Dona Zélia

zéliaEntão hoje se foi minha bisavó, a bisa Zélia. 102 anos e ainda esbanjava saúde e lucidez até algumas semanas atrás, quando complicações no sistema digestivo a levaram a ser hospitalizada. A última vez que tinha ido visitá-la foi no ano passado, acho, quando quis entrevistá-la sobre a sua vida e dedicação à educação pública, para um projeto que nunca rendeu muitos frutos. Pensei algumas vezes em voltar fazer mais entrevistas, pra registrar e guardar outras dimensões da sua trajetória, mas infelizmente não terei mais essa chance.

O texto abaixo vem das minhas anotações sobre esta única entrevista. Serve como uma pequeo obituário e uma última homenagem à essa pessoa fantástica que ela foi.

Zélia Antunes da Costa Nunes nasceu no Alegrete, Rio Grande do Sul, em 1917. Perdeu a mãe antes de completar dois anos, sendo criada na infância pelos avós na fazenda da família, na área rural da cidade. Aos dezesseis anos casou-se com José Bonifácio da Costa Nunes, que era quase quinze anos mais velho. Algum tempo depois, mudou-se para Uruguaiana, principal centro urbano da região.

Vinda de uma família tradicional, desde cedo fora ensinada que não era papel da mulher trabalhar – o sustento da casa deveria vir do marido, mesmo que os negócios familiares já não fossem tão bem-sucedidos e os tempos fossem de vacas magras. Ainda assim, vendia doces escondida, sem o conhecimento dos homens da casa, e com o dinheiro comprava material escolar para os filhos. Mesmo tendo terminado a Escola Normal e recebido o diploma de professora, não tinha a expectativa de pô-lo em uso.

Isso mudou aos trinta anos, quando, por influência da irmã, e contra a vontade do marido, Zélia começou a lecionar na escola pública em Uruguaiana. Seu sucesso como professora chamou a atenção, e logo já estava na Delegacia Regional de Educação, responsável pela coordenação das escolas estaduais de nove municípios. Em votação interna, foi escolhida por unanimidade a Delegada de Educação da região. Conta-se que nesta época, em uma querela política que a levou a Porto Alegre para dar satisfações e a ameaçar entregar o cargo, o próprio Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul conhecido pelas suas políticas para a educação, teria dito:

– Se eu tivesse mais Zélias, deixava a educação no Estado do jeito que eu quero!

Foi ainda Secretária Municipal de Educação e Assistência Social em Uruguaiana, termo durante o qual fundou o programa de alfabetização de adultos e implantou o sistema de assistência social na cidade. No final da década de 1960, no entanto, teve que mudar-se para Porto Alegre devido à doença do marido. Mas não deixou de trabalhar: fez parte da equipe que inaugurou a Febem na capital gaúcha, e posteriormente assumiu um cargo no gabinete do Secretário Estadual de Educação, que ocupou até a aposentadoria.

Durante toda a vida, e ainda na velhice, Zélia sempre impressionou a todos por sua saúde e lucidez, que nem a morte de três dos cinco filhos abalou. Diz-se que era tudo graças às palavras cruzadas que fazia, religiosamente, todo dia. Jamais aceitou que alguém passasse por ela sem saber ler, escrever ou fazer contas: se necessário chegava a dar aulas particulares para suas empregadas domésticas, completando a sua alfabetização. Em 2013, durante a tensão das jornadas de Junho e a repressão policial, chegou a sair às ruas para acompanhar a movimentação próxima à sua casa, no bairro Cidade Baixa.

Em 2017 completou cem anos de vida. Usava Facebook e Whats App, e discutia política, cultura e novela com mais entendimento que muitos perfis de redes sociais. Tinha uma foto do Getúlio Vargas na estante, e diz-se que só não colocava uma do Brizola ao lado por proibição do filho com quem dividia a casa. Deixa uma família numerosa, muito saudosa da sua presença, mas, acima de tudo, orgulhosa da pessoa que ela foi.

Mayombe, de Pepetela (3)

– Todos nós somos uns solitários – disse Sem Medo. – Os solitários do Mayombe! Por que gostamos de viver na mata? Não é porque gostamos de nos sentir sós no meio da multidão de árvores que nos rodeia? Quando eu estava na Europa, eu gostava de andar no meio da gente, à hora da saída dos empregos. Anônimo, absolutamente anônimo no meio da massa. Por isso gosto das grandes cidades ou então da mata, onde se não é anônimo, antes pelo contrário, é-se singular, mas em que realmente uma pessoa sente ser uma personalidade singular, assim como no meio da multidão. Por isso não gosto de cidades pequenas, que são o detestável meio-termo da mediocridade. Desculpa os palavrões, mas é isso mesmo!

Mayombe, de Pepetela (2)

– Penso que é como a religião – disse Sem Medo. – Há uns que necessitam dela. Há uns que precisam crer na generosidade abstrata da humanidade abstrata, para poderem prosseguir no caminho duro como é o caminho revolucionário. Considero que ou são fracos ou são espíritos jovens, que ainda não viram verdadeiramente a vida. Os fracos abandonam só porque o seu ideal cai por terra, ao verem um dirigente enganar um militante. Os outros temperam-se, tornando-se mais relativos, menos exigentes. Ou então mantêm a fé acesa. Esses morrem felizes embora talvez inúteis. Mas há homens que não precisam de ter uma fé para suportarem os sacrifícios; são aqueles que, racionalmente, em perfeita independência, escolheram esse caminho, sabendo bem que o objetivo só será atingido em metade, mas que isso já significa um progresso imenso. É evidente que estes também tem um ideal, todos o têm, mas nestes o ideal não é abstrato nem irreal. Eu sei, por exemplo, que todos temos bem no fundo de nós um lado egoísta que pretendemos esconder. Assim é o homem, pelo menos o homem atual. Para que serviram séculos ou milênios de economia individual, se não para construir homens egoístas? Negá-lo é fugir à verdade dura, mas real. Enfim, sei que o homem atual é egoísta. Por isso, é necessário mostrar-lhe sempre que o pouco conquistado não chega e que se deve prosseguir. Isso impedir-me-á de continuar? Por quê? Se eu sei isso, a frio, e mesmo assim me decido a lutar, se pretendo ajudar esses pequenos egoístas contra os grandes egoístas que tudo açambarcaram, então não vejo por que haveria de desistir quando outros continuam. Só pararei, e aí racionalmente, quando vir que a minha ação é inútil, que é gratuita, isto é, se a Revolução for desviada dos seus objetivos fundamentais.

Mayombe, de Pepetela

– Tu, Lutamos, és um burro! – disse Sem Medo. – Quem não quer estudar é um burro e, por isso, o Comissário tem razão. Queres continuar a ser um tapado, enganado por todos… As pessoas devem estudar, pois é a única maneira de poderem pensar sobre tudo com a sua cabeça e não com a cabeça dos outros. O homem tem de saber muito, sempre mais e mais, para poder conquistar a liberdade, para saber julgar. Se não percebes as palavras que eu pronuncio, como podes saber se estou a falar bem ou não? Terás de perguntar a outro. Dependes sempre de outro, não és livre. Por isso toda a gente deve estudar, o objetivo principal duma verdadeira Revolução é fazer toda a gente estudar. Mas aqui o camarada Mundo Novo é um ingênuo, pois acredita que há quem estuda só para o bem do povo. É essa cegueira, esse idealismo, que faz cometer os maiores erros. Nada é desinteressado.

White Noise, de Don Delillo (2)

Como é estranho. Nós temos esses medos profundos e contínuos sobre nós mesmos e as pessoas que amamos. E ainda assim caminhamos, falamos com pessoas, comemos, bebemos. Nós conseguimos funcionar. Os sentimentos são profundos e reais. Eles não deviam nos paralisar? Como nós conseguimos sobreviver a eles, mesmo que por algum tempo? Nós dirigimos um carro, damos uma aula. Como ninguém enxerga o quão amedrontados nós estávamos, na noite passada, esta manhã? É algo que escondemos uns dos outros, por consenso mútuo? Ou nós compartilhamos do mesmo segredo sem saber? Vestimos o mesmo disfarce.

A Flecha de Fogo, de Leonel Caldela

– Por que isso funciona? – perguntei.
Ele me olhou sem entender.
– No norte, a ciência goblin simplesmente não dá certo – expliquei. – Os goblins criam engenhocas mirabolantes, mas elas sempre explodem ou se desmantelam. Ou apenas fazem o que não deveriam.
Ele suspirou.
– Você já tentou voar, Corben?
Há dois dias Kuduk me chamava pelo nome. Era um alívio. Eu não gostava de ser reduzido apenas à minha raça.
– Claro que não – respondi. – É impossível, a menos que você seja um mago ou membro de alguma raça com poderes especiais.
– Você sempre ouviu que não podia voar. Desde criança, sempre soube. Então nunca tentou.
Concordei em silêncio.
– O que provavelmente foi uma boa ideia, pois você iria se esborrachar no chão. Mas a questão é que não tentou porque lhe ensinaram que não podia. Agora imagine se todos a seu redor dissessem que nunca aprenderia a ler. Será que você tentaria?
– Talvez eu… – gaguejei.
– Mesmo se tentasse, o que aconteceria quando você encontrasse uma dificuldade? Não seria a prova de que não consegue?
Comecei a entender onde ele queria chegar.
– Os goblins do norte escutam há muitas gerações que nada do que eles constróem tem valor. Ouvem que para eles “é natural” viver no lixo e nos dejetos das outras raças. Então é claro que, quando criam algo, é algo defeituoso. Lembro de quando houve uma grande migração de goblins do norte para cá, em busca de liberdade. Eles eram terríveis. Quando construíam algo, contentavam-se com traquitanas desastrosas, davam de ombros e diziam que era assim mesmo. A maioria nunca conseguiu aprender ciência ou engenharia, morreu achando que ser incompetente era natural. Mas seus filhos aprenderam e seus netos aprenderam melhor ainda. É impressionante quantas limitações desaparecem quando o que se espera de você não é o fracasso.

Gosto desses livros de fantasia que dialogam com a realidade.

Artesanal

– …aí eu pensei, eu devia fazer o meu próprio hambúrguer, né? Melhor do que ficar comprando esses prontos, que eu nunca sei como foram feitos. Comecei a comprar carne moída e montar o hambúrguer eu mesmo. Mas aí pensei, porque depender da carne moídas pelos outros? Eu confio que eles estão pegando os melhores cortes mesmo? Então passei a comprar as peças completas, moer eu mesmo, dar aquele toque personalizado. Só que ainda tinha algo de errado. Então passei comprar os próprios bois para carnear e moer depois. Montei essa criação pequena, onde eu mesmo faço os cruzamentos para conseguir os cortes que quero. Só que ainda faltava alguma coisa. Foi quando me dei conta: não importava se eu criasse os bois, selecionasse, fizesse os cortes, moesse a carne. De que adiantava se os instrumentos que eu usava ainda fossem todos industrializados? Fiz um curso de metalurgia, e passei a forjar minhas próprias facas. Mas ainda não era o bastante – eu ainda precisava sair e adquirir o minério de ferro. Então fiquei sabendo dessa jazida aqui, numa propriedade próxima, que adquiri e onde eu passei a mineirar o meu próprio ferro…


Sob um céu de blues...

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