Mayombe, de Pepetela (3)

– Todos nós somos uns solitários – disse Sem Medo. – Os solitários do Mayombe! Por que gostamos de viver na mata? Não é porque gostamos de nos sentir sós no meio da multidão de árvores que nos rodeia? Quando eu estava na Europa, eu gostava de andar no meio da gente, à hora da saída dos empregos. Anônimo, absolutamente anônimo no meio da massa. Por isso gosto das grandes cidades ou então da mata, onde se não é anônimo, antes pelo contrário, é-se singular, mas em que realmente uma pessoa sente ser uma personalidade singular, assim como no meio da multidão. Por isso não gosto de cidades pequenas, que são o detestável meio-termo da mediocridade. Desculpa os palavrões, mas é isso mesmo!

Mayombe, de Pepetela (2)

– Penso que é como a religião – disse Sem Medo. – Há uns que necessitam dela. Há uns que precisam crer na generosidade abstrata da humanidade abstrata, para poderem prosseguir no caminho duro como é o caminho revolucionário. Considero que ou são fracos ou são espíritos jovens, que ainda não viram verdadeiramente a vida. Os fracos abandonam só porque o seu ideal cai por terra, ao verem um dirigente enganar um militante. Os outros temperam-se, tornando-se mais relativos, menos exigentes. Ou então mantêm a fé acesa. Esses morrem felizes embora talvez inúteis. Mas há homens que não precisam de ter uma fé para suportarem os sacrifícios; são aqueles que, racionalmente, em perfeita independência, escolheram esse caminho, sabendo bem que o objetivo só será atingido em metade, mas que isso já significa um progresso imenso. É evidente que estes também tem um ideal, todos o têm, mas nestes o ideal não é abstrato nem irreal. Eu sei, por exemplo, que todos temos bem no fundo de nós um lado egoísta que pretendemos esconder. Assim é o homem, pelo menos o homem atual. Para que serviram séculos ou milênios de economia individual, se não para construir homens egoístas? Negá-lo é fugir à verdade dura, mas real. Enfim, sei que o homem atual é egoísta. Por isso, é necessário mostrar-lhe sempre que o pouco conquistado não chega e que se deve prosseguir. Isso impedir-me-á de continuar? Por quê? Se eu sei isso, a frio, e mesmo assim me decido a lutar, se pretendo ajudar esses pequenos egoístas contra os grandes egoístas que tudo açambarcaram, então não vejo por que haveria de desistir quando outros continuam. Só pararei, e aí racionalmente, quando vir que a minha ação é inútil, que é gratuita, isto é, se a Revolução for desviada dos seus objetivos fundamentais.

Mayombe, de Pepetela

– Tu, Lutamos, és um burro! – disse Sem Medo. – Quem não quer estudar é um burro e, por isso, o Comissário tem razão. Queres continuar a ser um tapado, enganado por todos… As pessoas devem estudar, pois é a única maneira de poderem pensar sobre tudo com a sua cabeça e não com a cabeça dos outros. O homem tem de saber muito, sempre mais e mais, para poder conquistar a liberdade, para saber julgar. Se não percebes as palavras que eu pronuncio, como podes saber se estou a falar bem ou não? Terás de perguntar a outro. Dependes sempre de outro, não és livre. Por isso toda a gente deve estudar, o objetivo principal duma verdadeira Revolução é fazer toda a gente estudar. Mas aqui o camarada Mundo Novo é um ingênuo, pois acredita que há quem estuda só para o bem do povo. É essa cegueira, esse idealismo, que faz cometer os maiores erros. Nada é desinteressado.

White Noise, de Don Delillo (2)

Como é estranho. Nós temos esses medos profundos e contínuos sobre nós mesmos e as pessoas que amamos. E ainda assim caminhamos, falamos com pessoas, comemos, bebemos. Nós conseguimos funcionar. Os sentimentos são profundos e reais. Eles não deviam nos paralisar? Como nós conseguimos sobreviver a eles, mesmo que por algum tempo? Nós dirigimos um carro, damos uma aula. Como ninguém enxerga o quão amedrontados nós estávamos, na noite passada, esta manhã? É algo que escondemos uns dos outros, por consenso mútuo? Ou nós compartilhamos do mesmo segredo sem saber? Vestimos o mesmo disfarce.

A Flecha de Fogo, de Leonel Caldela

– Por que isso funciona? – perguntei.
Ele me olhou sem entender.
– No norte, a ciência goblin simplesmente não dá certo – expliquei. – Os goblins criam engenhocas mirabolantes, mas elas sempre explodem ou se desmantelam. Ou apenas fazem o que não deveriam.
Ele suspirou.
– Você já tentou voar, Corben?
Há dois dias Kuduk me chamava pelo nome. Era um alívio. Eu não gostava de ser reduzido apenas à minha raça.
– Claro que não – respondi. – É impossível, a menos que você seja um mago ou membro de alguma raça com poderes especiais.
– Você sempre ouviu que não podia voar. Desde criança, sempre soube. Então nunca tentou.
Concordei em silêncio.
– O que provavelmente foi uma boa ideia, pois você iria se esborrachar no chão. Mas a questão é que não tentou porque lhe ensinaram que não podia. Agora imagine se todos a seu redor dissessem que nunca aprenderia a ler. Será que você tentaria?
– Talvez eu… – gaguejei.
– Mesmo se tentasse, o que aconteceria quando você encontrasse uma dificuldade? Não seria a prova de que não consegue?
Comecei a entender onde ele queria chegar.
– Os goblins do norte escutam há muitas gerações que nada do que eles constróem tem valor. Ouvem que para eles “é natural” viver no lixo e nos dejetos das outras raças. Então é claro que, quando criam algo, é algo defeituoso. Lembro de quando houve uma grande migração de goblins do norte para cá, em busca de liberdade. Eles eram terríveis. Quando construíam algo, contentavam-se com traquitanas desastrosas, davam de ombros e diziam que era assim mesmo. A maioria nunca conseguiu aprender ciência ou engenharia, morreu achando que ser incompetente era natural. Mas seus filhos aprenderam e seus netos aprenderam melhor ainda. É impressionante quantas limitações desaparecem quando o que se espera de você não é o fracasso.

Gosto desses livros de fantasia que dialogam com a realidade.

Artesanal

– …aí eu pensei, eu devia fazer o meu próprio hambúrguer, né? Melhor do que ficar comprando esses prontos, que eu nunca sei como foram feitos. Comecei a comprar carne moída e montar o hambúrguer eu mesmo. Mas aí pensei, porque depender da carne moídas pelos outros? Eu confio que eles estão pegando os melhores cortes mesmo? Então passei a comprar as peças completas, moer eu mesmo, dar aquele toque personalizado. Só que ainda tinha algo de errado. Então passei comprar os próprios bois para carnear e moer depois. Montei essa criação pequena, onde eu mesmo faço os cruzamentos para conseguir os cortes que quero. Só que ainda faltava alguma coisa. Foi quando me dei conta: não importava se eu criasse os bois, selecionasse, fizesse os cortes, moesse a carne. De que adiantava se os instrumentos que eu usava ainda fossem todos industrializados? Fiz um curso de metalurgia, e passei a forjar minhas próprias facas. Mas ainda não era o bastante – eu ainda precisava sair e adquirir o minério de ferro. Então fiquei sabendo dessa jazida aqui, numa propriedade próxima, que adquiri e onde eu passei a mineirar o meu próprio ferro…

Persona 5, millennials e práxis

Tem um vídeo que eu gosto bastante, em que a G. Willow Wilson, criadora e roteirista da maravilhosa HQ da Ms. Marvel, faz uma palestra no TED Talks sobre a “geração perdida” dos jovens atuais – os “millennials”. O vídeo segue abaixo, com legendas, e recomendo muito que seja visto.

A tese que ela propõe vale muito a pena ser ressaltada: a de que, antes do que uma geração perdida, o que encontramos na juventude atual é uma grande quantidade de pessoas pró-ativas, conscientes dos problemas que herdaram das gerações que os antecederam, que querem realmente fazer as coisas de forma diferente e não estão dispostos a cometer os mesmos erros apenas porque sim. Se há essa constante frequente de manchetes apocalípticas sobre eles – que, segundo dizem, são responsáveis por desde as cobranças “mimimi” sobre o humor politicamente incorreto, até o fim inevitável e iminente do ocidente capitalista -, talvez seja muito mais pela perplexidade de uma geração ultrapassada que não compreende ou aceita essa mudança de pensamento.

p5Há uma outra história recente que eu gosto muito, e que me colocou pra pensar bastante a respeito desse tipo de questão. Falo do RPG eletrônico Persona 5, da Atlus, que trata de temas e ideias muito parecidos com os expostos no vídeo: também nele, talvez de forma ainda mais evidente, temos um grupo de jovens em idade escolar que se descobre possuidores de poderes sobrenaturais, e decidem usá-los para provocar uma mudança na sociedade.

Eu sinto que eu poderia fazer um texto inteiro falando de cada aspecto do jogo, que foi o último a realmente me capturar e envolver por completo enquanto jogava. A direção de arte é fenomenal. A trilha sonora de acid jazz é maravilhosa. Toda a construção de cenário é fantástica, com uma história de assaltos mirabolantes sobrenaturais repleta de referências a ladrões e tricksters da história, mitologia e literatura. É um jogo que te prende e absorve por meses, e recomendo muito a qualquer um que goste de videogames que o experimente.

Mas há também mais nele do que apenas um joguinho eletrônico. Da mesma forma que a Ms. Marvel da Wilson, o jogo é uma tese sobre a juventude – e muito sobre essa juventude, em especial. Descontentes com a sociedade podre que herdaram, vítimas de toda sorte de abusos (alguns até bastante pesados e sérios, para quem acha que só por ser um videogame ele deve ser bobinho), o que move os personagens adolescentes é um desejo de ser e fazer diferente, e trazer uma mudança positiva para os que vierem depois. Se quisermos soar intelectuais e cabeçudos, poderíamos dizer mesmo que é um jogo sobre práxis revolucionária.

Vejo muito desse desejo de agência nessa geração. Poderia ser clichê aqui e citar as jornadas de junho de 2013 ou as inúmeras ocupações de escolas desde então, por exemplo. De certa forma, mesmo esse recrudescimento reacionário que vivemos pode ser um pouco reflexo disso, puxado por movimentos de rua que, à parte por serem contraditórios e muitas vezes francamente desonestos, se apresentam e são representados por faces jovens; às vezes me pego imaginando se parte da nossa desvantagem e dificuldade em superá-los não venha também de termos passado mais de uma década com alguma forma de esquerda relativamente progressista no poder, o que dificulta que ela seja vista como a opção de mudança.

Nesse contexto todo, entendo Persona 5 um pouco como um chamado à ação. Não é sobre denunciar males e expor a podridão da sociedade – é sobre ir às ruas e fazer algo a respeito. Eu acho fascinante como, mesmo que lide com temas pesados e sérios como abuso sexual, cobiça empresarial e conchavos políticos, entre outros, ele consiga deixar uma nota extremamente positiva e otimista no final. Talvez a sociedade em que vivemos seja mesmo injusta e apodrecida, mas ainda podemos tentar ser diferentes e transformá-la em algo melhor.

Há um conflito geracional aqui. Eu venho de uma geração muito marcada, na sua experiência nerd / otaku / gamer, por uma série chamada Neon Genesis Evagelion. Shinji Ikari, o protagonista adolescente de então, era exatamente o oposto do que os Phantom Thieves de Persona: confrontado com um mundo apodrecido, ele se fechava em si mesmo, se recusava repetidamente a entrar no robô, e caía no fatalismo e passividade, esperando que alguém o forçasse a agir. Numa hipérbole, posso dizer que o que aprendi com ele foi que, ao ver o mundo desmoronando, só me restava chorar e xingar meu pai.

Talvez por razões como essa, vejo a minha própria geração como um pouco perdida no que tange à possibilidade de transformar concretamente a sociedade. Mas, como professor, em contato constante com esse desejo de mudança e de fazer melhor, ainda tenho alguma esperança para as gerações futuras. As possibilidades sempre estão abertas para eles, e acho que gostaria de ver uma geração marcada por obras como Persona 5 (se não o videogame, a série em animação exibida atualmente no Japão) e Ms. Marvel; uma geração que cresça aprendendo que não precisa se curvar a um mundo adoecido, e que pode agir de alguma forma para melhorá-lo.

Saber cantarolar essa música é só um bônus.


Sob um céu de blues...

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