Archive for the 'Contos' Category

Trecho avulso

Gostava de livros realistas, desses que eram pouco mais do que uma sucessão de episódios cotidianos, sem um objetivo muito claro guiando a trama. Dois amigos em um bar, um casal passeando na cidade, crianças brincando no parque. Não achava que a vida tinha fantasia suficiente, mas gostava da ilusão de que era essa a verdadeira ficção, e que o mundo que o esperaria ao fechar o livro seria mais interessante, mais intenso, mais colorido.

Fusão

Após anos de olhares trocados, sorrisos esguios e encontros sonhados, Pedro e Paula finalmente satisfizeram seus desejos: tornaram-se um, seus corpos unidos em um ato de paixão intensa e provocante. A energia liberada na fusão dos seus átomos pulverizou tudo em um raio de vários quilômetros, e a radiação contaminaria a região por décadas a fio.

Zeitgeist

No ponto, olhava para o nada, pensando na vida. De repente o vejo, logo a frente, já longe de onde estou; corro, faço sinal, chamo, grito em desespero… Mas é tarde.

Era o zeitgeist que passava.

Universos Paralelos (2)

de_leonTodos os anos, após a última rodada do campeonato, o físico quântico soltava uma bateria de fogos de artifício.

– Mas o seu time perdeu! – diziam os amigos. – Foi rebaixado! Nem chegou à final!

A todos, ele calmamente respondia:

– Ah, mas em algum universo paralelo…

A Ilha

ilhadA primeira impressão foi a de um sonho: ele, uma ilha deserta, e tudo o que já havia incluído em listagens de “10 coisas que você levaria para uma ilha deserta”. Esfregou os olhos, sacodiu a cabeça, se beliscou até quase arrancar a pele – tudo apenas confirmava: era real; fora alvo de alguma mágica maravilhosa, da graça dos deuses, ou de qualquer outra coisa que o houvesse mandado para o paraíso.

Logo, no entanto, percebeu que não fora uma sorte assim tão grande. Primeiro foram os filmes; todos os DVDs que ele gostaria de assistir até o fim dos dias: Os Caçadores da Arca Perdida, De Volta Para o Futuro, M*A*S*H*, Curtindo A Vida Adoidado… Mas onde estava a TV para exibi-los? Ou, mesmo que estivesse lá: como gerar energia elétrica para mantê-la ligada? O mesmo acontecia com os discos – estavam lá os de Derek and Dominos, Neil Young, Belchior, Engenheiros do Hawaii, Fito Paez… Mas como faria para ouvi-los?

Os livros, ao menos, eram mais simples de se apreciar – bastava levá-los até um rochedo com uma boa sombra, se acomodar, e se deixar levar pela ironia de Calvino, os labirintos de Borges, as sátiras de Vonnegut. Quem dera fosse tão simples! A fome não o deixava se concentrar nas palavras – e lá ia para o meio do mar pescar com as mãos nuas, ou, após alguns insucessos, um par de pedras. Um dia inteiro e, com sorte, dois ou três peixes de bom tamanho. No que sobrava de sol, não possuía vigor para muito mais do que deitar na areia e descansar; e à noite, quando talvez estivesse disposto, não havia luz – a menos, é claro, que fizesse uma fogueira, mas com que combustível? Não havia árvores na ilha; talvez o musgo nas rochas próximas à água servisse, mas era um inferno raspá-lo, e ainda por cima secá-lo. Por quilômetros e quilômetros, o único combustível que havia para usar eram… As páginas dos livros. E, por mais que gostasse do humor de Veríssimo, não era tanto quanto gostava de uma noite bem aquecida e livre de mosquitos.

E ainda haviam as mulheres – ah, as mulheres! Que sonho, se encontrar sozinho em uma ilha com Jessica Biel, Scarlett Johansson, Eva Mendes, Adriana Lima… Quanta ingenuidade. Pareciam estar todas de TPM, ou talvez fosse apenas o fato de terem sido transportadas sem consulta para uma ilha deserta de localização desconhecida. E, claro, não havia por que acreditar que seria capaz de despertar nelas qualquer interesse ou desejo – bom, ao menos nos primeiros dias, antes da falta de opção se tornar evidente e todas subitamente se voltarem para ele. E então, paraíso? Não! Quanta pretensão, se achar capaz de satisfazer sozinho a dez mulheres! E não apenas nos assuntos íntimos – ou alguém acredita que as belas damas de hollywood dividiriam com ele as tarefas de subsistência? Se já era difícil pescar o bastante para uma pessoa, imagine onze. Sem contar, ainda, em sobreviver às brigas e disputas cada dia mais intensas pela sua atenção.

Foram dias tortuosos, até concluir que não havia como continuar – precisava sair dali, ou então suicidar-se. Decidiu pela primeira opção: durante vários dias, juntou os discos e DVDs com trapos das roupas, formando uma pequena embarcação que manteve escondida junto a um dos rochedos na costa da ilha. E uma noite, enfim, lançou-se ao mar durante a maré alta, aproveitando enquanto as mulheres estavam adormecidas. Mandaria alguém buscá-las quando atingisse algum porto seguro, é claro, mas não imediatamente; antes havia algo mais importante a fazer, algo que, percebia agora, deveria ter feito há muito tempo: uma lista das dez comodidades do mundo moderno que levaria para uma ilha deserta.

Jazz After Midnight

bass

Desde quando sou capaz de me lembrar, sempre fui apaixonado pelo Japão e a cultura japonesa. Amo sushi e saquê. Escrevo haicais eventualmente. Adoro assistir vídeos e competições de artes marciais, e até aprendi as regras básicas do beisebol. O Japão domina mesmo resto dos meus gostos pessoais, desde a música da Carmen Maki e Yoko Kano até os livros do Yasunori Kawabata e Haruki Murakami, e mesmo, vá lá, do Kazuo Ishiguro, ainda que ele seja mais inglês do que japonês. Talvez a principal exceção nesse quesito seja o jazz, que aprendi a apreciar e a amar depois adulto, mas mesmo ele provavelmente se deva muito mais à curiosidade despertada após vê-lo descrito com tanta paixão nas histórias de Murakami-sama. Acho que foram os anos assistindo desenhos animados e lendo histórias em quadrinhos, ou talvez as horas perdidas nos videogames vindos de lá, não sei. Não sou descendente de imigrantes nem tive amigos que fossem na minha infância e adolescência. Como não achar que há algo do Jaspion e dos Cavaleiros do Zodíaco aí no meio?

Por isso, desde que me tornei independente e com uma fonte de renda que me permitisse alguns luxos, transformei em um ritual pessoal viajar até o país pelo menos uma vez por ano ou a cada dois anos. Começou, é claro, como simples turismo: após algum tempo economizando, juntei dinheiro para passar cerca de uma semana em Tóquio durante um período de férias. Conheci os principais pontos da cidade – a Torre de Tóquio, o Palácio Imperial, o Templo Meiji, além, é claro, de Akibahara -, mas não me senti satisfeito. Dois anos depois estava de volta, e desde então, sempre que possível, ou quando o stress por aqui ficava insuportável, eu comprava uma passagem aérea e ia passar alguns dias do outro lado do planeta.

É claro, uma cidade só tem tanto de novidades a oferecer a um visitante tão frequente. Mesmo um país, na verdade, ainda mais um de dimensões tão reduzidas. Mas não me interessava conhecer outros lugares; nunca fui um entusiasta do turismo pelo turismo, de gastar horas sem fim em aeroportos apenas para conhecer culturas exóticas e locais exuberantes. Só o Japão me interessava. Era algo no ar, ou nas pessoas, ou talvez no chão mesmo, que me despertava a vontade de voltar e voltar e voltar ainda outra vez.

Não foi o fato de ter conhecido todos os principais pontos turísticos do país, assim, que me fez parar de visitá-lo. Bem pelo contrário, na verdade: conhecê-lo tão bem reforçava a minha vontade de voltar, de revê-lo e senti-lo novamente. Se não haviam mais lugares a visitar, ainda havia a simples vida das ruas, a energia que emanava dos transeuntes e dos prédios e dos ideogramas luminosos nas placas de lojas e restaurantes.

Gostava de sair dos hotéis onde me hospedava sem um rumo definido e apenas vagar aleatoriamente pelas redondezas. Não me preocupava sequer em marcar o caminho que fazia, apenas dobrando aleatoriamente em ruas, dando voltas e voltas ao redor dos quarteirões. Outras vezes perseguia pessoas aleatórias, apenas para ver onde elas me levavam. Quando decidia retornar, bastava chamar um táxi e dar o endereço e pontos de referência – o idioma, depois de tanto tempo, certamente já não era mais problema. Aos poucos comecei também a aumentar o perímetro destas minhas andanças, me afastando cada vez mais do meu ponto de origem.

O resultado desta brincadeira foi que todo um Japão diferente começou a se revelar para mim. Ruas estreitas, prédios sujos, lojinhas de esquina; ao que parece, mesmo um país de primeiro mundo possui o seu lado pobre e sombrio, que não é exposto em guias de viagens. Se havia um pouco de medo em andar por lugares assim, também havia uma emoção particular em desbravá-los e descobrir um país que se ocultava aos demais visitantes.

Certa vez, comecei a perseguir uma moça que andava pelo centro de Tóquio. Ela se destacava com facilidade na multidão por ser mais alta que as mulheres ao redor, vestindo algo como uma versão moderna de um quimono da época dos xogunatos; por mais que não destoasse das vestimentas modernas que a rodeavam, evocava também uma certa aura de magia e mistério, como um brilho místico que emanava das suas estampas de flores e dragões. Seus cabelos eram longos e escuros como a noite, e terminavam próximos aos quadris modelados pelo vestido, balançando como um pêndulo de hipnotismo.

Ela passou por mim e eu fui fisgado por esse balanço, puxado como um peixe em um anzol através de ruas e avenidas. Mais do que na sua atração sobre mim, havia algo de mágico no seu próprio caminhar: os sinais estavam sempre verdes, ou, quando não estavam, eram as ruas que estavam vazias, e as pessoas desviavam do seu caminho antes que ela precisasse fazê-lo. Nada parecia capaz de interrompê-la. Eu, por outro lado, não tinha tanta sorte: esbarrava em transeuntes, e quase fui atropelado ao menos três vezes. Mesmo assim, não conseguia perdê-la de vista. Se era forçado a desviar o olhar por algum motivo, ela sempre estava lá quando retornava-o na sua direção.

Quando dei por mim estava em uma parte desconhecida da cidade, em uma rua da qual nunca ouvira falar, em um bairro que não me parecia de qualquer forma familiar. O local era mal-iluminado – sequer havia percebido que já era noite -, e parecia haver poeira por todos os cantos. Na minha frente estava um par de portas deslizantes tradicionais de bambu e papel de arroz, sob um grande letreiro luminoso com os ideogramas 河童バー. Kappa Bar. Sem parecer ter outra opção, entrei.

O lado de dentro era melhor iluminado e preenchido por diversas mesas redondas ocupadas pelos clientes, com eventuais vasos de plantas para completar a decoração. Eu era o único gaijin, aparentemente. Em um palco pequeno na outra extremidade um quarteto de saxofone, contrabaixo, piano e bateria tocava standards de jazz; Take the A Train estava terminando quando eu entrei, e logo já começavam St. James Infirmary.

Com alguma relutância, escolhi uma mesa vazia e me sentei. Pedi um drinque com saquê e uma porção de tempura a um garçom tão pequeno que parecia ser mesmo uma criança. Em seguida, comecei a olhar ao meu redor em busca de sinais da mulher que me trouxe até aqui. Não a encontrei em nenhuma mesa.

Decidi relaxar e apenas aproveitar o ambiente. A banda era bastante boa, assim como a comida. Quando reconheci as primeiras notas de Round Midnight, chequei meu relógio: além de bons, eram também pontuais. Acompanhei a execução da música, uma das minhas favoritas, balançando a cabeça e batendo os pés no chão no ritmo dos acordes. Chamei o garçom e pedi outra bebida. Por um instante achei estar sendo observado, mas, ao virar o rosto, tudo o que vi foi a parede de bambu e papel que estava ao lado da minha mesa.

A música seguinte foi Sophisticated Lady. Não havia como esquecê-la: além de tocada com uma maestria incomum, como se o próprio Duke Ellington tivesse descido dos céus para regê-la, bastou os primeiros acordes ressoarem pelo salão para que uma salva de palmas se espalhasse por todas as mesas. Uma mulher caminhava por entre elas em direção ao palco, então subiu e posicionou-se à frente da banda. Sim, era ela: a mesma que havia me hipnotizado na rua e trazido até o bar. Pude reparar com mais atenção as suas feições agora que a via de frente, a pele pálida como arroz, os traços delicados como se pincelados com nanquim. Seu rosto arredondado era modelado com um queixo fino, dando por vezes, se olhado por um ângulo específico, uma impressão de profundidade, como se eu estivesse olhando para o focinho de uma raposa.

Ela acompanhou em silêncio o fim da música, apenas balançando o corpo suavemente no seu ritmo, e então aproximou os lábios do microfone à sua frente, tocando-o com delicadeza. Quando a voz saiu, tinha a potência de uma onda quebrando na costa, uma força da natureza que invadia o mundo dos mortais.

Once I lived the life of a millionaire…

Foi um choque: a sua aparência frágil em nada sugeria o vigor bruto que eu sentia ao ouvi-la. A força da sua voz me fazia até mesmo ignorar a sua beleza; eu fechava os olhos e me imaginava ouvindo a própria Bessie Smith ressucitada. Pela segunda vez me sentia hipnotizado, agora pela audição.

O set vocal foi pequeno, com apenas três músicas. Ao fim delas, acompanhada pelos olhares de todos os presentes, ela desceu do palco e voltou a caminhar pelo salão. Senti um calafrio percorrer a minha espinha: ela mantinha os olhos fixos nos meus, vindo devagar em direção à minha mesa.

Sentou-se ao meu lado sem pedir permissão, e sem que precisasse pedir um garçom colocou um drinque à sua frente. A banda voltara a tocar, alguma faixa do Kind of Blue do Miles Davis. Um turbilhão de coisas passava pela minha mente: lembrava da perseguição no centro, os seus quadris balançando, a entrada no bar, os olhos dos outros clientes virando-se na minha direção. Senti meu rosto enrubescer, sem saber o que ela diria a respeito. Quando falou alguma coisa, no entanto, parecia estar alheia a tudo isso.

– Gostou da apresentação?

Demorei alguns segundos para responder, o que não pareceu surpreendê-la. Balbuciei que sim com alguma dificuldade. Ela então tomou um gole da sua bebida e seguiu falando sobre a qualidade dos músicos, a acústica do salão, a execução de standards famosos. Eu balançava a cabeça eventualmente, e de vez em quando dava alguma resposta monossilábica apenas para continuar a conversa.

Não sei exatamente quando percebi que havia alguma coisa… Diferente naquele bar. Em algum momento, entre um comentário sobre a vida pessoal de Charlie Parker e um sobre os improvisos dissonantes do Thelonious Monk, eu me virei rapidamente para o palco e percebi que não haviam músicos sobre ele. Mas a música continuava a ser tocada – os instrumentos simplesmente o faziam sozinhos! O saxofone flutuava enquanto cantava as suas notas, e o contrabaixo vibrava as suas cordas sem que ninguém as tocasse. As teclas do piano se moviam sozinhas, da mesma forma que os pratos e tambores da bateria.

Olhei para o meu copo, me perguntando o quanto já havia bebido, mas a verdade é que não me sentia embriagado. Aos poucos, comecei a perceber os tipos que ocupavam as mesas ao meu redor: logo ao meu lado uma moça com duas bocas, uma delas no lado de trás da cabeça, no meio dos seus cabelos, devorava um combinado de sushi e sashimi; um grande pescoço se contorcia por trás dos clientes, terminando em uma cabeça que roubava batatas fritas de uma mesa vários metros distantes de onde estava o corpo da sua dona; um menino de um olho só molhava os lábios com um língua enorme, enquanto olhava com um sorriso assustador para um prato de torta de chocolate na sua frente.

Olhei para os vasos que decoravam o ambiente, e percebi que as plantas tinham frutos que pareciam cabeças humanas. Os quadrados de papel nas paredes de bambu tinham olhos que observavam tudo o que acontecia no salão. Em algum momento eu me desculpei com a minha acompanhante e disse que precisava ir ao banheiro; chegando lá, no entanto, dei de cara com um menino assustador de pele vermelha e apenas um dedo em cada pé. Dei meia-volta e resolvi voltar para minha mesa, mas no caminho acabei pisando sem querer em uma das caudas de um gato que se apoiava sobre duas patas em frente ao balcão do bar. Ele soltou um grito e eu tentei me desculpar, mas antes que percebesse já estava recebendo uma chuva de tapas das suas patas dianteiras.

Quando retornei encontrei a cantora conversando com o garçom, que só então reparei ter pele esverdeada e escamosa, com uma espécie de casco sobre as costas e um rosto alongado e reptiliano. Ela me disse que a conta estava paga e um táxi nos esperava do lado de fora. Consenti, e não questionei quando ela entrou comigo no carro e me acompanhou até o hotel.

Logo que entramos no meu quarto ela me jogou sobre a cama e começou a se despir. Não sei se era a minha imaginação ainda em choque pregando peças, mas na sua silhueta na escuridão eu podia jurar ver um par de caudas sendo soltas quando ela se desfez das peças inferiores. Só sei que ela veio por cima de mim e começou a morder o meu ombro suavemente com seus dentes afiados. Pouco depois eu me virei e fiquei sobre ela, deixando-a me abraçar e arranhar com unhas que pareciam garras. Seus gemidos soavam de alguma forma como uivos para o luar.

Acordei na manhã seguinte me sentindo cansado e fraco. Não havia qualquer sinal dela pelo quarto, exceto por uma profusão de pelos finos sobre a cama. Ao checar no espelho, ainda podia ver as marcas de onde ela me arranhara e mordera na noite anterior.

Gastei o resto da viagem procurando aquele bar. Tentei refazer meus passos, lembrar de pontos de referência, até perguntar para nativos se o conheciam, mas nenhum jamais ouvira falar dele. Outras vezes apenas caminhava sem rumo pelo centro de Tóquio, esperando que a mesma mágica que me fez encontrá-la daquela vez acontecesse novamente.

Voltei para casa. Retomei minha rotina. Isso foi há… Dois anos? Três? Por algum motivo, no entanto, não tive coragem de retornar ao Japão desde então. Mais de uma vez busquei uma passagem na internet, mas sempre no último instante algo me fazia fechar o navegador sem completar a compra. Era como se tivesse perdido algo naquele dia – algo que, mais do que me fazer falta e motivasse a minha busca, na verdade me enchia de medo de ser recuperado.

Vencer!

jesse-owens-olympicsAbri os olhos para a escuridão. Uma imensidão negra era tudo o que enxergava, me engolindo e assimilando por completo. Por um instante duvidei mesmo de que os tivesse realmente aberto, e não os mantinha ainda cerrados, temeroso do que encontraria ao despertar. Aos poucos, no entanto, comecei a discernir formas e linhas desenhando as silhuetas de armários, bancos, lâmpadas apagadas no teto, uma janela pequena fechada no alto da parede. Um cheiro forte e ferroso me invadia as narinas, descendo a traqueia e sentido até os pulmões. Eu o absorvia e exalava devagar, como se o saboreasse, junto com o ar que respirava. Ao longe, o único som que ouvia era o de gotas d’água caindo uma a uma sobre o chão.

Estava no vestiário do estádio, sozinho. Deitava sobre um dos bancos observando a escuridão à minha volta. Era a rotina: deixar o corpo esfriar após a vitória, os músculos se recuperarem, a mente descansar. Preferia fazer isso assim, longe dos treinadores e jornalistas, sem ninguém para me perturbar ou paparicar. Apenas eu e meus fantasmas, nos encarando em silêncio por um par de horas. Era o meu momento em particular, em que minha vida passava diante de mim como em um filme, e eu podia parar e refletir sobre o que realmente importava: vencer, e nada mais.

Tentei recordar como tinha sido daquela vez. Buscava imaginar os gritos do público, os adversários ficando para trás, o peito arfando enquanto eu diminuía a velocidade e as pernas paravam de correr. Já sentia os músculos do rosto se contorcendo, formando um sorriso para ninguém, quando lembrei o que de fato acontecera, e deixei-os parados em uma expressão de espanto. Tentei levantar, mas as pernas não responderam; caí de bruços sobre o chão, batendo o braço esquerdo na quina do banco. Só então percebi que não sentia mais o meu corpo da cintura para baixo.

Uma poça de lágrimas logo começou a se formar sobre o chão. Havia quanto tempo que eu não sabia o que era isso? Dois anos? Três? Vistos agora pareciam ter passado rápido demais, como se não somassem mais do que um mês. Os primeiros passos em quase uma década, a passagem da depressão para a euforia… Os treinos, as vitórias, as medalhas… Tudo condensado em poucos momentos, encadeados como se tivessem seguido um após o outro, sem intervalos. O último havia sido ainda no dia anterior, mas de repente já me parecia distante, como se tivesse ocorrido em um passado remoto. Um passado perdido, e irrecuperável.

***

Ao relembrar a sua história, a maioria das pessoas tende a vê-la pela ótica do presente, buscando prenúncios na infância daquilo que se tornariam na vida adulta. Se uma mulher é uma boa mãe, por exemplo, verá nisso ecos das suas brincadeiras com bonecas, ignorando todas as outras meninas que provavelmente brincavam de forma semelhante e se tornaram negligentes e relapsas com seus filhos. Não quero cometer o mesmo erro. Sim, eu gostava de correr aos dez anos. Fazia competições com os amigos para ver quem era o mais rápido. Algumas vezes até as ganhava. Mas no que eu era diferente, nisso, do que a maioria dos outros garotos da minha idade? Se o ato de correr veio a ter a importância que teve na minha vida, e a representar o que representou para mim, foi por acontecimentos muito posteriores.

Cresci em uma época difícil. Havíamos perdido a Grande Guerra, e o país assumira praticamente sozinho todo o ônus pelas perdas das outras nações. O Kaiser havia caído. Caos e confusão dominavam as ruas: Freikorps e sindicatos de trabalhadores brigavam pelas migalhas que sobraram de uma república frágil, que não parecia capaz de resistir mais do que alguns meses, enquanto a população desiludida era atingida pelos estilhaços do conflito. Eu era jovem demais para entender muito bem o que ocorria, é claro, mas não para sofrer com os seus efeitos: não havia mais comida; não havia mais trabalho; quase não havia mais dinheiro, e aquele que havia já não podia comprar o que precisávamos. Milhares de pessoas jogadas às traças, irrelevantes para o governo, para a indústria, para o mundo.

Meu Papa era uma destas pessoas. Sem trabalho, incapaz de alimentar a família, voltou-se para a única coisa que lhe restava: a política. Reuniu-se com antigos colegas, entrou em contato com sindicatos e planejou protestos e ataques contra o governo. Lembro dos encontros na nossa casa, as pessoas estranhas vestindo casacos empoeirados que chegavam de madrugada e iam com ele até o porão, de onde saíam apenas após o nascer do sol. E nos dias em que ocorriam as manifestações ele saía pela manhã e só retornava no fim da tarde, arfando e transpirando, contando histórias sobre o que acontecera, os amigos que encontrara, as frases que gritara, os guardas que atingira com pedradas.

Certo dia, eu tinha acho que doze ou treze anos, ele chamou a mim e a Mama para acompanhá-lo em uma destas manifestações. A Mama não gostou da ideia, é claro, mas o Papa insistiu – fazia parte de algo que ele e seu grupo haviam decidido durante a reunião anterior, sobre mostrar às pessoas que não eram apenas um bando de arruaceiros, mas sim trabalhadores com famílias para sustentar. Dizia que seria um protesto pacífico, sem ataques a autoridades ou propriedades alheias, apenas uma tentativa de serem vistos e ouvidos. Acreditava também que a presença de crianças no grupo seria positiva, inibindo uma repressão mais violenta; policiais e soldados que atacariam um adulto sem pensar hesitariam antes de agir assim contra um garoto, ou pelo menos era o que ele pensava. No fim, a autoridade paterna, somada à minha própria empolgação, venceu qualquer argumentação, e saímos todos juntos de casa na manhã seguinte.

Tantos anos já se passaram desde então, mas ainda sou capaz de lembrar quase tudo o que aconteceu naquele dia, praticamente minuto a minuto. Lembro de estar gostando bastante, pelo menos em um primeiro momento: havia muitos garotos próximos da minha idade, levados por outras famílias, e nos divertíamos correndo em meio aos adultos. Alguém arranjou uma bola e passamos a chutá-la uns para os outros. Um grupo de mulheres ficava mais atrás, cochichando algum assunto entre si, enquanto outras acompanhavam os homens na frente, carregando faixas e gritando frases de protesto. Um pequeno contingente de soldados nos acompanhava de perto, como se nos escoltasse, mas sem ameaçar uma atitude violenta. O clima geral era muito mais o de um encontro comunitário do que o de uma manifestação política.

E, então, tudo mudou. Olhando hoje, em retrospecto, é difícil não pensar que fomos nós que o começamos alguma forma. Alguém, encorajado pelo número pequeno de soldados, pode ter esbravejado alguma ofensa contra um deles, talvez até atirado uma pedra. Imagino que pode ter sido mesmo um dos garotos menores – você sabe como somos todos um tanto provocantes e inconsequentes em uma determinada idade. Ou talvez tenha sido tudo planejado desde o início, o destino da manifestação já estivesse selado no momento em que começara, e apenas esperaram até que chegássemos a um determinado ponto para começar a atirar. Acho que já não importa mais; o que realmente importa é o caos em que tudo se transformou: um conflito aberto em meio às ruas, entre as quais crianças corriam atrás de becos onde se esconder e pais e mães gritavam desesperados pelos seus filhos. A vantagem que tínhamos nos números logo já não significava nada, tanto pelo pânico que sentíamos, como pelos reforços que não demoraram a chegar.

Eu havia me separado do Papa e da Mama pouco antes de tudo começar, e os procurava em meio à confusão de tiros e gritos. Reunia toda a coragem que podia ter naquela idade e buscava não olhar em volta, evitando os corpos caídos pelo chão e os olhares vazios de garotos com quem poucos minutos antes eu trocava sorrisos e gargalhadas. Não lembro por quanto tempo procurei; podem ter sido apenas alguns minutos, mas, naquela situação, era como se fossem longas horas de desespero. Eventualmente, no entanto, ouvi um grito que me fez virar o rosto na direção de onde vinha.

– Hans! Corre, filho, corre!

Mal tive tempo de reconhecer o rosto do Papa sujo de sangue e terra antes da sua cabeça explodir no lado esquerdo, soltando pedaços de carne e osso pelo ar.

Fiquei paralisado por alguns instantes, observando enquanto ele caía de lado em direção ao chão. Tudo parecia acontecer em câmera lenta: meu coração batia devagar, o estampido dos tiros soava nos meus ouvidos e a fumaça entrava nas minhas narinas, carregando um cheiro de pólvora que se misturava ao do sangue vindo dos corpos ao redor. Apenas quando o baque da sua queda me atingiu eu me vi livre deste transe, e, com os membros ainda tremulantes, pude me virar e começar a correr para algum lugar. Mas então senti uma fisgada no meio das costas e caí de bruços sobre o chão.

A partir daí minha memória começa a ficar confusa, com lampejos esparsos de consciência intercalados por grandes apagões. Em vários deles eu estava ainda na cena do conflito, respirando com dificuldade, ouvindo os tiros e olhando os corpos caindo à minha volta. Então veio o silêncio, e outra vez, e novamente, até que escutei uma voz gritar está vivo!, e me senti ser levantado e carregado sobre os ombros de alguém até um veículo motorizado. Podia senti-lo em movimento nos lampejos seguintes, enquanto várias pessoas se revezavam em segurar a minha mão e dizer frases de conforto, garantindo que tudo logo ficaria bem. Depois estava deitado em uma maca sobre rodas correndo por entre paredes brancas com vários estranhos em aventais sujos me rodeando, dizendo frases técnicas demais para eu entender. E então estava em algum tipo de sala de cirurgia, com uma luz branca e forte sobre meus olhos, e senti uma máscara ser colocada sobre minha boca e nariz, exalando um gás forte que me deixou feliz de repente, antes de fazer a escuridão vir em definitivo.

***

Quando acordei estava em uma ala grande de um hospital, deitado em uma cama em meio a outros pacientes. Ao me ver tentando levantar, uma enfermeira correu até onde eu estava e ajudou-me a ficar com as costas retas, colocando um travesseiro entre mim e a parede.

– Vejo que está acordando bem. Se estiver com fome, eu posso…

– Onde estou? O que aconteceu? Meu Papa

– Se os seus pais estavam com você, eles provavelmente… – a enfermeira hesitou por alguns instantes, como se buscasse a melhor maneira de continuar. Após um longo suspiro, desistiu. – Mas o importante é que você está bem. Tem muita sorte de ter sofrido tão poucos ferimentos. Os médicos não tiveram dificuldades para salvá-lo.

Ela continuou falando de alguns detalhes do meu caso, citando outros pacientes que não tiveram a mesma sorte, mas eu já não a escutava. Percebera de repente que não sentia mais as minhas pernas ou qualquer parte do corpo abaixo da cintura; comecei a tateá-las para confirmar que ainda estavam lá. Podia senti-las com as mãos, mas não sentia as próprias mãos tocando nelas. Olhei assustado para a enfermeira. Ela se calou e virou o rosto sério para o chão. Comecei a chorar.

***

Passei os anos seguintes naquele hospital. Meus pais haviam morrido, eu também não tinha avós vivos, e o único parente que me restava era uma tia distante, moradora de uma região que agora pertencia a outro país. Com todas as complicações que seriam necessárias para me enviar até lá, eu mesmo preferia continuar onde estava. Já havia feito alguns amigos entre os pacientes e funcionários, e os próprios médicos e enfermeiros se apiedaram da minha situação, um pobre garoto sem família e que não podia mais andar, e fizeram poucas objeções. Eu também ajudava em tudo o que podia, levando instrumentos e remédios de um lado para o outro em uma cadeira de rodas, para tentar ser um estorvo menor. Acabei virando uma espécie de mascote do hospital.

Durante algum tempo, culpei o meu Papa pelo que acontecera. Ele que nos havia levado naquela manifestação, afinal, e se não fosse por isso a Mama ainda estaria viva, e eu ainda poderia andar e correr. Apenas ele precisava ter morrido. O próprio fato de que não estava mais lá para sofrer o meu ódio, no entanto, acabou por torná-lo um tanto vazio, e eventualmente eu o abandonei. Tentei então me voltar contra o governo e as autoridades, que haviam respondido de forma tão violenta contra o que deveria ter sido um protesto pacífico. Mas logo os abandonei também: estava já cansado de odiar, e percebera que não havia sentido gastar o pouco de energia que tinha desta forma. No fundo, o que eu realmente queria não era alguém a quem culpar, mas sim uma forma de voltar a andar e correr como antes.

Acompanhei de longe as mudanças pelas quais o país passava. Sempre havia um jornal entre os funcionários, e muitos pacientes gostavam de comentar alto sobre as notícias mais recentes. Assim fiquei sabendo da vitória do Partido Nacional-Socialista nas eleições, e a forma como eles carregaram o seu líder quase que literalmente até a chancelaria. Era um sujeito controverso, conhecido pelos seus discursos inflamados e o pequeno bigode que usava abaixo do nariz, veterano da Grande Guerra e que fora preso após uma tentativa de golpe de estado anos antes. Muitos o idolatravam, e diziam que era o líder forte de que o país precisava em um momento como o que se encontrava. Uns poucos, no entanto, viam nele um louco e extremista, e apostavam que ainda causaria uma grade tragédia no comando da nação.

Eu, na verdade, pouco me importava. Falavam sobre os discursos do Führer, os planos dos comunistas, as conspirações dos judeus, a crise ao redor do mundo… E tudo o que eu fazia em resposta era balançar a cabeça e levar a cadeira de rodas até a janela, onde parava e observava as pessoas do lado de fora caminhando de um lado para outro, os garotos correndo em frente à fachada do hospital, e me imaginava entre eles, as pernas como que por milagre funcionando outra vez, e o Papa e a Mama sentados em um dos bancos me observando com um sorriso no rosto.

E então, um dia, enquanto eu estava em um destes devaneios, uma das enfermeiras veio falar comigo.

– Hans?

– Sim?

– O ministro está no hospital, e gostaria de falar com você.

– O… Ministro?

– Sim. Venha comigo, por favor.

Ela me levou pelos corredores até uma das salas da administração. Dois soldados estavam de guarda na entrada, e um deles abriu a porta para que passássemos com a cadeira de rodas. A enfermeira me deixou em frente a uma mesa e saiu sem dizer nada.

Havia um homem parado em frente à janela, olhando para o lado de fora. Vestia um uniforme militar com uma faixa vermelha e a suástica do Partido Nacional-Socialista no braço esquerdo. Assim que percebeu a minha presença, se virou e caminhou até o outro lado da mesa, de frente para mim, mas não se sentou, preferindo ficar de pé em uma posição ereta, com os braços para trás do corpo. Tinha um rosto longilíneo sério e compenetrado, com um cabelo bem cortado e algumas poucas marcas de idade.

– Hans, eu presumo.

– Sim, senhor.

– Se importa se eu chamá-lo pelo primeiro nome?

– Não, claro que não, senhor.

– Muito bem. – ele pausou por alguns instantes, como se esperasse alguma reação. – Diga-me, Hans. Você sabe quem eu sou?

– A enfermeira disse que era um ministro, senhor.

– Mas você não sabe qual ministro?

Fiquei em silêncio por alguns segundos, como se tentasse lembrar o seu nome. Não havia o que lembrar, no entanto, e foi com um pouco de vergonha que admiti.

– Sinto muito, senhor. Não costumo prestar muita atenção ao noticiário político.

– Ah. – o ministro parecia um pouco decepcionado. – Bem, não importa. Na verdade, até o invejo um pouco por isso. Seria bom poder me desligar de tudo algumas vezes, e me preocupar apenas com os meus próprios assuntos.

– Se você diz, senhor.

– Sim, eu digo. Mas enfim. – ele caminhou em volta da mesa e apoiou-se nela pelo lado da frente, próximo de onde eu estava. – Sabe, Hans, eu fiz uma pequena visita a este hospital alguns dias atrás.

– É mesmo, senhor? Não me lembro de tê-lo visto por aqui.

– Eu imaginei que não. Mas eu lembro de ver você nesta visita. Sabe o que você estava fazendo?

O ministro ficou em silêncio por alguns instantes, esperando a minha resposta. Eu estava um pouco assustado com a proximidade e a forma como ele me olhava, no entanto, e nada consegui dizer. Após algum tempo ele enfim desistiu de esperar, e continuou.

– Você estava parado em frente a uma janela, exatamente como eu estava aqui quando você chegou, olhando para fora.

Acho que ruborizei naquele instante, e virei o rosto para baixo. Uma visita daquelas, de um membro importante do nosso governo, e o que eu estava fazendo ao invés de saudá-lo? Tendo meus sonhos e fantasias sobre voltar a andar!

– Não é necessário se envergonhar, Hans. – ele continuou. – Na verdade, fiquei até um pouco curioso com o ar de melancolia que havia à sua volta, e o olhar triste que tinha no rosto. Perguntei a uma das enfermeiras sobre você, e ela me contou toda a sua história. Disse-me quem eram seus pais, e como você ficou na situação em que se encontra.

Ele caminhou mais uma vez até a janela e cruzou os braços enquanto olhava para fora.

– Deve ser difícil viver assim, preso em uma cadeira de rodas, sem poder andar e correr, vendo todos caminhando à sua volta pelo hospital. Não ter liberdade para ir e vir de qualquer lugar, independente de rampas de acesso e corredores planos.

Ele se virou para mim outra vez, e deve ter reparado que eu me esforçava para não chorar.

– Mas não se preocupe. Não estou aqui apenas para lembrá-lo da sua condição. Na verdade, estou aqui para fazer uma proposta.

Virei o rosto para o ministro, curioso. Ele voltou outra vez para trás da mesa, caminhando devagar, e se apoiou com as mãos na cadeira que havia lá.

– Diga-me, Hans. O que você faria se eu lhe dissesse que posso restaurar as suas pernas? Que posso fazê-lo voltar a andar?

Eu olhei para ele, surpreso, sinceramente sem saber o que responder. Parecia algum tipo de piada, a ideia de que eu poderia voltar a andar depois de tanto tempo. Mas o ministro continuava sério: seu olhar era de uma lucidez absoluta, que traía mais uma expectativa pela minha resposta do que qualquer troça ou brincadeira.

– E então? Você quer andar e correr novamente?

***

Passei os dias seguintes em grande expectativa, sem saber bem o que esperar. O ministro Goebbels havia prometido que eu logo voltaria a andar, mas seria capaz de cumprir o que disse? Haveria mesmo algum milagre, místico ou científico, que me poria de pé novamente? Eu não sabia no que acreditar. Por um lado é claro que eu queria acreditar, queria que fosse verdade, mais do que qualquer outra coisa no mundo. Por outro, no entanto, parecia fantástico demais, e às vezes eu mesmo me perguntava se a conversa que tivemos não tinha sido apenas um delírio, um sonho que eu me esforçava para ver como realidade.

Mas não demorou e um grupo de soldados veio ao hospital me buscar. Foi difícil me despedir de alguns amigos de tantos anos, mas no momento em que os vi pela janela eu já sabia que não voltaria atrás. Juntei meus poucos pertences, algumas últimas lembranças que ganhei dos funcionários, e me deixei ser carregado até o camburão militar.

Seguimos até uma base nas redondezas da cidade, onde recebi uma nova cadeira de rodas para me locomover. O ministro Goebbels estava lá para me receber, com um largo sorriso no rosto.

– Ah, Hans! Fico feliz que não tenha mudado de ideia.

– Eu nunca mudaria, senhor.

– Muito bem. – e deu um tapinha nas minhas costas. – Ainda estamos fazendo alguns preparativos, mas amanhã ou depois de amanhã você já será chamado para a operação. Aproveite suas últimas horas para se despedir do seu amigo. – apontou para a cadeira enquanto falava, e então seguiu para o palácio do governo dizendo que tinha alguns assuntos importantes para cuidar.

Fui levado para o quarto onde dormiria durante a minha estadia na base, e pude guardar a pequena sacola que havia trazido. Durante os dois dias seguintes fiquei andando pelo local, conhecendo suas dependências, tentando fazer alguns amigos e ser útil de alguma forma, como me acostumara nos anos passados no hospital. A maioria dos soldados, no entanto, preferia cuidar dos seus afazeres sem a minha ajuda, de forma que não havia muito com o que me ocupar para diminuir a ansiedade. Na manhã do terceiro dia, afinal, me acordaram e levaram até a sala onde seria realizada a operação.

Colocaram-me em uma cama estreita com uma luz forte sobre o rosto, trazendo quase que imediatamente a memória do dia em que tudo começara, tantos anos no passado. Havia três homens na sala vestindo aventais e máscaras, que se apresentaram como os médicos que fariam a operação. Desta vez, no entanto, quando colocaram a máscara para que eu respirasse o gás que deveria me fazer dormir, algo de diferente aconteceu. Não sei se era este o objetivo desde o início, ou se era apenas a soma da minha ansiedade com a maior vitalidade que tinha então, mas eu não fui capaz de perder completamente a consciência. Senti meu corpo ficar leve e flácido aos poucos, até chegar a um ponto de quase total insensibilidade; não sentia a dor dos cortes, mas podia perceber o toque dos bisturis e os outros instrumentos que eram usados. Também conseguia enxergar, com as limitações de não poder mudar de posição, e ouvir com quase total perfeição.

Permaneci consciente desta forma durante toda a operação. Via os médicos de costas para mim, trabalhando na região onde, eu presumia, estavam as minhas pernas, e os ouvia enquanto pediam e trocavam os seus instrumentos de trabalho uns com os outros. Senti o meu abdômen sendo aberto e os órgãos internos mexidos pelo lado de dentro, criando espaço para alguma… Coisa, que iriam colocar ali. Também havia muitos tubos e cabos nas mesas ao redor, que eles constantemente pegavam e encaixavam em algum lugar do meu corpo.

Foram horas longas e penosas. Pensei algumas vezes em chamar a atenção de um deles, avisar que ainda estava consciente, mas sempre recuava quando pensava que podiam parar tudo e decidir que era melhor não continuar, que eu não estava apto a participar da operação. Mesmo que prosseguisse não acho que meu corpo responderia, de qualquer forma. Assim, para passar o tempo, comecei a rever mentalmente todo o caminho que me levara até ali – a infância, o Papa e a Mama, a crise econômica, a manifestação de que participei…

De repente notei que a minha visão começava a turvar, como se os meus olhos estivessem úmidos. Senti um líquido fino escorrendo pelo lado do rosto, mas não conseguia levantar uma das mãos para limpá-lo.

***

A operação transcorreu sem outros problemas, e foi considerada um sucesso do início ao fim. Poucos dias depois, com o auxílio de um soldado e um dos médicos que a realizara, eu ensaiava os primeiros passos em quase dez anos. Foram um tanto desajeitados, é claro, não apenas pela falta de prática, mas também porque minhas novas pernas não eram tão ágeis quanto as antigas; precisava fazer força desde os ombros para movê-las, e o resultado era um caminhar duro e rígido, como uma espécie de máquina. Podia mesmo sentir amortecedores e almofadas por baixo da pele, abafando o som que faziam as novas articulações, e o movimento de alguma espécie de fios metálicos subindo do abdômen pelo peito e o pescoço até quase sair pela boca. Não posso dizer que não estava um pouco decepcionado – uma parte de mim ainda nutria a esperança de que voltasse a ser exatamente como antes –, mas também não podia reclamar. Aquele andar desajeitado ainda era mais do que, poucos dias antes, eu imaginava que seria possível.

Assim que tive uma oportunidade, tentei me observar em um espelho de corpo inteiro, para ver se descobria o que havia sido feito. Muito parecia normal, pelo menos do lado de fora, salvo por grandes cicatrizes que apareciam desde o meu abdômen até os pés. Olhando com um pouco de atenção, reparei que partes das minhas pernas que antes tinham formas arredondadas, como a batata ou o joelho, agora pareciam mais angulosas, como se desenhadas com auxílio de uma régua. Da barriga até o pescoço, podia seguir o traçado de diversos tubos muito finos sob a pele. O que mais me intrigou, no entanto, foi um buraco no lugar onde antes era o meu umbigo, e que parecia servir de encaixe para alguma coisa.

Não tive muito tempo para pensar sobre isso, pois logo outra preocupação surgiu. A operação funcionara, e eu de fato voltara a andar; mas qual seria o preço? Não acreditava que tudo sairia de graça, que o ministro Goebbels apenas se apiedara de mim quando me viu no hospital e decidira fazer uma boa ação. A minha própria incredulidade até então me impedira de me preocupar com isso, mas, agora que havia terminado, não havia como evitar o pensamento.

Foram mais alguns dias, no entanto, antes que o ministro me chamasse em uma sala da base para explicar o que esperava de mim.

– Hans. – desta vez ele estava sentado atrás de uma mesa, e era eu quem ficava de pé à sua frente. – Vejo que está se recuperando bem da operação.

– Sim, senhor. Estão todos cuidando muito bem de mim.

– Fico feliz em ouvir isso. – ele se ajeitou na cadeira, esticando as costas e levando o torso para trás. – O país fez um grande bem para você, Hans. E agora é a sua vez de fazer um bem para o seu país.

– Estou pronto para fazer o que for preciso, senhor. – e realmente estava.

– Ótimo. – um sorriso se formou rapidamente no rosto do ministro. – Sabe, Hans, todo país precisa de heróis. Pessoas especiais, por quem os outros torçam e se preocupem, e assim esqueçam os seus próprios problemas por alguns momentos e apenas se orgulhem de terem nascido no país em que nasceram. – ele então se projetou novamente para frente, apoiando os cotovelos na mesa, e olhou fundo dentro dos meus olhos. – E você será um destes heróis, Hans.

O ministro não entrou em muitos outros detalhes, de forma que fiquei com estas palavras ecoando na minha cabeça durante o resto do dia. Foi só na manhã seguinte que comecei a entender o que significavam.

***

Meu primeiro dia de treinamentos não foi muito intenso. Apenas corri em um campo esportivo da base, enquanto os médicos que realizaram a operação – os meus “treinadores” – me observavam e faziam anotações. Acho que não me saí muito bem. Não pareciam estar muito animados com o meu desempenho, e eu mesmo percebia que corria de forma desajeitada, levando tempo demais entre uma ponta e outra da pista.

No segundo dia um grupo de soldados trouxe um pequeno galão sobre rodas. Antes de eu começar a correr, ligaram tubos dele até o buraco na minha barriga e bombearam algum tipo de líquido para dentro do meu corpo. Então me ajudaram a chegar até a linha de largada, enquanto os treinadores tomavam suas posições para me observar.

Os primeiros passos não tiveram grandes diferenças, e eu parecia tão desajeitado e vagaroso como antes. Logo, no entanto, comecei a sentir algo queimando dentro de mim, aumentando a energia e velocidade das minhas pernas. Elas quase se moviam sozinhas, sem a necessidade de qualquer esforço da minha parte. Cruzei a linha de chegada em pouco menos de quinze segundos, quase o tempo de um atleta profissional, quando comecei a parar e vi os treinadores sorrindo largamente enquanto corriam para me perguntar sobre como eu estava.

Fui levado dali para o vestiário, onde me deitaram sobre um dos bancos e disseram para descansar por algum tempo. Todo o meu corpo queimava, em especial o abdômen, que parecia ter entrado sozinho em combustão, e uma fumaça negra saía da minha boca junto com o ar da respiração. Deixaram-me esfriando por algumas horas antes de virem me buscar com uma maca e me levarem até a sala de operações, onde fui anestesiado novamente para os médicos/treinadores fazerem ajustes no meu corpo.

Segui a mesma rotina nas semanas seguintes: acordar, treinar, descansar, operar. Algumas vezes o ministro Goebbels aparecia para checar o trabalho e dizer algumas palavras de incentivo, mas geralmente éramos apenas eu, os treinadores e dois ou três soldados que faziam o trabalho pesado, carregando o galão de combustível e outros equipamentos. Aos poucos os ajustes feitos após os treinos começaram a surtir efeito, e o meu tempo foi diminuindo e chegando cada vez mais perto dos dez segundos para a pista de cem metros rasos. O momento de fazer a minha grande estreia estava se aproximando.

***

Entre a minha primeira competição e a transformação em herói nacional, pouco tempo se passou. Imagino que ver as minhas vitórias das arquibancadas de um estádio devia ser mesmo uma experiência e tanto: eu sempre começava devagar e desajeitado, como o amador que de fato era, parecendo que logo ficaria para trás e seria esquecido pelos outros competidores; após dez ou vinte metros, no entanto, na medida em que o motor em minha barriga começava a funcionar, eu ganhava cada vez mais velocidade, até que ultrapassava todos à minha frente e invariavelmente vencia a prova por uma larga vantagem, algumas vezes de quase um segundo de diferença para o segundo colocado. Era um pouco como o próprio povo alemão via a si mesmo, um país forçado a ficar para trás dos seus inimigos, mas que agora se recuperava e começava a sua corrida rumo à vitória. Posso entender porque vibravam tanto na hora das premiações.

Ajudava muito também, é claro, o fato de que eu tinha toda a imprensa do Partido Nacional-Socialista do meu lado. Eu estava sempre em evidência na maioria dos noticiários, principalmente após competições importantes; os jornais me chamavam de “Hans a jato”, “o alemão relâmpago” e outros apelidos impressionantes. Goebbels não poupava esforços para me promover, e tomava todos os cuidados para que o meu segredo não fosse descoberto. Oficialmente, eu era apenas um soldado descoberto como um talento do atletismo já no quartel; não me era permitido sair da base onde treinava, e nunca me viam chegar ou sair dos estádios; e só dava entrevistas para repórteres ligados diretamente à cúpula do governo, e mesmo assim seguindo uma ordem de perguntas e respostas previamente programadas e ensaiadas. Todo esse isolamento, no entanto, não impediu que histórias a meu respeito se espalhassem pelo país, e muitas pessoas diziam ter me visto pessoalmente e até conversado comigo ou pego o meu autógrafo.

Sei de muitos atletas que falam carinhosamente da sua relação com o público, dizendo como é ele a principal motivação para as suas conquistas, e que é ele também aquilo do qual mais sentem falta ao se aposentar. Eu nunca fui um destes. Na verdade, a minha visão do público era totalmente oposta – na medida em que conquistava vitórias, e as lembranças de medalhas recebidas em meio a aplausos e gritos se acumulavam, mais o meu desprezo por ele aumentava. Não sabiam metade do que eu havia passado para chegar até ali, não sabiam o que eu havia sofrido, o que eu havia perdido. Se precisavam vibrar com as conquistas dos outros para preencher as suas vidas vazias, não mereciam o meu respeito; só respeitava os que, como eu, desciam até a pista para competir, e colocavam-se sob o risco da derrota. Vencê-los era a minha única motivação, e me tornar o herói que Goebbels queria que eu fosse era apenas uma consequência.

***

Antes que eu me desse conta, mais de um ano de vitórias e conquistas já havia passado. Chegava a época da realização dos Jogos Olímpicos de Berlim, e Goebbels deixara claro no início daquele ano que era esta a verdadeira razão de tudo o que fizera por mim até ali: que participasse dos jogos e os vencesse, provando para o mundo a superioridade da raça alemã sobre as demais. Havia mesmo um filme sobre a minha vida, ou ao menos a minha vida oficial, sendo preparado. Já estava em fase de finalização do roteiro e escolha dos atores, e pretendiam lançá-lo assim que terminasse a competição.

Poucas semanas antes da primeira prova, no entanto, durante um dos treinamentos, eu passei mal no meio de uma corrida e caí no chão, desacordado. Os treinadores e soldados presentes correram para me ajudar e me carregaram até o vestiário. De lá fui levado rapidamente até a sala de operações, onde fui examinado de todas as formas possíveis que não prejudicassem a minha participação nos jogos. Aparentemente os órgãos internos estavam começando a sofrer os efeitos do calor gerado pelo funcionamento do motor dentro do meu corpo, e muitos deles já mostravam sinais de mau funcionamento. O próprio maquinário que me fazia correr já mostrava alguns sinais de desgaste, aumentando o meu tempo final nas corridas, e apresentando uma certa dificuldade de resfriamento ao fim do uso. É possível que não durassem muito mais tempo.

Goebbels ficou furioso quando soube da notícia. Esbravejava para os treinadores na sala ao lado do vestiário, falando alto o bastante para que eu pudesse ouvir. Estavam perto demais de atingir o seu objetivo, dizia; não podiam falhar agora. Ordenou que fizessem todo o necessário para que eu corresse – e vencesse – as provas, custasse o que custasse. Pouco importava como eu estaria ao fim da competição: o importante era a vitória, e nada mais.

Meu ritmo de treinamentos diminuiu nos dias seguintes, e eu era sempre acompanhado de perto por um dos treinadores, pronto a qualquer momento para fazer exames e cuidar da manutenção do meu corpo. Apesar disso, eu piorava a cada dia. Acessos de tosse já eram comuns, e não poucas vezes eu chegava a expelir um pouco de sangue escuro quando ocorriam. Apenas com muito esforço e dedicação foi possível chegar ao primeiro dia de provas com disposição e vitalidade para correr.

***

O estádio estava cheio, e o público gritava e vibrava com toda a energia de que dispunha. Eu o olhava com algum desprezo antes da corrida começar, mas, nesta vez em especial, também com um pouco de medo. Não tinha certeza sobre o que aconteceria a partir dali, se eu iria aguentar a corrida até o final, ou, mesmo que aguentasse, se seria capaz de vencê-la. E não havia como saber de que forma os torcedores reagiriam quando vissem o seu grande herói sofrer a primeira derrota, justamente na sua mais importante competição. No fim, no entanto, a primeira rodada transcorreu sem grandes problemas. Venci sem dificuldade, da mesma forma que vencera todas as minhas corridas até ali. Após a prova fui levado às pressas até uma sala especial no vestiário, onde os treinadores me examinaram e me ajudaram a esfriar o corpo com panos úmidos.

As dificuldades começaram a aparecer nas quartas-de-final. Também venci a minha prova, mas percebi que um dos adversários, um norte-americano de pele escura, chegara muito perto de me alcançar durante os metros finais. Ao fim da corrida, enquanto esfriava na sala separada do vestiário, não conseguia pensar em outra coisa. Ele chegara perto demais, mais do que qualquer outro que eu tenha enfrentado antes.

Veio o dia seguinte, e com ele as semifinais. Logo na largada percebi que enfrentaria o norte-americano novamente. Desta vez, no entanto, estava determinado a não deixá-lo se aproximar. Forcei as minhas pernas ao máximo, tentando fazer o motor entrar em funcionamento logo que começasse a correr, e mesmo depois seguia forçando-as para ganhar ainda mais velocidade. Estava já quase na linha de chegada, apenas a alguns passos de cruzá-la, quando reparei em um vulto negro ao meu lado, que pouco depois me ultrapassou e a cruzou antes de mim.

O silêncio rapidamente se espalhou de um lado ao outro do estádio. Tinha certeza de que seria capaz de ouvir um alfinete caindo no chão do lado de fora se forçasse a audição o suficiente; mas toda a minha atenção estava voltada para o norte-americano à frente, que cruzara a chegada poucos milésimos de segundo antes de mim.

Eu havia perdido.

***

Estava ainda com o corpo esfriando e assimilando a derrota quando Goebbels irrompeu no vestiário, batendo a porta atrás de si. Tinha o rosto avermelhado e respirava pesadamente. Seus olhos pareceram entrar em combustão quando me viram. Ele puxou uma cadeira e sentou-se ao meu lado, cruzou a perna esquerda sobre a direita, depois as inverteu, e por fim cruzou os braços em frente ao peito.

– Então, Hans. Diga-me o que aconteceu.

– Eu… Eu perdi, senhor. – eu olhava para o teto, tentando evitar os olhos do ministro.

– Eu percebi. E como você explica isso?

– Ele… Eu… Ele foi mais rápido do que eu, senhor.

Goebbels fechou os olhos, voltou o rosto para o chão e suspirou profundamente. Então os abriu e virou-os novamente na minha direção.

– Olhe para mim, Hans. – eu obedeci. – Você ainda tem uma chance. Apenas uma. Como segundo colocado na última prova, está classificado para a final. Não perca esta corrida, entendeu?

Não consegui responder. O ministro apenas se levantou e saiu da sala, deixando-me só com meus pensamentos. Estes ainda eram dominados pelo norte-americano: tentava compreender o que havia acontecido, e como ele havia me vencido. Duas explicações me ocorriam – ou era o meu corpo dando sinais de desgaste, ou então era ele que…

Tive o raciocínio interrompido pela chegada dos treinadores, que me ajudaram a terminar de esfriar e me preparar para a corrida final. Fizeram alguns exames rápidos, e deram-me o diagnóstico que eu já esperava: havia forçado demais o corpo na prova anterior, e as partes mecânicas dentro dele estavam a ponto de pararem de funcionar. Deveria me conter ao máximo na próxima disputa, forçando-o apenas o necessário para vencer, ou teria consequências graves. Ouvi tudo isso em silêncio enquanto era ajudado a me levantar e me preparava para sair em direção à pista.

Antes de terminar, no entanto, a porta se abriu sozinha e trouxe o ministro Goebbels de volta. Ele deu apenas alguns passos para dentro da sala antes de se virar para mim e começar a falar.

– Hans. Espero que não tenha esquecido a conversa que tivemos há pouco.

– Não esqueci, senhor.

– Ótimo. Há alguém aqui que gostaria de vê-lo.

O ministro deu um passo para o lado, abrindo espaço para uma figura atrás dele entrar no meu campo de visão. Seu tamanho pequeno, o quepe alto e o bigode quadrangular abaixo do nariz lhe davam uma aparência um tanto cômica, que era apenas parcialmente compensada pela aura de autoridade que emanava do uniforme militar. Assim que entrou na sala, todos se postaram em posição de sentido e estenderam o braço direito em saudação. Apenas eu permaneci parado, um pouco sem saber como reagir, o que gerou um clima pesado que se sustentou por alguns segundos, até que um pequeno pigarro de Goebbels nos libertou a todos do transe.

– Ah, o famoso Hans a jato. – o Führer se esforçou para abrir um sorriso. – Fico feliz em afinal conhecê-lo pessoalmente.

– Digo o mesmo a respeito do senhor, mein Führer. – demorei um pouco para responder, mas tentei retomar a formalidade para me recuperar da impressão anterior.

– Vim aqui apenas para lembrá-lo da importância que a próxima corrida tem para o povo alemão, e desejá-lo uma grande vitória. – ele se aproximou e tocou-me no ombro direito. – Tenho certeza que a última prova foi apenas um tropeço. Você se sairá muito bem na final.

– Obrigado, mein Führer. Espero não decepcioná-lo.

– Eu também.

O Führer e Goebbels então saíram da sala, deixando-me a sós novamente com os treinadores. Terminei de me preparar, reabasteci-me de combustível e saí em direção à pista.

O norte-americano estava posicionado na raia ao meu lado. Olhei para ele por alguns instantes antes de a corrida começar, tentando pegar alguma pista que revelasse o seu segredo. Ele estava sério e compenetrado, olhando em frente, e provavelmente nem percebeu que eu o observava. Seu corpo era arredondado e aerodinâmico. Tentei olhá-lo com mais atenção, e por um instante quase jurei ter visto uma pequena baforada escura saindo das suas narinas; mas então veio o sinal para que nos preparássemos e eu voltei a encarar a pista.

Um tiro para o alto anunciou o começo da prova. Os primeiros metros transcorreram exatamente como todas as minhas corridas até ali: eu era lerdo e desajeitado, e começava a ficar para trás em relação aos outros participantes. Logo, no entanto, o motor em minha barriga começou a funcionar, gerando um calor intenso na região do abdômen, e fazendo as minhas pernas se moverem mais rápido. Um a um, no espaço de poucos segundos, eu ultrapassei todos os outros corredores.

O último foi o norte-americano. Passava já dos setenta metros quando percebi o seu vulto negro ao meu lado, e logo em seguida ficando para trás. Apenas vinte metros me separavam da vitória agora; sorri e forcei o meu corpo ainda mais para completá-los, decidido a não deixá-la escapar outra vez.

De repente ouvi um estalo vindo do chão, e senti a perna esquerda amolecendo. Olhei para baixo e vi um cabo metálico rompido se soltando e se projetando para fora, rasgando a minha pele no processo. Me desequilibrei e caí no chão, rolando algumas vezes antes de parar fora da área de competição. O calor no meu abdômen se intensificou, e eu podia sentir os meus órgãos internos queimando. Vomitei sangue e bile fervente sobre a pista.

A última imagem que de que me lembro antes de apagar por completo foi a do norte-americano cruzando a linha de chegada na minha frente.


Sob um céu de blues...

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