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Wizard of the Crow, de Ngũgĩ wa Thiong’o (2)

Houve um tempo em que a escravidão era boa. Ela fez o seu trabalho, e quando terminou de criar capital, definhou e morreu uma morte natural. O colonialismo foi bom. Ele espalhou a cultura industrial e compartilhou recursos e mercados. Mas reviver o colonialismo hoje seria um erro. Houve um tempo em que a Guerra Fria ditava cada cálculo nas relações internas e internacionais. Isso acabou. Nós estamos na era pós-Guerra Fria, e nossos cálculos são guiados pelas leis e necessidades da globalização. A história do capital pode ser resumida em uma frase: em busca da liberdade. Liberdade para se expandir, e agora ele tem a chance de ter todo o planeta como o seu teatro. Ele necessita de espaço democrático para se mover pelas suas próprias demandas e lógicas. Então eu fui enviado para instá-lo a transformar o seu país em uma democracia.

Às vezes a literatura é capaz de sintetizar aquilo que a História leva livros e livros pra explicar. Que resumo do imperialismo.

Cowboys do Asfalto

cowboysAcho que um dos temas mais recorrentes aqui no blog é a música. Falo muito de jazz, blues e rock, minhas paixões; mas acabo falando bastante também de músicas mais populares, como o sertanejo ou o funk. Tendo a ver elas sob uma perspectiva histórica, de média ou longa duração – para um historiador, é realmente difícil não comparar todo o preconceito que se vê com respeito a elas ao preconceito que outros estilos também sofreram, desde o rock ou jazz recentemente, até a polka ou a valsa em séculos já mais passados. Acho que o meu texto mais visitado na história do blog inclusive é sobre isso, um dos primeiros que publiquei aqui no wordpress também, e acabo voltando ao tema com muita frequência.

Mais do que observações empíricas, no entanto, é bom ter um referencial mais técnico para falar a respeito. E foi isso que ganhei com Cowboys do Asfalto – Música sertaneja e modernização brasileira, tese de doutorado do historiador carioca Gustavo Alonso recentemente publicado como livro.

Fundamentalmente, o livro corrobora muitas das teses que eu já defendia aqui, como a de que o preconceito musical muitas vezes é apenas o que está na superfície de um preconceito muito mais profundo, com origem no embate de classes e na oposição entre cultura erudita/de elite e a cultura popular. No caso da música sertaneja, no entanto, esse embate raramente esteve muito dissimulado, por ela ser muito identificada praticamente desde o seu início com um fenômeno social bem específico (o êxodo rural), e também pela sua identificação posterior com um determinado período político da história brasileira (a era Collor). O preconceito com o sertanejo tem muito a ver com o preconceito que existe entre a população do litoral – em especial do litoral sudeste, a terra do samba e da MPB – com as populações do interior, oposição que vem praticamente desde a colonização portuguesa original, o que fica muito evidente quando o autor nota que boa parte dos artistas clássicos do gênero eram migrantes, saídos do interior do Paraná, de São Paulo e de Goiás para a cidade grande.

Isso tudo é sintetizado na tese que o livro apresenta já na sua introdução, que acredito ser bastante acertada: a de que o povo brasileiro, embora tenha tido tendências políticas conservadoras durante a maior parte da sua História, foi na verdade bastante progressista no campo cultural – exatamente ao contrário das classes mais intelectualizadas, tanto as de esquerda como as de direita. O livro também me enriqueceu bastante ao me tornar ciente de diversos debates que eu jamais imaginaria existir dentro do gênero, como aquele que opunha a música caipira (essencialmente saudosa e nostálgica do campo) e a sertaneja (do camponês já urbanizado, vivendo na cidade grande), que parece ter sido resolvido nas gerações mais recentes; bem como na própria origem dos ritmos sertanejos, que trazem influências estrangeiras de países periféricos como o México e o Paraguai, o que contribuiu para as décadas de preconceito sobre ele.

Há algumas críticas pontuais a serem feitas. O estilo do texto é meio exagerado, com muitos clichês e frases feitas, e às vezes carece de uma estrutura mais cadenciada, alternando longas narrativas biográficas com contextualizações de períodos políticos e eventuais debates analíticos. Na verdade, achei que ele poderia se focar mais na última parte, e talvez reduzir o papel das biografias dos artistas, que realmente ocupam um espaço demasiado. O que senti falta realmente foi de uma análise mais social, e menos política, da música sertaneja como fenômeno. Há pouco espaço dado a como se formou e desenvolveu o público destes artistas, por exemplo; apenas no capítulo final, debatendo a emergência do sertanejo universitário, o papel do público é problematizado. Fiquei imaginando como seria uma linha de análise que relacionasse o fato dos artistas sertanejos serem em sua maioria migrantes com o seu público ser formado muitas vezes também por migrantes, ou por filhos de famílias migrantes.

Também achei que o autor muitas vezes foi conivente com as escolhas políticas dos artistas em muitos momentos da História do país. Talvez possa se ver nisso uma ênfase, louvável, em compreender, ao invés de julgar, o seu papel na sociedade nestes períodos; no entanto, algumas vezes parece que há realmente uma esquiva de adotar uma postura mais crítica, como se escolhesse poupar os artistas de encarar o que estava acontecendo então.

Em todo caso, é um livro muito instigante e enriquecedor, fruto de uma pesquisa profunda cruzando fontes bastante diversas, de artigos de jornais a entrevistas diretas com os artistas. Recomendo para qualquer um que queira entender a música sertaneja como fenômeno social, bem como tentar rever alguns preconceitos bastante comuns ainda nos dias de hoje.

A Tristeza da História

Paulo-Freire-protestoEssa semana parece que todo mundo quer falar de política. Tanto se falou, comentou, questionou, impugnou, que não acho realmente que eu tenha algo a acrescentar, e nem vou tentar. Meu comentário é sobre um tema bem mais pessoal, que toca só tangencialmente tudo o que tem acontecido ultimamente no país.

Para quem não sabe, sou formado em História, e atuo como professor em uma escola municipal. Há treze anos que me embrenho em aprender o ofício com Hobsbawn, Marc Bloch, Ciro Flamarion Cardoso, tantos outros por aí. Há treze anos que estudo a trajetória da humanidade ao longo do tempo, desde lá a pré-História até o que quer que tenha sido notícia ontem. Claro, não tenho como saber toda a História, e há assuntos entre tantos do qual sei mais ou menos a respeito. Mas tenho um diploma de especialização justamente sobre a História do Brasil contemporâneo, então alguma coisa sobre o nosso próprio país eu tenho que saber. Ou acho que tenho.

Mesmo assim, isso nunca é o suficiente quando se entra em uma discussão justamente sobre a História do país. De repente um achismo, ou vivência pessoal, ou qualquer que seja a opinião daquele colunista lá do jornal totalmente isento e sem agenda política nenhuma, ai de quem duvidar da sua imparcialidade jornalística, vale muito mais do que qualquer opinião que eu possa ter a partir daquilo que estudei, pois, obviamente, independente de qualquer dado ou embasamento histórico, se eu discordo dele eu só posso estar me deixando levar pela minha “ideologia pessoal.”

Longe de mim querer dar um carteiraço, é claro, dizer que o meu diploma me torna a autoridade suprema do assunto ou qualquer coisa assim. Mas, sabe, não seria ruim receber um pouco de crédito por aquilo que eu passei os últimos treze anos estudando.

É tão hipócrita esse clichê argumentativo de acusar a ideologia como fonte de todos os males intelectuais. Primeiro por assumir que se pode ser livre de ideologia. Segundo por achar que a própria ideologia é um ente estranho, alienígena, alheio a tudo e a todos, e que ela também não é construída socialmente e historicamente a partir de experiências, vivências e reflexões.

Eu sei de onde vem a minha ideologia. Fui criado em um berço de direita, longe de ser esplêndido, é bem verdade, mas que hoje sei reconhecer ter tido uma quantidade razoável de privilégios. Até entrar na faculdade, sei que certamente tinha um pensamento mais inclinado para o que se costuma classificar como direita política. A faculdade me levou mais ao centro, por me ensinar auto-crítica e a tentar olhar as coisas pelos olhos dos outros, a de fato respeitar, analisar e entender suas posições. (Sou grato às aulas de antropologia por isso. Sou da opinião de que ensinar antropologia nas escolas tornaria o mundo um lugar muito mais estimulante intelectualmente. Ninguém pode ser um ser humano completo sem ter tido pelo menos um semestre de introdução à antropologia).

O que me fez sair do armário e me levou realmente à esquerda do espectro ideológico foi a especialização. Mais especificamente, estudar o que aconteceu exatamente no país em 1964. É difícil manter a fé na imprensa, na sociedade civil, na própria classe média, quando se vê os pormenores daquele período, a discrepância entre o que existia de fato e o que era relatado nos jornais, o tipo de paranóia e histeria que eles incitavam na população. E é realmente um pouco assustador ver a quantidade de paralelos possíveis entre o que acontecia então e os dias de hoje. (Mas não, não vou acreditar que o desfecho vá ser necessariamente o mesmo – não acredito que a História sempre se repita, ou, pelo menos, não necessariamente; os momentos são outros, os atores também, as experiências se acumulam, e, até as coisas de fato acontecerem, sempre podemos ter o benefício da dúvida).

Talvez seja justamente por saber reconhecer a origem da minha ideologia que eu consiga ver a contradição que é achar ser possível não ter ideologia, que você pode simplesmente analisar quaisquer que sejam os fatos friamente, sem recorrer a experiências anteriores e idéias pré-concebidas, e então formar a sua opinião isenta sobre eles. Isso não existe. Ideologia não é juízo de valor, é simplesmente o seu modo de pensar. Não é ideologia só quando é esquerda. A direita também tem ideologias. O centro também. Até rejeitar as ideologias é uma ideologia, e vai influenciar o seu pensamento e a sua avaliação do mundo da mesma forma, nem que seja apenas por fazê-lo se esforçar em não seguir as outras ideologias e ficar sempre em cima do muro (uma armadilha teórica em que já caí diversas vezes em discussões, pra ser sincero).

Como você pode apontar um dedo acusador para o professor de História, acusando-o de ser ideológico, e então falar de repente na gloriosa Revolução de 1964? Apenas por chamá-la de revolução você já está sendo ideológico. Toda revolução política é um golpe em algum nível, e a escolha do termo é apenas um retrato da sua ideologia.

Ou ainda, tirando um exemplo direto da última manifestação: uma faixa que exigia o fim da “doutrinação marxista,” com o abandono de Paulo Freire nas escolas. Freire, para quem não sabe, é um pedagogo reconhecido internacionalmente, respeitado em todo o mundo. Possivelmente seja o intelectual brasileiro mais lido fora do Brasil. Nos Estados Unidos e na Europa há universidades que dedicam andares inteiros das suas bibliotecas apenas à sua obra. A própria ONU e a UNICEF, ao verem a foto da faixa, correram para defendê-lo, compartilhando citações em suas contas de twitter e facebook. Mas ele também é um pensador assumidamente de esquerda, e, o pior dos crimes, ligado diretamente ao PT, tendo sido secretário municipal de educação do governo da Luiza Erundina em São Paulo. Analisando friamente, é um pensador renomado que serve aos educadores dos Estados Unidos e da Europa. Mas aparentemente não serve para os do Brasil. Como não há ideologia aí?

Poderia dar mais exemplos. Poderia falar de um movimento que se diz apartidário, mas que critica e ataca um único partido, e tem muitos de seus membros vestindo camisas de apoio ao último candidato de oposição a ele. Um movimento anti-corrupção que isenta um partido como o PP – o que teve mais nomes citados para investigação no atual escândalo de corrupção dos jornais – de bandeiras e xingamentos. Onde estão as camisas mandando Luís Carlos Heinze – que não é um qualquer irrelevante, foi o deputado mais votado do Rio Grande do Sul nas últimas eleições – tomar no seu orifício anal?

Mas o ponto não é esse. O ponto é: ideológicos sempre são os outros. Eu sou isento. Eu sou imparcial. Por que só os historiadores, só os professores de História e outras ciências humanas, têm esse ônus?

Minha suposição é que os cientistas humanos são os únicos que são realmente humildes quanto a isso. A idéia de que a História deve “contar os fatos como eles realmente aconteceram,” como já vi gente falando por aí, é ridiculamente ultrapassada – qualquer estudante de Teoria da História I sabe associar essa citação a Leopold von Ranke, historiador alemão do século XIX, e ele próprio nem era tão isento assim, sendo ligado ao conservadorismo prussiano da época. Quando nos afastamos desse preceito nos dois séculos seguintes, não estávamos querendo manipular as massas ignorantes com a nossa malvada ideologia marxista-leninista-trotkista-satânica-ateia; apenas aprendemos a assumir que talvez não seja tão fácil assim sequer conhecer os fatos como eles realmente aconteceram, e o que podemos fazer, se tanto, é tirar algumas conclusões a partir dos indícios e vestígios que temos.

Esse tipo de honestidade, no entanto, não costuma ser bem visto por quem quer certezas absolutas. Um jornalista que comece a sua manchete bombástica com um “eu acho que…” dificilmente seria levado a sério. Um economista, então, seria execrado – há textos ótimos por aí sobre como certos economistas fazem para manter o prestígio mesmo quando todas as suas tentativas de previsões se mostram erradas muito mais freqüentemente do que certas, e eu mesmo já resenhei um livro ótimo que questiona muitos dos pressupostos sobre os quais a ciência econômica contemporânea foi estabelecida.

Então quando derrubam a obrigatoriedade do diploma para o jornalismo, o mundo vira de ponta cabeça; será o apocalipse da informação, as pessoas não saberão mais em quem acreditar. Mas quando um jornalista sem qualquer formação acadêmica, sem nenhum conhecimento teórico ou metodológico, escreve um livro de História, todos passam a tratá-lo como autoridade. Pelo menos ele é imparcial, já que é jornalista; não é como os historiadores que passaram vinte anos estudando e fazendo especializações e mestrados e doutorados, eles são todos cheios de ideologia.

Me pergunto como seria se historiadores formados recebessem o mesmo tipo de autoridade pública que outras classes de intelectuais recebem. Se estudar História de verdade foi o que me fez virar à esquerda ideologicamente, como seria com outras pessoas? É claro, conheço muitos historiadores respeitados com pensamentos de direita ou de outros espectros intermediários da ideologia, então isso não é nenhuma garantia. Mas quando tantos intelectuais da área têm idéias tão bem alinhadas, é difícil não se pegar imaginando se esses “fatos como eles realmente aconteceram” são realmente tão contraditórios com o pensamento que eles pregam.

No fim, acaba que a própria História se torna diminuída como disciplina. Outro dia estava vendo uma entrevista com um técnico de futebol em um canal esportivo, e um dos jornalistas perguntava, “excluindo-se o aspecto histórico, pode-se dizer hoje que o clube X é um time grande?” Como se uma classificação tão subjetiva pudesse prescindir de História. Como se fosse a História que poluísse de ideologia a análise fria e objetiva que se pode fazer sem ela do tamanho de um clube. E se em um tema tão periférico como o futebol isso já acontece, que dirá dos “grandes temas.”

De repente todos os viúvos da ditadura começam a fazer muito mais sentido.

As Origens do Estado Moderno

Estado modernoExistem estudos controversos sobre qual seria a origem do estado nacional moderno. Atribui-se, normalmente, à Idade Média os conflitos entre classes e instituições que levaram-no a desenvolver-se desta forma, mas muitas de suas características já são resgatadas desde os tempos antigos. E é possível, ainda, buscar vestígios de sua origem em um período ainda anterior, em que começava a se formar o embrião daquilo que veríamos eras mais tarde.

Tudo começou com o Big Bang. Foi após este evento, bilhões de anos no passado, que todo o Universo se desenvolveu da forma como o conhecemos, e, portanto, parece-me lógico deduzir que esteja nele também a origem das estruturas que hoje regem a nossa sociedade. É bem verdade que os relatos e vestígios que temos desta época são escassos e pouco conclusivos, mas, através de estudos como os de Albert Einstein, Edwin Hubble, Georges Lemaître, e outros, é possível obter algumas informações intrigantes avaliando aquilo de que dispomos.

Sabemos que, no início, houve um longo processo de acumulação primitiva de gases e átomos, que se estendeu durante milhares de anos. Foi esta acumulação inicial que gerou grande riqueza em uma determinada área do Universo, se tornando esta o centro que, pela lógica da economia-cosmo, irradiaria a cultura e a produção de bens para as periferias universais.

Neste momento já podemos perceber, também, os indícios da divisão universal do trabalho, através das diferenças de funções entre os átomos, com seus núcleos de carga positiva rodeados por elétrons de carga negativa que circulavam em sua periferia. Essa centralização do poder em torno de um pequeno núcleo de prótons e nêutrons é o primeiro indício daquilo que mais tarde viríamos a chamar de estado nacional moderno.

Outra característica moderna que não pode ser ignorada já nestes tempos é a forte tributação, uma vez que muitos átomos eram obrigados a ceder elétrons para seus semelhantes, através do sistema conhecido como “camadas de valência”, dando origem à estrutura molecular que regeria o universo nos tempos seguintes. Possivelmente não tenha sido uma tributação legitimamente unificada, uma vez que não temos vestígios nem registros concretos sobre qualquer tipo de fiscalização a que eram submetidos, mas, segundo discorrido nos trabalhos de Ernest Rutherford sobre estas relações nos tempos modernos, podemos concluir que ela teve vital importância para a definição das classes elementares nestes tempos primordiais.

Esta grande acumulação inicial de átomos, no entanto, gerou problemas estruturais graves na organização do cosmos. O poder nuclear da época aparentemente não foi capaz de manter coesas todas as estruturas de dominação, gerando uma crise social sem precedentes. E foi esta crise que acabou por causar o colapso estrutural deste proto-estado moderno, no evento hoje conhecido de Big Bang.

Desta forma, podemos concluir que, ainda que o Estado Moderno como conhecemos só tenha adquirido sua forma definitiva a partir dos séculos XV e XVI, algumas de suas estruturas fundamentais já estavam presentes em eventos milhares de anos no passado, em uma época pouco abordada em trabalhos históricos. Cabe às novas gerações, portanto, preencher esta lacuna na historiografia contemporânea, realizando estudos melhor aprofundados sobre este período ancestral da existência.

Nihongi

nihongi[1 d.C.] 30º ano, primavera, 1º mês, 6º dia. O Imperador chamou Inishiki no Mikoto e Oho-tarashi-hiko no Mikoto, dizendo: “Cada um de vocês diga alguma coisa que gostaria de ter.” O Príncipe mais velho disse: “Eu gostaria de ter um arco e flechas.” O Príncipe mais novo disse: “Eu gostaria de ter a Distinção Imperial.” Então o Imperador mandou, dizendo: “Que o desejo de cada um de vocês seja concedido.” Então um arco e flechas foi dado a Inishiki no Mikoto, e um decreto foi endereçado a Oho-tarashi-hiko no Mikoto, dizendo: “Você será o sucessor da Nossa Distinção.”

(Nihongi, também chamado Nihon Shoki, “Crônicas do Japão,” é o segundo livro mais antigo da literatura japonesa, que conta a história do país desde a criação do mundo até aproximadamente o começo do século VIII d. C. O trecho teria acontecido durante o reinado do 11º Imperador do Japão, Suinin).

Eu… Nem sei o que comentar.

Trechos

Trechos de coisas aleatórias que eu tenho feito, mas não tenho conseguido me empolgar pra terminar/publicar. Às vezes pondo aqui e tendo algum feedback (hahah) eu me animo, vai saber.

1.

Em um manto de pura escuridão
Vem a mim
A dama da morte.

 Kaneda Shimaru tossiu e levou a mão à boca para proteger o caderno de haiku. Estava ajoelhado, vestindo um quimono simples. Olhou por um instante para a própria mão e a limpou com um pano de seda, então o dobrou com cuidado e colocou o tecido branco coberto de manchas vermelhas sobre o chão. Uma contração na orelha esquerda, arredondada na base e pontuda como uma folha, o fez levantar o olhar instantes antes de a porta de entrada para o quarto se abrir.

Samurai!

A voz pertencia a uma moça jovem de rosto delicado e olhar suplicante. Cobria o corpo com um vestido fino de tecidos escuros. Ao perceber o olhar do elfo, tocou no par de tiras que o prendiam nos ombros, soltando-as e deixando-o cair sobre o chão.

Kaneda se levantou. A moça se aproximou devagar, deixando o vestido para trás, como se convidasse o samurai a observar o seu corpo se mover ao caminhar. Próxima o bastante, virou o rosto para cima e o encarou em um pedido sem palavras, os lábios tremendo em antecipação.

Um corte na respiração e os olhos arregalados revelaram o espanto. Kaneda havia atravessado o seu ventre com a espada, deixando o sangue respingar sobre o chão. Um movimento para retirá-la e o corpo inerte da jovem desabava em um baque surdo.

Quase ao mesmo tempo uma porta lateral se abriu, revelando uma elfa de cabelos púrpuras em uma armadura delicada segurando uma jovem pelo rosto e cobrindo a sua boca com a mão. Ao lado, outro samurai em armadura completa também observava o ocorrido.

– O quê…? – disse a jovem assim que a boca foi descoberta.

Kunoichi. – respondeu Kaneda. – Um beijo dela arderia com algo mais do que paixão.

Olhou para a espada e viu o sangue escuro borbulhando como ácido. No chão, a pele da jovem começava a derreter, revelando o desenho intrincado de veias e artérias.

– Vamos. Temos que sair daqui.

O elfo limpou a espada com um movimento, e os quatro seguiram em silêncio pelo corredor e para fora da estalagem. Buscaram seus cavalos no estábulo e então partiram na escuridão da noite.

2.

Auuuuuuuuuuuuuuuuuuuu! – um uivo distante ecoava pela noite, atravessando becos e ruelas estreitas. A ele se juntava o som de pés correndo sobre poças d’água – tap, tap, tap -, enquanto uma jovem surgia da escuridão, dobrava uma esquina e seguia adiante em velocidade. Um par de seios volumosos balançava a cada passada, pouco ocultos sob a camisa branca molhada pela chuva; no rosto, a pele escura se contorcia para manter a boca aberta, ofegante, e os olhos arregalados.

Atrás dela vinha um grande morcego, os olhos vermelhos brilhando na escuridão, voando um par de metros acima do chão. A moça corria, mas ele era mais rápido: logo já estava sobre ela, a apenas uma batida de asas de tocá-la com suas presas. Ao se virar e vê-lo tão próximo, a jovem se desequilibrou e caiu sentada no chão.

O morcego diminuiu a velocidade e se aproximou, se deixando envolver por uma névoa púrpura. Por trás dela era possível ver a sua sombra mudando de forma, as patas se alongando, as asas afinando; quando a névoa se dissipou não era um morcego que revelava, mas um homem alto e magro, com o porte de um nobre, envolto por uma capa negra com gola alta. Seu rosto era redondo e pálido, coberto de rugas e outras marcas da idade, com olhos vermelhos brilhantes e um sorriso largo que deixava a mostra um par de caninos longos e afiados.

Caminhou vagarosamente até a moça, como que saboreando cada segundo, deixando seus passos ressoarem pela rua. Ela tremia e o fitava com pavor; ele salivava enquanto respirava, sentindo o aroma do medo. Quando chegou perto o bastante, esticou o braço para agarrá-la, ao mesmo tempo em que abria a boca e posicionava o rosto para aproximá-lo do pescoço. Já podia quase sentir a textura da sua pele, os dedos escorregando no suor, quando foi subitamente atingido por um spray de gás amarelado.

O vampiro recuou e levou as mãos aos olhos, que ardiam e lacrimejavam. A jovem se levantou, largando a lata do spray no chão, e acertou um chute entre as pernas, fazendo-o se encolher; em seguida, se colocou em posição de defesa, os punhos erguidos em frente ao peito, então o agarrou pelo braço e o torceu para trás, forçando-o contra as costas.

– Quem é que tá com medo agora, hein? Seu velho tarado! Filho da p… – o vampiro não terminou de ouvir, pois já se deixava cobrir novamente pela névoa púrpura e voltava à forma de morcego, se libertando da captora e voando em direção ao luar.

Seguiu em uma trajetória irregular, ainda atordoado pelo efeito do gás, se batendo entre telhados e paredes altas, sobrevoando a cidade até uma velha mansão na beira de um penhasco. Entrou por uma janela aberta no andar mais alto, percorreu corredores parcamente iluminados por velas em candelabros, desceu um par de escadarias até os andares mais baixos, e enfim chegou a um grande salão, onde se converteu novamente em homem e se deixou cair sobre uma poltrona estofada.

3.

Podemos incluir a ficção científica, ou FC, em uma visão semelhante, embora voltada para o tempo oposto – o futuro. Grosso modo, podemos dizer que ela expressa o imaginário científico de uma determinada época. É possível buscar suas raízes desde o gênero das histórias gregas das “ilhas bem-aventuradas”, passando por obras renascentistas de cunho social, que poderiam ser interpretadas, de certa forma, como exercícios de ficção científica social, muitas vezes consideradas como obras de “proto-FC.” É a partir do século XIX, no entanto, especialmente com nomes como Júlio Verne e H. G. Wells que a ficção científica passa a tomar suas formas mais contemporâneas, tendo como característica principal “uma extrapolação dos efeitos humanos de uma ciência extrapolada (…).”

Nesta visão extrapolada da ciência, predominou durante algum tempo uma espécie de otimismo positivista no progresso do conhecimento. Tal otimismo, é claro, está relacionado ao próprio contexto do período, o chamado “século da ciência,” onde havia de fato uma crença em uma evolução contínua da humanidade e da tecnologia. Mesmo autores que possuíam visões menos brilhantes, como o britânico H. G. Wells, aquiesciam de certa forma a estes paradigmas, e mesmo que obras como A Máquina do Tempo apresentassem prognósticos bastante sombrios para o futuro último da humanidade, em última instância havia, ainda, uma crença subjacente na própria ciência e na tecnologia.

Isso passou a mudar, no entanto, a partir das décadas de 30 e 40 do século XX, quando passou a predominar na FC ocidental uma visão pessimista e apocalíptica do progresso científico. Sobre esta mudança de comportamento, destacou Muniz Sodré:

A I Guerra Mundial veio a marcar uma nova etapa da história da catástrofe humana: a partir daí, a capacidade técnica, que implica na capacidade de desgastar o inimigo, predomina sobre o engenho estratégico dos generais. A mais-valia operária canaliza-se para a empresa da morte. A indústria, as fábricas, passam à vanguarda das batalhas. Os cientistas aplicam em experiências com gases, petardos e bactérias mortais. A II Grande Guerra confirma a tendência: guerra, técnica e capital são agora a mesma coisa. Na fronteira polonesa, em 39, a carga quixotesca de cavaleiros armados de sabres e fuzis contra os blindados de Hitler oferece uma imagem do choque de dois tempos (…)
Por sua vez, o progresso técnico (e o progresso científico) associa-se estreitamente à empresa da guerra, já que o Estado tecnicamente mais forte é o mais poderoso no campo das armas.

A partir de então, passa a proliferar, na FC, visões distópicas sobre o futuro, especialmente no ocidente capitalista. É o uso da ciência na guerra que causa essa mudança no imaginário científico, tornando comum temas como o cataclisma nuclear e as mutações em seres vivos geradas por radiação.

4.

O mesmo golpe. Dizem que um golpe não funciona duas vezes contra o mesmo cavaleiro. A partir do 2º nível, toda vez que for atacado com um talento, habilidade de classe, habilidade especial ou magia com que já foi atacado antes pelo mesmo oponente, o cavaleiro recebe um bônus de +1 na CA e +2 em quaisquer testes de resistência necessários.

Esse bônus aumenta para +2/+4 no 10º nível, e +3/+6 no 18º nível.

Debt – The First 5,000 Years

debtBueno, por onde começar a falar de Debt – The First 5,000 Years? Comprei o livro por impulso já faz mais de um ano, mas foi só agora no fim de 2013 que comecei a ler. E cara, eu deveria ter feito isso muito antes. Escrito por David Graeber – um dos que se assumiu como “ideólogos” dos movimentos Occupy que varreram o mundo recentemente -, é um daqueles livros que, já no segundo capítulo, faz a sua cabeça explodir de tal maneira que você sairá por aí querendo anunciá-lo aos quatro ventos.

Basicamente, o livro se propõe a fazer uma revisão da história econômica da humanidade, tomando por base uma infinidade de relatos antropológicos e mesmo descobertas da ciência histórica que por algum motivo parecem ter sido deixados de lado na construção da narrativa econômica vigente. Segundo defende, o mito da “economia da troca” (vulgo, escambo), que teria sido segundo os estudiosos clássicos do tema a origem dos mercados e do dinheiro, não se sustenta quando avaliado sob a luz de tais estudos – nenhum antropólogo foi capaz de encontrar, em mais de dois séculos procurando, uma sociedade primitiva que funcionasse de tais maneiras, por mais que sociedades sem mercado ou sem dinheiro de fato tenham sido encontradas; e mesmo o deciframento de formas de escrita antigas, como a cuneiforme da Mesopotâmia ou a hieroglífica no Egito, revelam sociedades originais bem mais diversas do que a narrativa de certos economistas tenta vender.

Como o título prenuncia, o que se descobre ao estudar a fundo tais relatos é, ao contrário, que a economia humana, durante a maior parte do seu desenvolvimento, funcionou por meio de complexos sistemas de relacionamento entre os indivíduos, em que o endividamento e o crédito pessoais eram vistos como partes formadoras das próprias sociedades (e é bom lembrar aqui que debt não se traduz do inglês literalmente como débito, mas sim como dívida). Pode parecer uma inversão pequena, mas na verdade não é – ela coloca em cheque boa parte da ciência econômica atual, fundamentada na idéia da independência última dos mercados contra formas de coerção políticas, quando, na realidade, o próprio desenvolvimento dos mercados inicialmente só foi possível graças a tais métodos coercitivos. Aqui é o ponto onde os estudos de caso se mostram mais elucidativos, em especial quando oriundos da própria experiência pessoal do autor na ilha de Madagascar, e a forma como foram as autoridades coloniais européias no século XIX que, através da imposição de taxas e impostos que só poderiam ser pagos com moeda corrente, forçaram a criação de um mercado monetarizado entre tribos onde a lógica comunal ainda era a vigente.

O autor não tenta exatamente defender a originalidade destas ideias, mas se pega frequentemente questionando por que elas nunca foram levadas muito a sério no desenvolver de estudos e tratados de economia. Trabalhos de antropologia que punham em cheque a história oficial do surgimento dos mercados datam pelo menos desde estudos clássicos de Marcel Mauss, no começo do século XX, e no mesmo período existiram ainda teóricos econômicos marginais com idéias semelhantes; pelo menos um deles pode ser traçado ainda desde o século XVIII, podendo-se talvez encará-lo como concorrente da visão utópica de Adam Smith que se tornou a fundadora da teoria econômica clássica. As reflexões que faz, e as respostas que encontra através delas, o levam justamente a reforçar o papel das transformações morais e políticas que tantos tentam descartar como alheias à lógica econômica.

Aqui talvez se possa fazer uma pequena crítica ao autor, especificamente na forma como ele expõe as suas ideias. Graeber é bastante contundente ao falar “dos economistas,” muitas vezes fazendo parecer que sejam uma massa uniforme de teóricos obscurantistas que buscam se aproveitar da boa fé das pessoas, como uma espécie de arcanos ou, ahem, justiceiros mascarados contemporâneos. Embora nem sempre essa visão seja de todo injustificadas (como um punhado de citações de CEOs e teóricos renomados ao longo do livro ilustra muito bem), pode parecer também um tanto agressiva demais justamente para aqueles que poderiam se interessar pelas suas idéias, e talvez levá-las para um debate concreto com as narrativas vigentes que seria extremamente produtivo. Na sua ânsia de ser radical e romper laços, os atingidos nos estilhaços podem se sentir profundamente feridos e ofendidos na sua intelectualidade. É triste às vezes reconhecer que a academia é um grande antro de egos inflados, mais preocupados em manter o seu status do que fomentar um debate produtivo verdadeiro… Mas a dura verdade é que ela muitas vezes é assim mesmo.

Talvez haja algo de utópico também nas proposições de Graeber, e a sua visão última do “comunismo primitivo” que persiste mesmo nos dias de hoje, nas relações interpessoais à margem do sistema capitalista mundial, que o subvertem e sustentam no âmago mais profundo das sociedades. Mas, onde elas assumem esta dimensão, é em geral na desconstrução das utopias vigentes, em um exercício brilhante de erudição e reflexão a partir de bases muito mais concretas do que elas. O que ele propõe, mais do que todo o resto, e deixa isso claro já na introdução, é que se volte a fazer as Grandes Perguntas que norteiam o nosso pensamento, e por muito tempo parecem terem sido evitadas como se já estivessem definitivamente respondidas; ou, em outras palavras, uma revisão das premissas do nosso conhecimento, em especial quando, na atual conjuntura mundial, elas já não parecem ser suficientes para explicar a sociedade que temos, e muito menos a que gostaríamos de ter.

Enfim, o ponto fundamental é: Debt – The First 5,000 Years é provavelmente a leitura mais instigaste que eu fiz em anos. Leiam. Simplesmente leiam.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

  • Às vezes eu fico imaginando se eu não sou um grande buraco negro que suga toda a animação ao meu redor. 12 hours ago
  • RT @danielaabade: Vou postar de novo pq tem muita gente ainda divulgando a versão q derrubaram o prédio por engano. Foi dolo. https://t.co/… 12 hours ago
  • E hoje ao invés de fazer coisas úteis, fiquei o dia tentando tirar as linhas de baixo das músicas do Michael Jackson. 12 hours ago
  • A influência de jazz dá uma vibe muito Cowboy Bebop. Não é bem à toa que rolou aquele mashup das introduções. É bem legal mesmo. 12 hours ago
  • @metalgeisha Eu sei, hahah eu que to zoando porque tinha acabado de tuitar também. 12 hours ago

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