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The Sacred Book of Werewolf, de Victor Pelevin

– Mas qual a diferença entre um membro da intelligentsia e um intelectual?
– Tem uma diferença grande. – ele respondeu. – Só consigo explicar alegoricamente. Você entende o que isso significa?
Eu assenti.
– Quando você era ainda muito pequena, haviam cem mil pessoas vivendo nesta cidade que eram pagas para puxar o saco de um dragão vermelho horrível, do qual você provavelmente não se lembra…
Eu balancei a cabeça. Uma vez na minha juventude eu havia visto um dragão vermelho, mas tinha esquecido como se parecia – a única coisa de que lembrava era o medo. Era improvável que Pavel Ivanovich tivesse aquele incidente em mente.
– Claro, essas cem mil pessoas odiavam o dragão, e sonhavam em ser governadas pelo grande sapo verde que o enfrentava. Então, enfim, chegaram a um acordo com o sapo, envenenaram o dragão com um batom que receberam da CIA e começaram a viver uma nova vida.
– Mas o que a intelig
– Espere. – ele disse, levantando a mão. – Inicialmente eles pensaram que com o sapo estariam fazendo exatamente como antes, mas receberiam dez vezes mais dinheiro. Mas acontece que ao invés de cem mil puxa-sacos havia apenas a demanda para três profissionais trabalhando em turnos de oito horas para dar ao sapo um boquete majestoso sem fim. E quais dos cem mil esses três seriam, seria decidido em uma competição aberta, na qual os candidatos deveriam não apenas demonstrar suas habilidades, mas também a capacidade de sorrir otimisticamente com os cantos da boca enquanto estavam trabalhando…
– Acho que perdi o fio da meada.
– Esse é o fio da meada. Essas cem mil pessoas eram chamadas de a intelligentsia. E esses três são chamados intelectuais.

(O livro é cheio de problemas, mas essa citação é ótima).

The Sacred Book of the Werewolf

sacred werewolfVictor Pelevin é um dos principais autores russos contemporâneos. Ele se encaixa naquelas correntes pós-modernas e pós-realistas que tem sido bastante prolíficas ultimamente, algo assim como um Haruki Murakami que escreve em cirílico. No caso de Pelevin, muitos dos seus livros se estruturam mesmo como romances de ficção científica e fantasia, com universos e desenvolvimentos dentro dos paradigmas de gênero, e tendo como cenário o ambiente da Rússia urbana moderna, além ainda de um bocado de religiosidade oriental jogada na mistura.

The Sacred Book of the Werewolf é um dos sues livros mais conhecidos. Ele conta a história de A Hu-Li, uma licantropo-raposa chinesa de dois mil anos, praticamente uma versão contemporânea da clássica kitsune do folclore japonês (e me perdoem se eu não conheço o nome chinês para usá-lo aqui no lugar). Trabalhando como uma prostituta de luxo na Moscou contemporânea, ela acaba tendo que entrar em um período de baixa visibilidade após um problema com um cliente. É nesse ínterim que ela conhece Alexander, um lobisomem que é também uma figura importante na indústria petrolífera russa; e é claro que a partir as coisas começam a ficar realmente complicadas para ela.

Se a premissa básica daria um bom suspense sobrenatural, na verdade há pouco de thriller aqui e muito mais de um romance filosófico. A Hu-Li é culta e traz consigo dois milênios de tradições orientais clássicas, e a sua busca pessoal pela iluminação é um tema constante que tanto abre como fecha a história. Há espaço para parábolas e mesmo uma profecia a ser cumprida, enquanto ela e uma irmã trocam confidências espirituais.

Como eu disse anteriormente, Pelevin está mais próximo de uma ficção de gênero propriamente dita do que, digamos, um Murakami. Há uma certa fixação na construção e exposição de cenário, explicando detalhes do funcionamento de poderes sobrenaturais que os protagonistas possuem. O tom é o de uma pseudo-ciência, e eu pessoalmente achei mesmo um tanto gratuito. Isso na verdade diminui os temas maiores do romance, e torna-se às vezes um tanto entediante. Lá pelo meio do romance algumas passagens e diálogos entre os personagens chegam mesmo a se confundir com um romance de costumes, e isso no mau sentido – eles discutem trivialidades e coisas sem importância, com aquele tom de uma novela global.

Outro problema é mais específico, e diz respeito à relação que A Hu-Li estabelecer com seu par Alexander; me perdoem se por acaso acabar entrando em spoilers aqui. O seu primeiro encontro envolve uma certa violência íntima (um estupro, pra não dissimular), que o autor prontamente se põe a justificar de ambos os lados, e a diminuir o seu impacto físico e psicológico sobre a protagonista com toda aquela pseudo-ciência que eu citei no parágrafo anterior. Conforme a trama segue e os dois vão ficando mais próximos, a sombra desse primeiro acontecimento, por mais que seja esquecido por ambos, continua lá, e é difícil que ele não incomode um leitor mais crítico. No fim, tendo isso em mente, e mesmo que ele tente falar de temas mais amplos, é difícil não enxergar o livro todo como uma apologia à síndrome de Estocolmo.

Isso acaba sendo o que realmente marca negativamente o livro, mesmo que no resto ele seja um livro bem escrito e com sua dose de passagens interessantes. Recomendo com ressalvas.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

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