Archive for the 'Sóbrio' Category

Persona 5, millennials e práxis

Tem um vídeo que eu gosto bastante, em que a G. Willow Wilson, criadora e roteirista da maravilhosa HQ da Ms. Marvel, faz uma palestra no TED Talks sobre a “geração perdida” dos jovens atuais – os “millennials”. O vídeo segue abaixo, com legendas, e recomendo muito que seja visto.

A tese que ela propõe vale muito a pena ser ressaltada: a de que, antes do que uma geração perdida, o que encontramos na juventude atual é uma grande quantidade de pessoas pró-ativas, conscientes dos problemas que herdaram das gerações que os antecederam, que querem realmente fazer as coisas de forma diferente e não estão dispostos a cometer os mesmos erros apenas porque sim. Se há essa constante frequente de manchetes apocalípticas sobre eles – que, segundo dizem, são responsáveis por desde as cobranças “mimimi” sobre o humor politicamente incorreto, até o fim inevitável e iminente do ocidente capitalista -, talvez seja muito mais pela perplexidade de uma geração ultrapassada que não compreende ou aceita essa mudança de pensamento.

p5Há uma outra história recente que eu gosto muito, e que me colocou pra pensar bastante a respeito desse tipo de questão. Falo do RPG eletrônico Persona 5, da Atlus, que trata de temas e ideias muito parecidos com os expostos no vídeo: também nele, talvez de forma ainda mais evidente, temos um grupo de jovens em idade escolar que se descobre possuidores de poderes sobrenaturais, e decidem usá-los para provocar uma mudança na sociedade.

Eu sinto que eu poderia fazer um texto inteiro falando de cada aspecto do jogo, que foi o último a realmente me capturar e envolver por completo enquanto jogava. A direção de arte é fenomenal. A trilha sonora de acid jazz é maravilhosa. Toda a construção de cenário é fantástica, com uma história de assaltos mirabolantes sobrenaturais repleta de referências a ladrões e tricksters da história, mitologia e literatura. É um jogo que te prende e absorve por meses, e recomendo muito a qualquer um que goste de videogames que o experimente.

Mas há também mais nele do que apenas um joguinho eletrônico. Da mesma forma que a Ms. Marvel da Wilson, o jogo é uma tese sobre a juventude – e muito sobre essa juventude, em especial. Descontentes com a sociedade podre que herdaram, vítimas de toda sorte de abusos (alguns até bastante pesados e sérios, para quem acha que só por ser um videogame ele deve ser bobinho), o que move os personagens adolescentes é um desejo de ser e fazer diferente, e trazer uma mudança positiva para os que vierem depois. Se quisermos soar intelectuais e cabeçudos, poderíamos dizer mesmo que é um jogo sobre práxis revolucionária.

Vejo muito desse desejo de agência nessa geração. Poderia ser clichê aqui e citar as jornadas de junho de 2013 ou as inúmeras ocupações de escolas desde então, por exemplo. De certa forma, mesmo esse recrudescimento reacionário que vivemos pode ser um pouco reflexo disso, puxado por movimentos de rua que, à parte por serem contraditórios e muitas vezes francamente desonestos, se apresentam e são representados por faces jovens; às vezes me pego imaginando se parte da nossa desvantagem e dificuldade em superá-los não venha também de termos passado mais de uma década com alguma forma de esquerda relativamente progressista no poder, o que dificulta que ela seja vista como a opção de mudança.

Nesse contexto todo, entendo Persona 5 um pouco como um chamado à ação. Não é sobre denunciar males e expor a podridão da sociedade – é sobre ir às ruas e fazer algo a respeito. Eu acho fascinante como, mesmo que lide com temas pesados e sérios como abuso sexual, cobiça empresarial e conchavos políticos, entre outros, ele consiga deixar uma nota extremamente positiva e otimista no final. Talvez a sociedade em que vivemos seja mesmo injusta e apodrecida, mas ainda podemos tentar ser diferentes e transformá-la em algo melhor.

Há um conflito geracional aqui. Eu venho de uma geração muito marcada, na sua experiência nerd / otaku / gamer, por uma série chamada Neon Genesis Evagelion. Shinji Ikari, o protagonista adolescente de então, era exatamente o oposto do que os Phantom Thieves de Persona: confrontado com um mundo apodrecido, ele se fechava em si mesmo, se recusava repetidamente a entrar no robô, e caía no fatalismo e passividade, esperando que alguém o forçasse a agir. Numa hipérbole, posso dizer que o que aprendi com ele foi que, ao ver o mundo desmoronando, só me restava chorar e xingar meu pai.

Talvez por razões como essa, vejo a minha própria geração como um pouco perdida no que tange à possibilidade de transformar concretamente a sociedade. Mas, como professor, em contato constante com esse desejo de mudança e de fazer melhor, ainda tenho alguma esperança para as gerações futuras. As possibilidades sempre estão abertas para eles, e acho que gostaria de ver uma geração marcada por obras como Persona 5 (se não o videogame, a série em animação exibida atualmente no Japão) e Ms. Marvel; uma geração que cresça aprendendo que não precisa se curvar a um mundo adoecido, e que pode agir de alguma forma para melhorá-lo.

Saber cantarolar essa música é só um bônus.

Édens Perdidos

Um tempo atrás li esse livro da Scholastique Mukasonga, uma autora tutsi de Ruanda, chamado A Mulher de Pés Descalços. Trata-se de uma biografia parcialmente ficcionalizada da mãe dela, e a sua própria infância na terra natal, sofrendo com o domínio hutu que levou a um dos maiores genocídios do fim do século passado. Cheguei a fazer uma longa citação aqui no blog de uma das muitas partes que me encataram no livro.

Acredito que a história contada que mais me marcou, no entanto, e na qual eu ainda me pego pensando a respeito praticamente toda semana, é a que fecha a obra – e que é grande demais pra citar inteira. Ela conta a história de uma moça tutsi da aldeia, que, em um dado momento, ao sair sozinha para ir até o rio, foi encontrada e estuprada por um soldado hutu. Encontrada e trazida de volta, descobriu-se grávida.

O que se seguiu foi um relato extremamente tocante de acolhida comunitária. Sem a possibilidade de acusar o agressor – que, afinal, pertencia à etnia dominante do país, que tratava os tutsis da aldeia como menos que animais -, as mulheres locais buscaram uma forma de atenuar a tragédia. Quem deu o veredicto foi a própria mãe da autora: a água lava tudo, disse; portanto, bastava um banho purificador no rio, ministrado pelas mulheres mais velhas, e ela estaria apta a retornar à comunidade, com um status próprio de mãe solteira.

Com muita frequência me pego pensando nessa história, e comparando com a forma com que a nossa própria sociedade lida com o estupro e o abuso. É óbvio que sei que não é o meu lugar de fala, e longe de mim querer apontar como alguém deve ou não se sentir nessa situação; mas fico imaginando como nós mesmos lidamos com pessoas que sofreram com isso, entre a pena pelo “destino pior que a morte” e os dedos acusadores contra quem “tava se exibindo mais do que devia,” completamente dessensibilizados e incapazes de fazer uma acolhida como aquela.

Lembro que em outro momento, falando a respeito de autores negros africanos como a Scholastique e o Ngugi wa Thiong’o no Twitter, mencionei que via na literatura deles algo de “edênico,” relativo ao Éden, como se falassem de algo que há muito perdemos na nossa sociedade ocidental. Me referia a coisas como essa. Quando foi que perdemos esse sentimento coletivo? Quando foi que deixamos de ter essa sensibilidade comunitária? Tudo no nosso mundo é tão individualizado, tão pessoalizado, que qualquer pequena solidariedade causa espanto.

Sempre me pego pensando nisso, e imaginando o que seria necessário para nos reconciliar com esse espírito de comunidade. Cada vez mais tenho a impressão de que é a única solução para os dilemas que nos afligem enquanto sociedade.

Fantasia e Cultura Popular

jequitibáUm homem destemido percorre uma floresta misteriosa. Após muito andar, finalmente encontra o que procurava: uma árvore ancestral, mais antiga do que tudo ali em volta. Ele finca a sua arma nela; segundo se conta, isso lhe dará poderes sobrenaturais. E ele logo tem a chance de testá-los, uma vez que seus inimigos, os senhores daquela mata, o encontram, prendem e escalpelam ali mesmo, deixando-o para morrer. Mas ele não morre.

Essa cena poderia estar em qualquer romance épico de fantasia sobre elfos e árvores místicas. Mas trata-se apenas da abertura do primeiro capítulo de Renascer, novela exibida no horário nobre das oito horas da noite pela Rede Globo em 1993. Muitas vezes se ignora, mas há uma longa tradição de fantasia nas telenovelas brasileiras: você vai encontrá-la em Saramandaia (de preferência a original, mas o recente remake insosso também vale), Roque Santeiro, Pedra Sobre Pedra, e outras que marcaram o horário nobre na televisão nacional.

Faz já algum tempo, no entanto, que essa característica da nossa dramaturgia tem minguado. Talvez desde O Clone não tenhamos tido uma novela desse horário com elementos fantásticos marcantes; e mesmo naquela era uma ferramenta narrativa secundária, e a própria novela é mais lembrada pela representação capenga da cultura muçulmana do Marrocos do que pela ficção científica. Se você quer algum sobrenatural, o máximo que conseguirá será o recorrente apelo ao espiritismo que se vê em algumas novelas dos horários menos nobres das seis e sete horas – mas, claro, ai de quem chamar religião de fantasia…

Recorro a esse fato pois quero formular a partir dele uma hipótese sobre a fantasia na cultura brasileira. O fantástico, o sobrenatural, está profundamente ligado à nossa cultura popular. É a cultura das simpatias e do sincretismo religioso; da moça que faz oferenda a Iemanjá no fim do ano mas não deixa de frequentar a missa todo domingo. E é uma cultura capaz de aceitar como verossímil, e se encantar com, um demônio numa garrafa que traz fortuna e tragédia para quem o possui; uma árvore nascida do corpo de um homem amado pelas mulheres, e cujos frutos as dão orgasmos; ou um homem atraído (literalmente) pela lua cheia.

Não é exatamente uma coincidência que, ao se afastar desses elementos, as telenovelas também tenham se afastado desse elemento popular. Quantas novelas do horário das oito tivemos recentemente sobre a vida em Copacabana, os dramas amorosos das mulheres brancas ricas e sua aparente falta de necessidade de trabalhar, com o popular e a diversidade relegado, quando muito, a um “núcleo pobre” de onde vêm as suas empregadas domésticas? E quantas delas incluíram algum elemento fantástico nos seus enredos?

Isso é relevante, porque espelha o que acontece nos círculos mais “cultos” ligados à literatura e outras mídias. O realismo que é o sério e o culto, onde se faz as críticas sociais e não se mascara os problemas das pessoas; a fantasia é a crendice boba do povo não instruído, o escapismo daqueles que não são capazes de encarar a realidade. Mesmo um autor consagrado como Jorge Amado, ao flertar com o fantástico e trazer o popular para a frente da sua literatura, é visto com certa reserva, e acaba lembrado mais como um “autor de novelas” – ainda que ele próprio seja muito mais crítico e analítico nas suas histórias com elementos fantásticos e personagens maiores que a vida do que muitos daqueles que se dizem realistas.

Enquanto isso, no ambiente internacional, a América Latina como um todo é reconhecida como a origem de um rótulo literário original, o realismo mágico – e é curioso, aliás, que mesmo lá fora seja necessário chamá-la de realismo para dar alguma respeitabilidade à fantasia, como se fantasiar e flertar com o irreal não pudesse servir, em última instância, para intensificar a nossa relação com a própria realidade. Tanto se questionou sobre por que esse gênero, tão prolífico entre mexicanos, colombianos e argentinos, não teve tanta proeminência na literatura brasileira. Eu enxergo aí mais um reflexo dessa mesma questão: para os literatos nacionais, é necessário ser realista, ser cru e objetivo, ser o “grande romancista americano,” para se legitimar; a fantasia, ora, é coisa de telenovelas populares. E assim acaba que são os autores delas, os Dias Gomes e Beneditos Ruy Barbosas, os nossos verdadeiros Juan Rulfos e Gabriel García Marquez, que fizeram, no seu auge criativo, da teledramaturgia a nossa forma ficcional mais inventiva e consolidada frente ao público.

E quando as telenovelas abandonaram esse fantástico e abraçaram o realismo, abandonaram também essa tradição, buscando, no fundo, aquela mesma legitimação dos literatos cultos. Queriam, ahem, “qualificar” o seu público, sair do campo da cultura popular e das massas e se elitizar. Que isso facilite a publicidade e traga mais receitas para a emissora, claro, é apenas uma consequência.

Enfim, queria apenas levantar essa hipótese: a de que a fantasia, no fundo, e em especial no Brasil, é necessariamente mais inclusiva do que o realismo. Afinal, se a realidade é a exclusão, quem pode nos culpar por preferir fantasiar? Penso, agora, em dois livros, ambos estrangeiros, que li recentemente, e como eles se utilizam da fantasia para dar voz a ignorados e excluídos: em Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie, a imigrantes indianos na Inglaterra contemporânea; e em Wizard of the Crow, de Ngũgĩ wa Thiong’o, talvez com ainda mais força e veemência (sério, leiam esse livro), a uma nação africana fictícia que espelha outras muito reais. E penso então como isso se reflete nas próprias telenovelas citadas, que frequentemente, usando a fantasia como desculpa, resgatavam regiões e populações periféricas, interioranas e de maneira geral ignoradas pelos centros urbanos nacionais. (E não é curioso que talvez o nosso maior épico regional – o Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa – também possa ser lido a partir da ótica da fantasia?)

Pensando nesse caminho, de repente consigo entender melhor porque o fantástico, o “maior que a vida” e o surreal, sempre me pareceram mais interessantes do que meramente realismo acadêmico, tanto na hora de ler como de escrever meus rascunhos sem ambição aqui do blog.

Ensaio Sobre o Desânimo

Acho que lembro bem do último evento de anime que fui. Um amigo tinha recebido espaço da organização pra divulgar um fanzine de RPG, e eu era parte do “staff” dele; talvez já nem tivesse ido não fosse por isso, já que fazia um bom tempo tinha desanimado de pagar ingresso e pegar fila. O fato é que foi durante ele que eu tive um daqueles momentos de epifania, em que nossas vidas mudam de uma hora pra outra. Você sabe, tipo aquele meme da internet.

clarence

Você olha para os lados se perguntando, “o que eu tô fazendo aqui?” Não era o único cara de vinte e poucos anos lá, mas claramente era parte de uma minoria. Muitos adolescentes, gente quatro, cinco, seis anos mais jovem que eu; muitos cosplays e tudo mais. De repente, comecei a pensar como era quando eu mesmo comecei a me interessar por esse tipo de coisa. Eu comprava fitas de animes legendados em fansubbers. Devia ser o único cara que gostava de animes na minha turma de colégio. Mangás? Era uma coisa quase mítica, salvo um eventual Lobo Solitário ou Akira encontrado num sebo.

A verdade é que, olhando ao redor, eu não sentia raiva de ninguém lá, dessa “juventude perdida” ou qualquer coisa assim. Pelo contrário – sentia inveja. Assistir animes, jogar videogames, consumir nerdices quase sempre havia sido uma atividade solitária para mim, um momento de introspecção. Tive meus amigos com quem joguei Magic: the Gathering e RPG, mas boa parte deles já tinha abandonado essa vida – havia talvez dois ou três com quem eu ainda dividia essas atividades eventualmente, se tanto. E agora via aqueles adolescentes em bandos se divertindo, interagindo, namorando. O tipo de experiência que eu não tinha conseguido ter na idade deles (sim, eu era o seu típico nerd virjão aos quinze anos).

A impressão que eu tinha era de ter me adiantado ao zeitgeist. Tivesse sido só alguns anos mais jovem, poderia estar aproveitando o evento como eles.

Esse mesmo tipo de isolamento, de se sentir alheio a tudo, me perseguiu por quase toda a vida. Acho que desde que tomei consciência de mim mesmo tenho sido uma pessoa melancólica. Lembro de já ter falado disso aqui antes, não? De como tenho a impressão de viver na Era da Depressão. (Que nome pra um volume apócrifo do Hobsbawn, hein). Outro dia, uns meses atrás, tirei uma foto com colegas de faculdade, e, na legenda, ao darem um adjetivo para cada um, me descreveram como “melancolia;” é engraçado, pois me lembro claramente de estar tentando sorrir. E juro por Marc Bloch que, cada vez que me pedem para sorrir, em pelo menos dois terços das vezes eu já estou sorrindo.

Tenho pensado muito nesse tipo de coisa recentemente, ao me deparar com esses extremismos de Facebook. Cada vez que um parente anuncia apoio ao Bolsonaro ou ao MBL; cada vez que um ex-colega de escola defende que bandido tem mais é que apanhar; cada vez que descontam como “opinião” a análise de especialistas com quarenta anos de carreira acadêmica (afinal, é tudo ideologia mesmo)… Acabo voltando a esses pensamentos. Já passei muito do estágio da negação, da irritação, do enfrentamento. Cada vez que olho um deles, hoje em dia, a única coisa que consigo sentir é desânimo.

Tenho uma esperança sincera de que as coisas melhorem eventualmente; de que racismos, machismos, classismos se resolvam e deixem de existir, ou pelo menos diminuam gradualmente. Da minha forma, do alto dessa melancolia e desânimo que minam boa parte da minha proatividade, tenho tentado ajudar – sei que tento, eu mesmo, ser uma pessoa melhor, menos preconceituosa, mais consciente e crítica dos meus próprios privilégios. Talvez nem sempre consiga, mas pelo menos sempre tento.

Ao mesmo tempo, no entanto, me sinto desanimado de viver num mundo em que esse estágio ainda não tenha sido atingido. Às vezes sinto que, de novo, estou me adiantando demais ao zeitgeist.

Narrativa e Empatia

kurt_vonnegutKurt Vonnegut é, fácil, um dos meus autores preferidos. Matadouro 5 é um desses livros que deveria ser leitura obrigatória para… A vida, mesmo. Acho que ele consegue ter uma percepção de como o mundo funciona que eu mesmo queria ter, e ainda é capaz de por isso em palavras com uma clareza, objetividade e ironia com as quais eu jamais conseguiria.

Mesmo nos seus livros menores, esses que parecem diminuídos frente à sua magnum opus, você vai encontrar essa inteligência e acidez ao explicar como tudo funciona. Pegue Café-da-Manhã dos Campeões, por exemplo; é um livro que parece confuso, com um enredo que não vai a lugar nenhum. Já tive relatos de gente que leu e não conseguiu entender o que tem de tão especial no autor, porque ele é tão celebrado e hypado. Mesmo para mim, não é exatamente um dos meus preferidos. Mas mesmo nele você ainda consegue encontrar aquela citação perfeita, que faz com que todo ele de repente ganhe o sentido devido. Falo dessa aqui, especificamente, posta na boca do próprio Vonnegut convertido em narrador-personagem da sua própria história:

Conforme meu quinquagésimo aniversário se aproximava, tornava-me mais e mais enfurecido e assombrado pelas decisões estúpidas tomadas pelos meus compatriotas. E então, de repente, comecei a sentir pena deles, porque compreendi como para eles era inocente e natural se comportar de modo tão abominável e com resultados tão abomináveis: estavam fazendo o melhor possível para viverem pessoas inventadas em livros de histórias. Este era o motivo pelo qual os americanos matavam uns aos outros a tiro com tanta freqüência: era um truque literário conveniente para terminar contos e livros. Por que tantos americanos eram tratados por seus governos como se suas vidas fossem descartáveis como lenços de papel? Porque era assim que os autores costumavam tratar personagens menores em suas histórias inventadas.

E assim por diante.

Depois que compreendi o que estava tornando a América uma nação tão perigosa e infeliz, de pessoas que não tinham nada a ver com a vida real, decidi me abster de contar histórias. Eu escreveria sobre a vida. Cada pessoa seria exatamente tão importante quanto qualquer outra. Todos os fatos também receberiam o mesmo peso. Nada seria deixado de fora. Deixaria os outros trazerem ordem ao caos. Eu, em vez disso, traria caos à ordem, o que acho que acabei fazendo. Se todos os escritores fizessem isso, talvez os cidadãos fora dos ofícios literários compreendessem que não há uma ordem no mundo ao nosso redor, que, em vez disso, devemos nos adaptar às exigências do caos.

É difícil se adaptar ao caos, mas é possível. Sou uma prova viva disso: é possível.

Tenho pensado bastante nela recentemente. Vejo muito desse mesmo fenômeno em tantos casos recentes, desde manifestações políticas até polêmicas culturais fabricadas no mundo virtual. Gente que, tomada pela mitomania, perde a capacidade de enxergar o que existe fora da narrativa que criou para si e para o seu mundo.

Pode ser curioso pensar isso para um materialista histórico, mas a ficção tem mesmo poder. Talvez não poder de curto prazo – publique um romance e bum, o mundo mudou -, mas certamente de médio e longo, em normalizar ideias e visões de mundo. A verdade é que as pessoas buscam criar narrativas para si, contar histórias em que elas próprias são as protagonistas, que se não são totalmente ficcionalizadas, são sim estruturadas na forma de histórias mais tradicionais. Eu já falei de como isso afeta as narrativas do futebol antes, mas é algo que entra mais profundamente na vida de muita gente – ainda mais em um mundo tão bombardeado com ficção de todos os lados, em livros, séries de TV, filmes, videogames.

O ponto é que as pessoas veem essas mídias como modelos, e acabam acreditando que precisam encontrar os mesmos elementos em outros aspectos das suas vidas. Ela também precisa ter vilões, protagonistas, reviravoltas e arcos narrativos. Você vê isso desde aquela conhecida que acha que todas as colegas de serviço estão conspirando contra ela, até o cara que se veste de super-herói no protesto político, o que, com a chuva de filmes do gênero que temos atualmente, acaba como uma visão bem emblemática da “ficcionalização” de questões reais. E a coisa fica mais complicada ainda quando entramos em toda a questão de direitos e representações de minorias, que mesmo pessoas que apoiam às vezes ficam meio perdidas quanto ao seu papel quando eles próprios não fazem parte delas.

Nisso tenho um caso bem específico em mente, de um amigo que considero bastante. É um militante de esquerda, que em geral possui ideias progressistas e bem fundamentadas, mas que não pode ouvir falar em “roubar o protagonismo” sem fazer algum comentário de como são esses extremistas que atrapalham os movimentos sociais. A própria noção de protagonismos aí já tem a ver com essa fixação pela narrativa, mas há algo mais oculto nessa reação – a ideia, talvez até um pouco de medo, de que, se ele não for o protagonista dessa narrativa, o que sobra para ser? Um “mero” coadjuvante?

É difícil, às vezes, abrir mão desse protagonismo, e se reduzir ao papel de coadjuvante. Todos querem ser o Batman, ninguém quer ser o Robin (nem o próprio Robin, aliás, que precisou virar Asa Noturna). O que falta aí é a segunda parte do título do texto, empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro e compreender que ele também precisa se sentir importante e protagonista na sua própria narrativa. Existe uma razão pela qual o tropo do “salvador branco” é tão criticado em histórias sobre a escravidão – e falamos aí de uma fórmula narrativa da qual nem um filme tão forte quanto 12 Anos de Escravidão conseguiu fugir.

E até aí ainda estamos falando de alguém que, em última instância, apoia movimentos sociais e políticas progressitas. Imagine agora alguém que talvez já nem se importe tanto com isso em primeiro lugar. O cara pode ter crescido sonhando em ser o Batman – o que cada vez mais me convenço de que tem uma série de problemas intrínsecos próprios, mas deixo isso para outro texto -, ou jogando videogames – o que, sem essa capacidade de auto-crítica, pode ser ainda pior, uma vez que é uma forma de ficção em que você está de fato sendo colocado no papel direto de protagonista. Aí de repente vem alguém e diz que ele não é tão importante assim, que pessoas diferentes, mulheres, negros, homossexuais, talvez sejam, no mínimo, tão importantes quanto ele. Então vem a reação – como ele pode não ser tão importante assim? É mais fácil buscar a narrativa contrária, e procurar seu modelo naquelas histórias em que o protagonista se mantém firme e resoluto independentemente dos valores distorcidos que o cercam. Heróis não mudam de opinião, afinal; é o mundo ao seu redor que mais frequentemente está errado.

Então Vonnegut me volta à cabeça cada vez que eu vejo a repercussão dessas polêmicas virtuais. Ou as figuras quase cômicas que aparecem nas manifestações políticas. Ou em qualquer notícia de “criminosos” linchados por turbas populares (que frequentemente se descobre depois não serem realmente criminosos, mas quem se importa, né?). A fixação por se encaixar na narrativa é muito maior do que o desejo por compreensão sincera – é mais fácil, e mais recompensador, eleger seus vilões, sejam eles os bandidos cracudos, comunistas infiltrados, feminazis escondidas. Então pelo menos você pode achar que sabe o que fazer, e a argumentação de fato se torna cada vez mais impossível.

Enfim. Para não parecer que o meu ponto é que toda ficção é maléfica e devíamos abolir filmes, livros, jogos e tudo mais. Não é isso. Eu gosto de tudo isso. Consumo tudo isso. Até produzo um pouco, dentro das minhas limitações. Bem, é só ver o resto do blog. Se tanto, talvez as pessoas realmente precisem transformar suas vidas nesse tipo de narrativa – ou não fariam isso desde as épocas míticas descritas em religiões antigas.

O que falta mesmo no mundo é empatia. Devia ter algum jeito de se ensinar isso na escola.

A Tristeza da História

Paulo-Freire-protestoEssa semana parece que todo mundo quer falar de política. Tanto se falou, comentou, questionou, impugnou, que não acho realmente que eu tenha algo a acrescentar, e nem vou tentar. Meu comentário é sobre um tema bem mais pessoal, que toca só tangencialmente tudo o que tem acontecido ultimamente no país.

Para quem não sabe, sou formado em História, e atuo como professor em uma escola municipal. Há treze anos que me embrenho em aprender o ofício com Hobsbawn, Marc Bloch, Ciro Flamarion Cardoso, tantos outros por aí. Há treze anos que estudo a trajetória da humanidade ao longo do tempo, desde lá a pré-História até o que quer que tenha sido notícia ontem. Claro, não tenho como saber toda a História, e há assuntos entre tantos do qual sei mais ou menos a respeito. Mas tenho um diploma de especialização justamente sobre a História do Brasil contemporâneo, então alguma coisa sobre o nosso próprio país eu tenho que saber. Ou acho que tenho.

Mesmo assim, isso nunca é o suficiente quando se entra em uma discussão justamente sobre a História do país. De repente um achismo, ou vivência pessoal, ou qualquer que seja a opinião daquele colunista lá do jornal totalmente isento e sem agenda política nenhuma, ai de quem duvidar da sua imparcialidade jornalística, vale muito mais do que qualquer opinião que eu possa ter a partir daquilo que estudei, pois, obviamente, independente de qualquer dado ou embasamento histórico, se eu discordo dele eu só posso estar me deixando levar pela minha “ideologia pessoal.”

Longe de mim querer dar um carteiraço, é claro, dizer que o meu diploma me torna a autoridade suprema do assunto ou qualquer coisa assim. Mas, sabe, não seria ruim receber um pouco de crédito por aquilo que eu passei os últimos treze anos estudando.

É tão hipócrita esse clichê argumentativo de acusar a ideologia como fonte de todos os males intelectuais. Primeiro por assumir que se pode ser livre de ideologia. Segundo por achar que a própria ideologia é um ente estranho, alienígena, alheio a tudo e a todos, e que ela também não é construída socialmente e historicamente a partir de experiências, vivências e reflexões.

Eu sei de onde vem a minha ideologia. Fui criado em um berço de direita, longe de ser esplêndido, é bem verdade, mas que hoje sei reconhecer ter tido uma quantidade razoável de privilégios. Até entrar na faculdade, sei que certamente tinha um pensamento mais inclinado para o que se costuma classificar como direita política. A faculdade me levou mais ao centro, por me ensinar auto-crítica e a tentar olhar as coisas pelos olhos dos outros, a de fato respeitar, analisar e entender suas posições. (Sou grato às aulas de antropologia por isso. Sou da opinião de que ensinar antropologia nas escolas tornaria o mundo um lugar muito mais estimulante intelectualmente. Ninguém pode ser um ser humano completo sem ter tido pelo menos um semestre de introdução à antropologia).

O que me fez sair do armário e me levou realmente à esquerda do espectro ideológico foi a especialização. Mais especificamente, estudar o que aconteceu exatamente no país em 1964. É difícil manter a fé na imprensa, na sociedade civil, na própria classe média, quando se vê os pormenores daquele período, a discrepância entre o que existia de fato e o que era relatado nos jornais, o tipo de paranóia e histeria que eles incitavam na população. E é realmente um pouco assustador ver a quantidade de paralelos possíveis entre o que acontecia então e os dias de hoje. (Mas não, não vou acreditar que o desfecho vá ser necessariamente o mesmo – não acredito que a História sempre se repita, ou, pelo menos, não necessariamente; os momentos são outros, os atores também, as experiências se acumulam, e, até as coisas de fato acontecerem, sempre podemos ter o benefício da dúvida).

Talvez seja justamente por saber reconhecer a origem da minha ideologia que eu consiga ver a contradição que é achar ser possível não ter ideologia, que você pode simplesmente analisar quaisquer que sejam os fatos friamente, sem recorrer a experiências anteriores e idéias pré-concebidas, e então formar a sua opinião isenta sobre eles. Isso não existe. Ideologia não é juízo de valor, é simplesmente o seu modo de pensar. Não é ideologia só quando é esquerda. A direita também tem ideologias. O centro também. Até rejeitar as ideologias é uma ideologia, e vai influenciar o seu pensamento e a sua avaliação do mundo da mesma forma, nem que seja apenas por fazê-lo se esforçar em não seguir as outras ideologias e ficar sempre em cima do muro (uma armadilha teórica em que já caí diversas vezes em discussões, pra ser sincero).

Como você pode apontar um dedo acusador para o professor de História, acusando-o de ser ideológico, e então falar de repente na gloriosa Revolução de 1964? Apenas por chamá-la de revolução você já está sendo ideológico. Toda revolução política é um golpe em algum nível, e a escolha do termo é apenas um retrato da sua ideologia.

Ou ainda, tirando um exemplo direto da última manifestação: uma faixa que exigia o fim da “doutrinação marxista,” com o abandono de Paulo Freire nas escolas. Freire, para quem não sabe, é um pedagogo reconhecido internacionalmente, respeitado em todo o mundo. Possivelmente seja o intelectual brasileiro mais lido fora do Brasil. Nos Estados Unidos e na Europa há universidades que dedicam andares inteiros das suas bibliotecas apenas à sua obra. A própria ONU e a UNICEF, ao verem a foto da faixa, correram para defendê-lo, compartilhando citações em suas contas de twitter e facebook. Mas ele também é um pensador assumidamente de esquerda, e, o pior dos crimes, ligado diretamente ao PT, tendo sido secretário municipal de educação do governo da Luiza Erundina em São Paulo. Analisando friamente, é um pensador renomado que serve aos educadores dos Estados Unidos e da Europa. Mas aparentemente não serve para os do Brasil. Como não há ideologia aí?

Poderia dar mais exemplos. Poderia falar de um movimento que se diz apartidário, mas que critica e ataca um único partido, e tem muitos de seus membros vestindo camisas de apoio ao último candidato de oposição a ele. Um movimento anti-corrupção que isenta um partido como o PP – o que teve mais nomes citados para investigação no atual escândalo de corrupção dos jornais – de bandeiras e xingamentos. Onde estão as camisas mandando Luís Carlos Heinze – que não é um qualquer irrelevante, foi o deputado mais votado do Rio Grande do Sul nas últimas eleições – tomar no seu orifício anal?

Mas o ponto não é esse. O ponto é: ideológicos sempre são os outros. Eu sou isento. Eu sou imparcial. Por que só os historiadores, só os professores de História e outras ciências humanas, têm esse ônus?

Minha suposição é que os cientistas humanos são os únicos que são realmente humildes quanto a isso. A idéia de que a História deve “contar os fatos como eles realmente aconteceram,” como já vi gente falando por aí, é ridiculamente ultrapassada – qualquer estudante de Teoria da História I sabe associar essa citação a Leopold von Ranke, historiador alemão do século XIX, e ele próprio nem era tão isento assim, sendo ligado ao conservadorismo prussiano da época. Quando nos afastamos desse preceito nos dois séculos seguintes, não estávamos querendo manipular as massas ignorantes com a nossa malvada ideologia marxista-leninista-trotkista-satânica-ateia; apenas aprendemos a assumir que talvez não seja tão fácil assim sequer conhecer os fatos como eles realmente aconteceram, e o que podemos fazer, se tanto, é tirar algumas conclusões a partir dos indícios e vestígios que temos.

Esse tipo de honestidade, no entanto, não costuma ser bem visto por quem quer certezas absolutas. Um jornalista que comece a sua manchete bombástica com um “eu acho que…” dificilmente seria levado a sério. Um economista, então, seria execrado – há textos ótimos por aí sobre como certos economistas fazem para manter o prestígio mesmo quando todas as suas tentativas de previsões se mostram erradas muito mais freqüentemente do que certas, e eu mesmo já resenhei um livro ótimo que questiona muitos dos pressupostos sobre os quais a ciência econômica contemporânea foi estabelecida.

Então quando derrubam a obrigatoriedade do diploma para o jornalismo, o mundo vira de ponta cabeça; será o apocalipse da informação, as pessoas não saberão mais em quem acreditar. Mas quando um jornalista sem qualquer formação acadêmica, sem nenhum conhecimento teórico ou metodológico, escreve um livro de História, todos passam a tratá-lo como autoridade. Pelo menos ele é imparcial, já que é jornalista; não é como os historiadores que passaram vinte anos estudando e fazendo especializações e mestrados e doutorados, eles são todos cheios de ideologia.

Me pergunto como seria se historiadores formados recebessem o mesmo tipo de autoridade pública que outras classes de intelectuais recebem. Se estudar História de verdade foi o que me fez virar à esquerda ideologicamente, como seria com outras pessoas? É claro, conheço muitos historiadores respeitados com pensamentos de direita ou de outros espectros intermediários da ideologia, então isso não é nenhuma garantia. Mas quando tantos intelectuais da área têm idéias tão bem alinhadas, é difícil não se pegar imaginando se esses “fatos como eles realmente aconteceram” são realmente tão contraditórios com o pensamento que eles pregam.

No fim, acaba que a própria História se torna diminuída como disciplina. Outro dia estava vendo uma entrevista com um técnico de futebol em um canal esportivo, e um dos jornalistas perguntava, “excluindo-se o aspecto histórico, pode-se dizer hoje que o clube X é um time grande?” Como se uma classificação tão subjetiva pudesse prescindir de História. Como se fosse a História que poluísse de ideologia a análise fria e objetiva que se pode fazer sem ela do tamanho de um clube. E se em um tema tão periférico como o futebol isso já acontece, que dirá dos “grandes temas.”

De repente todos os viúvos da ditadura começam a fazer muito mais sentido.


Sob um céu de blues...

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