Posts Tagged 'mini-contos'

Elas adoram (um diálogo)

– Eu coço o saco em público, cuspo no chão, arroto quando tenho vontade, espirro alto na rua, evito pegar nas mãos de homem, muito prazer eu sou machão e elas adoram.
– Me diga uma mulher que adore então.
– Ora, a minha esposa, com quem eu sou casado há trinta anos! Querida, vem cá!
– O que foi, querido?
– Você não adora que eu seja assim?
– Assim como?
– Ora, um machão! Que coça o saco em pública, cuspa no chão, arrote quando quer, não pegue na mão de homem!
– Bem, já que você perguntou… Eu tenho um pouco de vergonha de quando você coça o saco em público.
– Eu não dis… o quê?
– E cuspir no chão! Você não percebe o quanto isso é nojento? Eu viro a cara sempre que você faz isso pra não ver.
– Mas…
– E esses arrotos! Eu juro que, às vezes, quando estamos na rua, eu dou um passo pro lado e finjo que não te conheço.
– Mas querida…
– E qual o problema em pegar nas mãos dos seus netos de vez em quando? Eles genuinamente acham que você não gosta deles.
– Mas esse é o meu jeito machão!
– …
– …
– Sim, querido, eu adoro que você seja assim.
– Eu não disse? Elas adoram!

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Trecho avulso

Gostava de livros realistas, desses que eram pouco mais do que uma sucessão de episódios cotidianos, sem um objetivo muito claro guiando a trama. Dois amigos em um bar, um casal passeando na cidade, crianças brincando no parque. Não achava que a vida tinha fantasia suficiente, mas gostava da ilusão de que era essa a verdadeira ficção, e que o mundo que o esperaria ao fechar o livro seria mais interessante, mais intenso, mais colorido.

Fusão

Após anos de olhares trocados, sorrisos esguios e encontros sonhados, Pedro e Paula finalmente satisfizeram seus desejos: tornaram-se um, seus corpos unidos em um ato de paixão intensa e provocante. A energia liberada na fusão dos seus átomos pulverizou tudo em um raio de vários quilômetros, e a radiação contaminaria a região por décadas a fio.

Zeitgeist

No ponto, olhava para o nada, pensando na vida. De repente o vejo, logo a frente, já longe de onde estou; corro, faço sinal, chamo, grito em desespero… Mas é tarde.

Era o zeitgeist que passava.

Universos Paralelos (2)

de_leonTodos os anos, após a última rodada do campeonato, o físico quântico soltava uma bateria de fogos de artifício.

– Mas o seu time perdeu! – diziam os amigos. – Foi rebaixado! Nem chegou à final!

A todos, ele calmamente respondia:

– Ah, mas em algum universo paralelo…

Tumor

cirurgiaA operação fora difícil, mas, felizmente, um sucesso. No quarto do hospital, ainda em recuperação, já era capaz de sentir a leveza de estar livre daquele corpo estranho. Como deixara crescer tanto? No final, mal conseguia dar alguns passos sem senti-lo pressionando as suas artérias.

Mas havia acabado, enfim. A história que tanto cultivara havia sido removida do seu corpo, e não mais ocuparia a sua mente.

Triste Fim de Bob

barataasForam milhões de milhões de milhões de centenas de milhões de anos de evolução até que nascesse Bob. Quem era Bob? Uma barata, é claro. Mas não qualquer barata – a barata que resultou desses milhões de milhões de milhões de centenas de milhões de anos de evolução. Ele nasceu com uma mutação no seu código genético, que o tornava superior a todos os seus semelhantes, e tal mutação seria passada adiante para todos os seus descententes, que também seriam superiores aos descendentes das outras baratas, e assim sucessivamente até que uma nova espécie superior de baratas suplantasse completamente a anterior, e seguisse evoluindo até o ponto em que eventualmente as baratas se tornassem a espécie dominante do planeta.

Bob não demorou a perceber o quão superior era às demais baratas da sua ninhada. Viu assustado seus irmãos serem abatidos um a um pelo terrível gás que era expelido para o local onde nasceram, e percebeu que bastava não ser tocado por ele para não ser asfixiado. Assim, evitava ao máximo ser ludibriado para locais fechados demais, onde seria facilmente intoxicado; buscava sempre a segurança dos locais abertos, onde poderia mais facilmente fugir dos malignos gigantes que o perseguiam com o gás assassino. Nunca houve antes dele barata mais hábil em fugir da morte: fingia se dirigir para um lado e esperava seu inimigo começar a se mover para lá, mas logo saía pelo outro lado; começava a subir em uma parede esperando o gás ser expelido, mas antes de ser atingido se soltava e caía suavemente ao chão; corria por entre os perseguidores, fazendo-os trombar uns contra os outros. Ninguém era capaz de pegá-lo.

Assim, Bob habilmente despistou todos aqueles que tentavam matá-lo, e, uma vez achando-se seguro, olhou para trás, vendo seus irmãos inertes, massacrados, mortos. Se baratas tivessem lágrimas, é certo que Bob as teria vertido naquele instante; jurou para si mesmo que vingaria a todos eles, e faria dessa a missão sagrada de todos os seus descendentes. E foi nesse instante de dor e determinação que Bob, distraído, foi atingido por um largo objeto de borracha nos pés de um dos gigantes. Morreu esmagado por um chinelo humano, antes de ter a oportunidade de passar adiante qualquer de seus genes mutantes superiores.


Sob um céu de blues...

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