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Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children

miss-peregrines-home-for-peculiar-childrenMiss Peregrine’s Home for Peculiar Children conta a história de Jacob Portman, um jovem californiano que, após ter um colapso nervoso devido à morte do seu avô, viaja para uma ilha na costa do País de Gales para desvendar o seu passado e as histórias fantásticas que ele contava sobre a época em que era um judeu refugiado em um orfanato local durante a Segunda Guerra Mundial. Munido de um conjunto de estranhas fotos de época deixados por ele, a verdade que ele eventualmente descobrirá desafiará a sua credulidade e mudará por completo a vida ordinária que levava até então.

Acho que posso resumir toscamente o livro como um “X-Men feito ao modo Harry Potter” – quer dizer, o próprio título já parece uma referência ao Instituto Xavier para Jovens Superdotados, e é impossível não pensar nos mutantes da Marvel conforme você avança os capítulos e vai descobrindo os segredos que o local esconde. Ao mesmo tempo, o tom é o de uma história de fantasia juvenil clássica, daquelas em que um garoto solitário aprende a superar suas limitações ao ser confrontado com um mundo sobrenatural secreto. Você pode até fazer o bingo da jornada do herói do Joseph Campbell se quiser.

Claro, tudo isso é feito com cuidado e esmero, com personagens cativantes caracterizados de forma bastante vívida. No entanto, o que realmente torna a leitura única e, ahem, peculiar, é o uso que o autor faz da fotografia. Fazem parte do livro cerca de cinqüenta fotografias de época retratando cenas bizarras, como crianças contorcionistas, vestindo fantasias macabras e outras. Todas são verdadeiras, vindas do acervo de colecionadores, e estão espalhadas ao longo dos capítulos para ilustrar seus personagens e situações. São o ponto de partida do enredo, sendo as pistas iniciais que Jacob possui para ir atrás dos segredos do seu avô, e é de se imaginar que o próprio livro e seus personagens tenham sido estruturados pelo autor a partir das imagens que encontrava.

O resultado é um cenário extremamente atmosférico, em que as imagens são usadas para intensificar o senso de mistério, tornando em especial os dois primeiros atos da história bastante envolventes. Com o tempo talvez até fique um elemento um pouco cansativo, com algumas fotos que talvez poderiam ser cortadas por não adicionar nada de realmente relevante à trama, e passa a ser até um pouco previsível quando uma nova imagem irá aparecer; mas não há como negar que é isto que torna o livro realmente único e tão cativante.

Há que se destacar também que é o primeiro livro do autor, e isso é visível pela forma como ele faz algumas escolhas não muito boas ao longo dele. A narrativa em primeira pessoa, por exemplo, não parece combinar com a história que ele quer contar, quebrando muitas vezes o clima. A ânsia em caracterizar os personagens vividamente também passa do ponto algumas vezes, em especial na Miss Peregrine do título, que parece sob todos os aspectos uma espécie de Mary Poppins genérica. Todo o terceiro ato, comprimido inteiro em um único capítulo de tamanho desproporcional com os demais, é um pouco dissonante do resto, parecendo às vezes ter sido pensado sob medida para um filme de verão (e, não surpreendentemente, parece que já há um em produção, com provável direção do Tim Burton). E, claro, há o final em aberto para a óbvia continuação…

Mesmo com esses detalhes, no entanto, ainda é uma leitura bastante única e envolvente, e mais de uma vez até um pouco assustadora, daquelas que você devora rapidamente em um par de noites acordado. Vale uma olhada.

X-Men Noir

Marvel Noir é uma série de histórias lançada pela Marvel Comics desde 2008, e que agora chega ao Brasil com os encadernados X-Men Noir e Homem-Aranha Noir, os dois primeiros a saírem por aqui. Ela tenta reimaginar os personagens clássicos da editora em um ambiente diferente, nos Estados Unidos da década de 1930, com uma influência pesada da literatura policial da época, que viria a ser conhecida como noir no cinema devido seus ambientes escuros e violentos (para quem não sabe, noir significa preto em francês) – enfim, fazendo aquilo que eu costumo chamar de pastiche, e que eu, pelo menos, tendo a achar muito divertido.

A versão dos heróis mutantes deste novo universo Marvel possui algumas diferenças significativas para os seus originais. A mais importante é que não há super poderes – ao invés disso, os alunos da Escola Xavier para a Juventude Excepcionalmente Transviada são simples sociopatas, isolados da sociedade por não serem capazes de viver corretamente dentro dela. Isso dá margem a algumas idéias bastante toscas – em especial a tese do Professor X da sociopatia como um estágio evolucionário da humanidade, que certamente está lá apenas para manter a referência ao material original. Por outro lado, traz também algumas coisas bem interessantes, como a forma em que os poderes são reinterpretados de forma mais mundana, com destaque para os da Jean Grey e da Vampira.

Outro detalhe relevante é que os protagonistas da história não são os X-Men propriamente ditos. Ao invés disso, os roteiristas resgataram um personagem clássico da editora da década de 1940, o Anjo (não confundir o Anjo dos próprios X-Men, que tem apenas uma ponta rápida), e, além dele, a história também é contada do ponto de vista de Eric e Peter Magnus (ou Magneto e Mercúrio), aqui transformados em um inspetor corrupto da polícia e o seu filho idealista. Acho que o primeiro, principalmente, poderia ter sido trocado por algum personagem do próprio universo dos mutantes, já que acaba ficando um pouco deslocado no contexto, sem contar nas confusões devido ao seu nome; poderia ser mesmo o Jamie Madrox, por exemplo, devido a um certo “poder” dele que é revelado no último capítulo.

A parte por isso, em todo caso, a história é bem interessante, um conto policial que abraça muito bem todo o ambiente noir, sem abandonar as referências ao universo fantástico que lhe deu origem. Há espaço para um assassinato misterioso, uma femme fatale e chefões do crime, além, é claro, de dúzias de participações especiais de personagens clássicos das franquias mutantes. A história possui um desenvolvimento muito bom, com viradas ao fim de cada capítulo que te deixam com vontade de seguir lendo, e algumas reviravoltas finais bastante surpreendentes (ainda que uma delas, ao menos, seja descaradamente plagiada do filme O Grande Truque).

O volume também termina com um pequeno conto chamado Os Sentinelas, que seria uma história de ficção científica publicada em revistas pulp dentro do universo da série. É uma leitura muito divertida, pelo menos para quem acompanhou os personagens a vida toda – é escrita propositadamente com um estilo tosco e exagerado, e faz referências a diversas sagas famosas e personagens do universo, do Massacre de Mutantes à Era do Apocalipse, com participação dos Sentinelas, dos Morlocks e mesmo da Fênix.

Em todo caso, X-Men Noir é um lançamento muito bacana, uma reinvenção criativa de personagens clássicos em um ambiente diferente, e muito bem executada. Além disso, foi lançado em um formato luxuoso, com papel especial e capa dura, e ainda assim com um preço até bem razoável. Recomendo para quem é fã dos mutantes.

X-Men: Primeira Classe

Como alguns já devem saber, eu sempre fui um marvete assumido desde pequeno, e, mais do que isso, um x-maníaco. Os mutantes (e, como onze em cada dez leitores deles, o Wolverine) foram os meus personagens preferidos praticamente desde que eu comecei a ler histórias em quadrinhos a sério. Acompanhei toda a fase clássica escrita pelo Chris Claremont e desenhada pelo John Byrne primeiro e depois pelo Jim Lee, e na verdade foram justamente estas histórias que me puxaram pra todo esse universo dos leitores de quadrinhos em primeiro lugar.

Essa é uma informação importante, porque deve explicar um tanto do meu sentimento ambíguo a respeito de X-Men: Primeira Classe (e não, o título do filme não diz respeito à primeira classe do Pássaro Negro), e algumas das críticas que eu vou necessariamente ter que fazer a ele. Elas podem parecer em um primeiro momento ranço de fã, e na verdade é justamente isso que são. Eu sempre fui um defensor das adaptações livres nos cinemas, aquela coisa de tentar pegar o cerne do personagem e fazer uma versão dele, e não apenas transferir ipsis litteris tudo o que aconteceu em cinqüenta anos de histórias ininterruptas para um filme de duas horas; por isso consigo gostar de um filme bacana como Constantine, por exemplo, e ao mesmo tempo fazer críticas duras a Watchmen. Mas é verdade também que desta vez eles puxaram certas coisas um pouco além do limite.

Claro que eu não vou reclamar de coisas menores como a escalação de Angel e Darwin entre os primeiros mutantes da vez, já que eles estão lá pra cumprir a cota genérica de poderes únicos praticamente da mesma forma como nos quadrinhos. Até o Azazel com teletransporte, vá lá, dá pra engolir. Todo o Clube do Inferno talvez pudesse ser melhor aproveitado em um roteiro sobre ele próprio, mas tudo bem, não deixou de ficar interessante da forma como foi feito. Mas um Destrutor trinta anos mais velho do que o Ciclope é duro é de aceitar – dá pra ver uma tentativa clara de não colocar os mutantes que aparecem nos outros filmes, exceto em algumas pequenas participações especiais (principalmente do Wolverine, na melhor cena de todo o filme), para manter-se fiel à “cronologia” própria do cinema; então escalar o Alex Summers, que deveria ser o irmão mais novo do Scott, acaba tendo justamente esse efeito colateral. Outra liberdade criativa dura de engolir é o relacionamento entre Charles Xavier e a Mística, que além de tudo ainda adiciona um tom de melodrama totalmente descartável à história; a cada cena em que os dois apareciam juntos o meu estômago de fã se revirava.

O pior de tudo, no entanto, é que, apesar de todas essas, ahem, liberdades, o resultado final não é ruim. Bem pelo contrário, até – o filme todo é muito bem feito, tem um roteiro interessante, ainda que com alguns furos menores, fundamentado em um fato histórico, a Crise dos Mísseis de Cuba de 1962, e tem cenas bem filmadas e divertidas. Mais do que tudo, tem excelentes atores. Jason McAvoy está ótimo como um Charles Xavier jovem e mulherengo, enquanto o Michael Fassbender rouba a cena como o jovem Erik Lensherr. Kevin Bacon também está excelente como Sebastian Shaw – ele rouba a cena mesmo na sua primeira aparição no campo de concentração nazista, e depois se mantém regular até o fim.

Enfim, como eu já destaquei, meus sentimentos a respeito de X-Men: Primeira Classe são bastante ambíguos. Por um lado, o filme é muito bem feito e divertido, não se pode dizer que seja um filme ruim. Por outro, as liberdades tomadas com respeito a alguns dos personagens realmente incomodam bastante. Se você não liga para isso, vai fundo, não há muito o que não gostar. Se, por outro lado, for um fã dos mutantes… Talvez seja melhor ver também, e tirar as suas próprias conclusões no final.

X-Men – Garotas em Fuga

X-Men – Garotas em Fuga é uma edição especial do grupo mutante, mas estrelando apenas as suas garotas – no caso, Vampira, Lince Negra, Garota Marvel, Psylocke, Tempestade e a Rainha Branca; o título original do projeto, inclusive, era X-Women, para destacar este fato. A história escrita por Chris Claremont conta qualquer coisa sobre um resgate na ilha de Madripoor, mas, francamente, quem é que tá prestando atenção? O que realmente importa é o artista convidado para ilustrá-la, o mestre dos quadrinhos eróticos Milo Manara.

Da primeira à última página, é a arte de Manara a grande estrela da edição, enquanto o roteiro de filme de Sessão da Tarde está lá apenas como ornamento. O destaque, como seria de imaginar, são as mulheres: diferente daquela volúpia inverossímil tradicional dos comics, com suas cinturas impossivelmente finas e bustos impossivelmente largos, as mulheres de Manara são curvilíneas e sensuais, mas sem deixarem de parecer reais; como diz Nick Lowe no posfácio, elas não são como a sua vizinha, mas poderiam ser (se você tivesse a sorte de morar ao lado da garota mais gostosa da cidade). Algumas delas inclusive lembram mulheres reais – olhem para a Vampira em algumas cenas e digam se ela não está a cara da Liv Tyler. É difícil não se deixar levar pelo voyeurismo e apenas admirar alguns quadrinhos, sem prestar muita atenção no que está acontecendo.

Claro, ainda é uma história de super-heróis Marvel antes de uma do Manara, o que quer dizer que a censura não é de 18 anos. Há alguns ângulos estratégicos aqui e ali, mas o máximo de nudez de fato que você vai encontrar são um biquini fio dental e uma coadjuvante vestindo apenas um casaco aberto da cintura para cima (que logicamente oculta os detalhes mais interessantes da sua anatomia). O resultado final lembra um pouco o reboot cinematográfico d’As Panteras, aquele com a Drew Barrymore, a Lucy Liu e a Cameron Diaz, inclusive por ter mais explosões do que conteúdo. Também falta um pouco de dinamismo na arte em algumas cenas de ação, embora não seja nada que atrapalhe demais.

Enfim, X-Men – Garotas em Fuga não é lá a melhor coisa que já foi feita com o grupo, e alguém esperando uma história especialmente inovadora ou cativante provavelmente vai se decepcionar bastante, mas não deixa de ser uma releitura interessante das personagens. E, é claro, as mulheres do Manara sempre valem a pena…

Wolverine: Snikt!

300px-Wolverine_Snikt_Vol_1_1Os X-Men, e mais especificamenta a clássica fase da dupla Jim Lee e Chris Claremont, são talvez os grandes responsáveis pela minha paixão pela linguagem das histórias em quadrinhos, alimentando ilusões pseudo-artísticas e mesmo me servindo de referência literária séria e tema de pesquisa acadêmica. Lembro vagamente da primeira vez que parei em uma banca para comprar uma revista, uns bons 15 anos atrás, e depois fui voltando mês a mês para seguir acompanhando, e posteriormente ainda começando a comprar outras revistas na mesma linha de super-heróis. Hoje em dia não tenho mais recursos, tanto financeiros como de paciência mesmo, para acomapanhar estas séries contínuas, mas vez por outra acabo pegando alguma edição especial ou mesmo uma pequena mini-série, desde que tenha certeza de que não precisarei seguir comprando indefinidamente para saber como a história e as sub-tramas dela terminam.

Wolverine: Snikt! é, por incrível que pareça, a primeira destas edições especiais a retomar alguns desses personagens que me marcaram tão profundamente no passado – não sei exatamente o porquê, mas me parece que por algum motivo as histórias fechadas dos personagens clássicos da DC, apesar de despertarem menos interesse em mim nos meus tempos áuroes de consumidor de quadrinhos, hoje tendem a parecer mais interessantes do que as dos personagens da Marvel. E a estrela da vez é justamente o Wolverine, o preferido de 9 entre 10 pessoas que começaram a acompanhar as histórias do grupo nessa época, eu incluso.

A edição apresenta uma história escrita e desenhada por Tsutomu Nihei, autor japonês que, aparentemente, é um revolucionário no gênero cyberpunk nos mangás contemporâneos, apesar de eu pessoalmente conhecer pouco. Artisticamente, me parece bem plausível: o traço dele é bem adequado ao gênero, com cenários sombrios e vestimentas que parecem saídas da trilogia Matrix; apenas a palidez dos personagens incomoda um pouco, mas não chega a ser um defeito. Apesar do traço, no entanto, o estilo da obra está bem mais próxima dos quadrinhos norte-americanos especialmente na narrativa; isso não é um problema na maior parte do tempo, mas em algumas cenas de ação faz falta a noção de movimento que os enquadramentos dinâmicos do mangá conseguem imprimir.

O roteiro não é especialmente inovador ou espetacular, mas é divertido, especialmente para fãs de Masamune Shirow ou dos irmãos Wachowski. A influência de ambos é bem visível: clima sombrio, futuro pós-apocalíptico, pseudo-máquinas bizarras; seria um cult instantâneo se fosse um curta de animação. E é bem uma história one-shot mesmo – curta, com começo, meio e fim, e sem qualquer relação ou pré-requisito em relação à cronologias oficiais e besteiras do tipo; qualquer um que compre a revista pode apreciar a história, sem precisar conhecer muito mais do personagem.

Enfim, Wolverine: Snikt! pode não ser o mais revolucionário e indispensável dos lançamentos em quadrinhos recentes, mas até que é uma boa diversão para fãs do Wolverine e de cenários sombrios com estética punk.


Sob um céu de blues...

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