sodré:

A I Guerra Mundial veio a marcar uma nova etapa da história da catástrofe humana: a partir daí, a capacidade técnica, que implica na capacidade de desgastar o inimigo, predomina sobre o engenho estratégico dos generais. A mais-valia operária canaliza-se para a empresa da morte. A indústria, as fábricas, passam à vanguarda das batalhas. Os cientistas aplicam em experiências com gases, petardos e bactérias mortais. A II Grande Guerra confirma a tendência: guerra, técnica e capital são agora a mesma coisa. Na fronteira polonesa, em 39, a carga quixotesca de cavaleiros armados de sabres e fuzis contra os blindados de Hitler oferece uma imagem do choque de dois tempos (…)
Por sua vez, o progresso técnico (e o progresso científico) associa-se estreitamente à empresa da guerra, já que o Estado tecnicamente mais forte é o mais poderoso no campo das armas.

A partir de então, passa a proliferar, na FC, visões distópicas sobre o futuro, especialmente no ocidente capitalista. É o uso da ciência na guerra que causa essa mudança no imaginário científico, tornando comum temas como o cataclisma nuclear e as mutações em seres vivos geradas por radiação.

4.

O mesmo golpe. Dizem que um golpe não funciona duas vezes contra o mesmo cavaleiro. A partir do 2º nível, toda vez que for atacado com um talento, habilidade de classe, habilidade especial ou magia com que já foi atacado antes pelo mesmo oponente, o cavaleiro recebe um bônus de +1 na CA e +2 em quaisquer testes de resistência necessários.

Esse bônus aumenta para +2/+4 no 10º nível, e +3/+6 no 18º nível.

Meu Amor é um Vampiro

Antes de mais nada, é sempre bom ressaltar a masculidade e hombridade deste blog e do seu autor. Sou adepto das ideias do grande filósofo do século passado, Seu Madruga, segundo o qual um homem deve ser feio, forte e formal; uma boa história pra mim tem que envolver sexo casual, tiroteios, explosões, socos, chutes, e, se sobrar espaço (mas sendo evidentemente um elemento descartável), alguma reflexão filosófica genérica sobre a natureza da vida. Apesar disso, no entanto, também não sou um completo bruto e insensível – é preciso ser homem também para reconhecer que há mais além testosterona pura no mundo, e saber admitir quando se é tocado de alguma forma por uma história mais, assim, sensível. Já fiz isso antes por aqui, aliás, mais de uma vez até.

De qualquer forma, se me pedissem para recomendar uma história sobre vampiros, e ainda mais uma que envolvesse algum tipo romance, eu provavelmente indicaria sem pensar essa aqui como o que de melhor já foi feito no tema. Meu Amor é Um Vampiro, no entanto, coletânea de contos organizada por Eric Novello e Janaína Chervezan, também mereceria uma meção honrosa por vários motivos – o primeiro deles o fato de eu ser amigo de algumas das autoras, que me cobram essa resenha há algum tempo, mas não só ele, evidentemente.

Os contos em geral possuem visões bastante heterogêneas a respeito das lendas vampíricas. Não há nada tão extremo quanto brilhar como purpurina à luz do sol, claro, mas temos algumas quebras de paradigmas bem interessantes mesmo assim. Isso pode bem desagradar alguns puristas, e eu até me peguei perguntando algumas vezes o que uma pré-adolescente fã de Crepúsculo pensaria de algumas das histórias; mas, a bem da verdade, também é parte da riqueza da coletânea, tornando-a mais interessante ao resto do público.

Assim, há desde histórias açucaradas com um pé mais fundo na fantasia e nos seres místicos, com direito a fadas, dragões e bruxos (em A primeira noite de neblina, de Adriana Araújo, e O presente, de Valéria Hadel), até histórias mais violentas e sensuais, com muito sangue e torsos descamisados (O vermelho do teu sangue, de Cristina Rodriguez). No meio disso tudo, temos espaço para uma viagem à Inglaterra vitoriana com um certo quê de Hellsing (Meu Amor Eterno, de Ana Carolina Silveira), alguns romances mais juvenis (O Rosa e O Negro, de Nazarathe Fonseca, e Feio como a Fome, de Regina Drummond), e algumas interpretações mais curiosas dos mitos vampíricos (O Vampiro Genérico, de Rosana Rios, e Nix, de Giulia Moon). Pessoalmente, no entanto, achei que a melhor história foi Sede, de Helena Gomes, que tem como protagonista o ajudante de um vampiro ancião, e conseguiu me cativar com a sua paixão platônica proibida.

Um ou dois contos estão um pouco abaixo dos demais, mas a média geral no fim até que é bem positiva. Descontando-se aí o excesso de açúcar (não é um livro recomendado para diabéticos), são histórias bem concebidas e narradas, e que podem ser boas leituras para qualquer um que goste dos sugadores de sangue. E em último caso, claro, para quem for macho demais para esse tipo de coisa, ainda pode ser um bom presente pra namorada.

Vampire Girl vs. Frankenstein Girl

Pense em um romance adolescente, em que um dos envolvidos é um colegial (seja do sexo masculino ou feminino) e o outro um vampiro (ou vampira). Você pode contar essa história pelo menos de duas formas. Se for uma dona de casa mórmon norte-americana escrevendo para garotas de treze anos e preocupada em pregar os valores do sexo só depois do casamento, provavelmente vai ficar algo parecido com a série Crepúsculo. Se, por outro lado, for um diretor japonês de filmes trash, do tipo que não tem medo de filmar banhos de sangue e assumir fetiches suspeitos por lolitas, terá algo mais próximo de Vampire Girl vs. Frankenstein Girl.

A história é baseada em um mangá de Shungiku Uchida, e conta o triângulo amoroso entre o estudante Mizushima e as suas colegas de classe Monami e Keiko. Tudo muito normal, exceto pelo fato de Monami ser uma vampira e, no dia dos namorados, ter presenteado o amado com um chocolate contendo o seu sangue, com o objetivo transformá-lo também em uma criatura da noite. Keiko, é claro, não abrirá mão dele tão facilmente, logo recorrendo ao seu pai que, além de vice-diretor do colégio onde estudam, também é casualmente um cientista maluco com o Dr. Victor Frankenstein como ídolo. E temos armada, assim, a arena onde ambas vão se enfrentar em um duelo mortal em nome do amor, com muito sangue, membros decepados e humor negro.

De maneira geral, eu diria que este filme está mais próximo de um Tokyo Gore Police do que um The Machine Girl. É bastante bem feito tecnicamente, com fotografia e figurino cuidadosos (destaque para o visual kabuki do cientista maluco), além de, com uma ou outra exceção, bons atores. Todo o enquadramento e montagem das cenas são impecáveis, resultando em algumas passagens memoráveis – como os clipes musicais do cientista louco e sua ajudante -, além de momentos de uma notável beleza plástica – em especial a vampira daçando sob a chuva de sangue, uma daquelas cenas capazes de abrir sorrisos involuntários pela combinação perfeita que faz entre imagem e música. A seleção da trilha sonora, aliás, também é bem interessante, com uma coleção de canções j-pop bastante animadas constantemente tocando ao fundo (embora troque para algo mais pesado nos momentos de ação), que ajudam o filme a não se levar a sério e a criar um clima divertido de comédia romântica adolescente.

Mesmo considerando o aspecto tripas explodindo e membros voando, este é um filme mais comedido que outros do mesmo gênero. Não há intestinos arrancados inteiros, membros, er, “íntimos” de aparência monstruosa, nem jatos ácidos disparados pelos mamilos. Ainda temos todas as transformações corporais em armas e equipamentos bizarros, bem como as chuvas de sangue a cada braço decepado, mas eu diria que em geral não é muito mais do que você já viu no primeiro Kill Bill, por exemplo. Ele de fato se concentra (um pouco) mais em contar uma boa história e desenvolver os personagens, mesmo que em um tom exagerado e caricato, e quem quiser se esforçar pode até pegar alguma crítica ao bullying e outros desvios de comportamento estudantis.

No fim das contas, Vampire Girl vs. Frankenstein Girl é um filme bem divertido, e que eu recomendo. Sempre há quem vá reclamar do excesso de sangue e transformações corporais absurdas, mas o fato é que há mais nele além disso – ainda que esse aspecto todo, é claro, não seja descartável na experiência que ele proporciona.

Curtas

O Xamã

Outra vez só, alheio a tudo e a todos, se aproximou do fetiche de teclas e se preparou para começar o ritual. Bebeu o líquido negro que guiava suas viagens, e, se entregando ao estado de espírito, adentrou o mundo mágico do devaneio e da reflexão. Pois este era o seu dom, e também a sua sina, desde que recebera o chamado da inquietação: a solidão, que o isolava de todos, e o tornava o que era. E esta era a sua mágica: a palavra, o poder de conjurar espíritos adormecidos dentro da introspecção.

Melancólico, bebeu mais um gole, e se deixou levar pelo transe místico.

Verborragia

Foi atingido subitamente por uma pancada criativa, e caiu em meio aos devaneios neuróticos que estavam à sua volta. Da ferida aberta jorravam palavras, manchando seus pensamentos com grandes metáforas vermelhas. Sentia uma dor aguda enquanto gemia idéias, esperando que alguma ponta de lápis o ouvisse e ajudasse a estancar a inspiração com um bloqueio curativo.

Vampiro

Escondido, sorrateiro, ele preparava sua tocaia. Ajeitou a armadilha de palavras, teclando-as com cuidado, uma a uma, esperando que algum navegador ingênuo se aproximasse para apreciá-las. E então, em um movimento súbito, ele atacaria! Com rapidez e fúria, sugaria atenção, opiniões, devaneios, até que sua sede fosse saciada; e por fim voltaria ao seu recanto escuro, escondido do sol da publicidade, onde permaneceria em torpor até ser acordado outra vez pela necessidade de satisfazer seu vício desprezível.

Vende-se

Vendo estas palavras pela módica quantia de alguns segundos. Interessados podem usufurir do produto nesta página pelo tempo que estiverem dispostos a pagar.

Não serão aceitas devoluções.

Pequena História de Amor Fantástico

Paulo era um vampiro: um ser que se alimenta da energia de outros seres. Não bebia o sangue de animais, no entanto, nem absorvia almas; não necessitava de algum tipo de energia vital imaterial, nem precisava de pedaços frescos de carne humana crua para sobreviver. Seu sustento era outro: Paulo se alimentava de gratidão.

Não gratidão no sentido material, como alguém que se aproveita de favores antigos e há muito esquecidos; mas simplesmente de ouvir a palavra obrigado dirigida à sua pessoa. Mal alguém demonstrava qualquer necessidade, e já ia Paulo ajudá-lo – respondia as horas, cedia o lugar, juntava o que fora derrubado; como retorno, esperava apenas as palavras e gestos que faziam o seu metabolismo vampírico funcionar. Nunca respondia com um por nada, ou o que é isso, ou outra frase que significasse renúncia àquele agradecimento; apenas o aceitava silenciosamente, já se preparando para atacar uma nova vítima com sua prestatividade predatória.

Um dia, no entanto, Paulo conheceu Júlia. Ela, como ele, era um ser especial: não possuía dentro de si qualquer gratidão para compartilhar. Talvez fosse o fruto de uma mutação genética desconhecida, ou o resultado da infância em meio a uma família disfuncional, ou mesmo o trauma reprimido do contato com outro vampiro prestativo em tempos idos; apenas não havia, na vida melancólica que então levava, qualquer resquício de um obrigado a ser dito ou de um sorriso de satisfação a ser oferecido. Mas Paulo não sabia, e logo pôs-se a atacá-la atrás de uma gota que fosse da sua gratidão suculenta.

No início, as investidas eram ditadas pela ocasião: Paulo apenas esperava surgir a oportunidade de ajudar Júlia, e atacava com toda prestatividade que podia oferecer. Se deixava escapar um espirro, era o primeiro a desejar saúde; se tropeçava nos próprios pés, corria para levantá-la; se deixava cair um garfo, se contorcia para juntá-lo. Qualquer que fosse a situação, lá estava ele para prestar ajuda e oferecer apoio, mas jamais havia uma frase ou gesto de gratidão em retorno.

Logo agradar àquela moça ingrata tomou ares de obsessão, e Paulo passou a planejar as ocasiões em que poderia ajudá-la. Perseguia-a pelas ruas; pagava estranhos para esbarrarem nela, derrubando suas coisas; sentava-se próximo com as manchetes do jornal à mostra, para que ela lhe perguntasse. Ajudar a qualquer outra pessoa não mais o interessava – apenas a graditão de Júlia era pura o bastante, e ele definhava e enfraquecia a cada semana que passava sem se alimentar.

Ela resistia ingrata, mas não sem notar os esforços feitos em agradá-la. Achava Paulo inconveniente no início, mas logo já gostava da atenção que recebia, e buscava a sua companhia sempre que podia tê-la. Ele, do outro lado, aos poucos viu sua obsessão se transformar em rotina. Voltou a se alimentar de outras vítimas, mas sem deixar de dedicar a Júlia seus melhores e mais cuidadosos agrados, como se já não soubesse ser diferente.

E assim passaram-se anos para o homem que absorvia gratidão e a mulher que não a possuía para oferecer. Dia após dia, Paulo se alimentava das outras pessoas para fazer o seu corpo funcionar, e consumia sua energia nos agrados que o mantinham próximos à Júlia. Até que, em algum momento perdido que passavam juntos, olhando para o céu ou para o nada, ela disse: obrigada. E ele, quase sem pensar, respondeu: por nada.


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