Posts Tagged 'mini-contos'

Trecho avulso

Gostava de livros realistas, desses que eram pouco mais do que uma sucessão de episódios cotidianos, sem um objetivo muito claro guiando a trama. Dois amigos em um bar, um casal passeando na cidade, crianças brincando no parque. Não achava que a vida tinha fantasia suficiente, mas gostava da ilusão de que era essa a verdadeira ficção, e que o mundo que o esperaria ao fechar o livro seria mais interessante, mais intenso, mais colorido.

Fusão

Após anos de olhares trocados, sorrisos esguios e encontros sonhados, Pedro e Paula finalmente satisfizeram seus desejos: tornaram-se um, seus corpos unidos em um ato de paixão intensa e provocante. A energia liberada na fusão dos seus átomos pulverizou tudo em um raio de vários quilômetros, e a radiação contaminaria a região por décadas a fio.

Zeitgeist

No ponto, olhava para o nada, pensando na vida. De repente o vejo, logo a frente, já longe de onde estou; corro, faço sinal, chamo, grito em desespero… Mas é tarde.

Era o zeitgeist que passava.

Universos Paralelos (2)

de_leonTodos os anos, após a última rodada do campeonato, o físico quântico soltava uma bateria de fogos de artifício.

– Mas o seu time perdeu! – diziam os amigos. – Foi rebaixado! Nem chegou à final!

A todos, ele calmamente respondia:

– Ah, mas em algum universo paralelo…

Tumor

cirurgiaA operação fora difícil, mas, felizmente, um sucesso. No quarto do hospital, ainda em recuperação, já era capaz de sentir a leveza de estar livre daquele corpo estranho. Como deixara crescer tanto? No final, mal conseguia dar alguns passos sem senti-lo pressionando as suas artérias.

Mas havia acabado, enfim. A história que tanto cultivara havia sido removida do seu corpo, e não mais ocuparia a sua mente.

Triste Fim de Bob

barataasForam milhões de milhões de milhões de centenas de milhões de anos de evolução até que nascesse Bob. Quem era Bob? Uma barata, é claro. Mas não qualquer barata – a barata que resultou desses milhões de milhões de milhões de centenas de milhões de anos de evolução. Ele nasceu com uma mutação no seu código genético, que o tornava superior a todos os seus semelhantes, e tal mutação seria passada adiante para todos os seus descententes, que também seriam superiores aos descendentes das outras baratas, e assim sucessivamente até que uma nova espécie superior de baratas suplantasse completamente a anterior, e seguisse evoluindo até o ponto em que eventualmente as baratas se tornassem a espécie dominante do planeta.

Bob não demorou a perceber o quão superior era às demais baratas da sua ninhada. Viu assustado seus irmãos serem abatidos um a um pelo terrível gás que era expelido para o local onde nasceram, e percebeu que bastava não ser tocado por ele para não ser asfixiado. Assim, evitava ao máximo ser ludibriado para locais fechados demais, onde seria facilmente intoxicado; buscava sempre a segurança dos locais abertos, onde poderia mais facilmente fugir dos malignos gigantes que o perseguiam com o gás assassino. Nunca houve antes dele barata mais hábil em fugir da morte: fingia se dirigir para um lado e esperava seu inimigo começar a se mover para lá, mas logo saía pelo outro lado; começava a subir em uma parede esperando o gás ser expelido, mas antes de ser atingido se soltava e caía suavemente ao chão; corria por entre os perseguidores, fazendo-os trombar uns contra os outros. Ninguém era capaz de pegá-lo.

Assim, Bob habilmente despistou todos aqueles que tentavam matá-lo, e, uma vez achando-se seguro, olhou para trás, vendo seus irmãos inertes, massacrados, mortos. Se baratas tivessem lágrimas, é certo que Bob as teria vertido naquele instante; jurou para si mesmo que vingaria a todos eles, e faria dessa a missão sagrada de todos os seus descendentes. E foi nesse instante de dor e determinação que Bob, distraído, foi atingido por um largo objeto de borracha nos pés de um dos gigantes. Morreu esmagado por um chinelo humano, antes de ter a oportunidade de passar adiante qualquer de seus genes mutantes superiores.

O Que Está Errado Com O Mundo

Em uma grande cidade, um homem na beirada do último andar de um edifício ameaça se atirar. Na rua abaixo uma multidão se reúne em um grande coro de pula! pula!, ansiando pelo final apoteótico daquele espetáculo matutino. Os gritos abafam o choro do bebê na lata de lixo do beco ao lado, abandonado na noite anterior por uma mãe aos prantos, as lágrimas que caíam dos olhos arroxeados misturando-se com o sangue dos dentes quebrados e formando poças de líquido agora secas. Na saída do beco dois garotos apertam um terceiro contra a parede, retirando dele carteira, celular, casaco, par de tênis. Correm ao perceber um policial se aproximando, mas ele nem os nota, preocupado em chegar ao local onde um homem de capacete está atirado ao chão, sua moto caída apenas alguns metros adiante enquanto um carro em velocidade deixa o local do acidente. Um turba com bandeiras passa ao longe, fugindo de granadas que cospem fumaça. E no restaurante ao lado um homem olha de canto para a comoção que na rua e logo volta a fitar o vazio dos restos de salada no prato, em choque após toda essa perfeição de um mundo que julgava entender se desfazer quando a mulher que estava com ele disse não e o deixou ali sozinho, calado, pensativo.


Sob um céu de blues...

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@bschlatter

  • Faço greve há anos na educação pública, e é triste fazer uma greve que não afeta ninguém que importa pro jornal nacional. 3 hours ago
  • É óbvio que greve prejudica. Uma das razões dela é mostrar o que acontece quando trabalhadores não veem razão pra trabalhar. 3 hours ago
  • No jornal do almoço: "a gente queria falar das razões da greve, mas como se tem gente prejudicada?" E por que não falar das duas coisas? 3 hours ago
  • Mas já estou vendo certos prefeitos dizendo que sou eu o privilegiado. 4 hours ago
  • A manchete diz "professores vão poder furar teto salarial." Aí leio a notícia, isso afeta juízes, promotores e etc que são professores tb... 4 hours ago

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