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Ponto Nodal

E assim, tudo se encaixa: cada peça em seu lugar, todo espaço de alguma forma preenchido. Não há lacunas ou excessos, nem vácuos ou apertos; apenas o todo simétrico e uniforme, montando átomo a átomo a grande imagem cósmica do vazio universal que a tudo dá, enfim, sentido.

O Corvo

Era como um corvo, a ave que seguia o viajante para onde quer que ele fosse. Desde que havia adentrado aquela região, apenas aquele curioso ser de penas negras o seguia por todo o lugar. Possuía um bico de corvo, e asas de corvo. Voava como um corvo, e movia-se como um – mas alguma coisa desconhecida parecia denunciar, com toda clareza, que aquilo não era um corvo.

Havia tanto tempo que estavam juntos, no entanto, que o viajante simplesmente deixou de se importar. Seguiu caminhando, como sempre fazia, em direção à qualquer lugar – e, nunca até então, qualquer lugar parecia tão distante. Nada havia em qualquer direção: o mundo a sua volta era apenas um vazio sem fim, sem começo, sem direção. Sequer havia o chão por onde caminhar – apenas se caminhava por sobre nada, indo aonde quer que fosse. O único vestígio de existência, até onde se podia enxergar, era a criatura parecida com um corvo que o acompanhava.

Exausto, o viajante se atirou ao nada, deixando-se cair como um morto ao chão inexistente. O ser que parecia um corvo pousou alguns metros adiante. Observou-o, virando a cabeça de um lado para o outro, ora olhando-o com o olho esquerdo, ora com o olho direito. Então bateu asas e voou para longe, deixando-o sozinho com o vazio à sua volta.

Caído no nada, o viajante fechou os olhos e desejou com todas as forças não existir.

Entre-Goles

Sentou no bar, e olhou em volta. As pessoas, os sons, os movimentos formavam uma atmosfera vertiginosa – um grande redemoinho de vivacidade da qual ele era o centro, envolto por tudo mas intocado, imune aos seus efeitos.

No tempo em que nada nos dividia, – cantava uma banda. – havia motivos pra tudo, tudo era motivo pra mais.

Ele ouvia, parado, olhando para todo lugar, mas enxergando um lugar-nenhum.

Era perfeita simetria: éramos duas metades iguais.

Entre um gole e outro da mesma bebida, ele percebeu: aquilo era ele, aquele era ele. Sem ninguém, sem nada; sem destino ou ponto de partida, sem solidão ou companhia.

Ele era nada.

Ele era ninguém.

Bebeu outro gole, e olhou para o mesmo nenhum lugar.

Espelho

Então você senta na cama pelo lado e olha a rua pela janela. O que há lá? Vazio. Concreto, asfalto, talvez casas do outro lado… Mas, ainda assim, vazio. Passa um ônibus, e mesmo ele parece ser vazio – talvez não de pessoas, talvez não de mundos e universos, mas, de alguma forma, vazio. E o que raios você esperava encontrar, de qualquer forma? É só uma rua, droga.

Vazio


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@bschlatter

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