Futilidade do Dia

Passou esses dias umas imagens do Gorilaz, projeto musical encabeçado pelo Damon Albarn, e eu lembrei das briguinhas entre Blur e Oasis na década de 1990. Olhando em retrospecto, é interessante parar pra pensar e notar algumas coisas.

O Albarn vem de uma família de artistas, classe média britânica, estudou em escolas boas, e vive nesse meio desde a infância. A relação dele com a criação artística é muito erudita e culta, e isso é visível na música dele, repleta de melodias complexas e arranjos cuidadosos. Ainda assim, a principal banda dele, o Blur, é um fenômeno muito inglês, e tem muito pouco reconhecimento de fato fora de lá.

Os maiores sucessos muscais que o Albarn conseguiu não foram dessas super cosntruções eruditas dele: foram duas paródias. Song 2, o mairo sucesso internacional do Blur, é basicamente uma paródia do que eles imaginavam ser uma música de heavy metal. “When I feel heavy metal“, tá lá na letra. O Gorilaz, bem, é literalmente uma banda de desenho animado, uma paródia da própria indústria musical.

Critique o que quiser dos irmãos Gallagher, muitas vezes eles merecem mesmo, mas eles são de fato uma história de ascenção pela música, talvez na última época histórica em que isso era realmente possível de acontecer. Nasceram em famílias simples, moradoras de bairros operários da Manchester, e lembro de entrevistas do Noel falando do preconceito que sofria entre os familiares por se dedicar à música. E isso se reflete muito nas próprias composições deles, principalmente no início: o Definetely Maybe, principalmente, é cheio de músicas sobre sonhos da classe operária, sobre enriquecer e deixar aquela vida alienada para trás, ser um astro do rock e abandonar a pobreza. Está lá em Rock and Roll Star, Cigarettes & Alcohol, Fade Away, D’Yer Wanna be a Spaceman.

No fim não me parece surpresa qual das duas bandas ressoou mais com o público e por mais tempo, atingiu um sucesso internacional duradouro com hits empilhados, e ainda hoje é capaz de encher estádios em quase todos os continentes.

Tédio Terminal

É engraçado como a nossa experiência sempre emerge naquilo que a gente escreve. Não num clichê bobo de “só escreva sobre o que você conhece”, mas por que, de uma forma ou de outra, é o que a gente vive que nos instiga a escrever em primeiro lugar. A histórias tem que vir de algum lugar.

Tô pensando aqui num livro que tenho livro, Tédio Terminal, antologia de contos de Izumi Suzuki. Ela foi uma atriz / modelo / escritora de ficção científica muito ligada ao movimento de contracultura japonês da década de 1970/80. Pertence também àquela longa tradição de escritores japoneses que se suicidaram, que passa lá pelo Akutagawa e o Kawabata entre sabe lá quantos outros.

O interessante é o quanto os contos dela são bem ficção científica padrão: tem aliens, planetas distantes, distopias. Não é FC “hard”, no entanto, mas é mais voltada pra especulação social e cultural. E sempre acabam voltando pra dois temas específicos: 1) os papeis sociais, em especial os de gênero, vistos como uma espécie de papel teatral, cheios de farsa e exageros; e 2) drogas e tratamentos psiquiátricos imaginários.

Isso tem me tocado bastante por causa da minha própria experiência com doenças e tratamentos psiquiátricos, tanto meus diagnósticos como falta de sucesso nos tratamentos, e o quanto tenho me questionado a respeito ultimamente. Fico imaginando o quanto disso transpareceria nos meus textos atualmente. Mas não é como se eu tivesse escrevendo muito ultimamente, também.

Final Fantasy da Shopee

Comprei um PlayStation 5 este ano, e finalmente estou podendo ficar em dia com minhas obsessão e hiperfoco em Final Fantasy! Enquanto não podia, no entanto, passei uma boa parte do ano liberando essa minha energia contida numa plataforma mais barata e acessível, que são os RPGs de mesa.

Primeiro li esse RPG chamado Fabula Ultima. É bem bacana, e ótimo pra você fazer o seu próprio Final Fantasy sem sair de casa nem saber nenhuma linguagem complicada de programação. Só não consegui jogar ainda, quem sabe em 2024.

Meu segundo Final Fantasy de orçamento limitado veio com o 3DeT Victory. A campanha de financiamento coletivo foi um grande sucesso, e no começo de 2024 ele deve estar disponível para todos que não participaram comprarem. Visitem o site oficial pra mais informações.

O que me ocupou mais tempo, no entanto, foi uma série de adaptações que eu fiz de monstros e elementos da série para Tormenta20. Alguns foram publicados na Dragão Brasil – que você pode assinar e acompanhar todo mês clicando aqui, quase sempre tem algo de minha autoria -, mas como meu hiperfoco é grande demais pro espaço que ela tem disponível, muitos deles eu acabei disponibilizando online. Estão todos nos links abaixo:

Bestiário Final Fantasy. Um punhado de monstros e chefes clássicos da série, atualizados sempre que o hiperfoco volta. Também tem um caminho do arcanista novo (o mago azul) e alguns itens exclusivos como recompensas das batalhas.

Final Fantasy 8. Se você veio aqui falar mal da minha família ou de Final Fantasy 8 veio ao lugar errado. Fichas dos personagens principais do jogo, e algumas coisas extras também: novas armas (gunblade e bastão seccionado) e munições especiais para armas de fogo.

Cavaleiro Místico. Uma distinção baseada em um dos jobs clássicos da série, com alguns itens únicos de brinde.

Nem todo suicídio é uma morte física

Um tempo atrás a minha terapeuta me perguntou se eu tinha pensamentos suicidas. É um tema um pouco complicado pra mim, porque a resposta não é só um simples “sim” ou “não.”

Eu convivo com depressão em algum nível acho que desde o fim da infância/começo da adolescência. É quando eu consigo me lembrar que houve um “clique” no meu cérebro e eu não consegui mais melhorar. Há altos e baixos, é claro, a montanha russa da bipolaridade, mas no fundo acho que, em uns bons vinte ou trinta anos, eu nunca saí totalmente desse vale depressivo, só estive em patamares mais altos ou baixos dentro dele.

É claro que suicídio já me passou pela cabeça em todo esse tempo, principalmente no início. Mas acho que muito cedo eu mesmo cheguei à conclusão de que eu não tinha coragem o suficiente. Talvez seja um último fiapo de esperança de melhora, um desejo inconsciente de saber como as coisas ficarão, sei lá. Mas desde a adolescência eu já sabia que, por maior que fosse a fossa em que eu estava, suicídio nunca me seria uma opção.

Salvo pela própria covardia.

Mas eu também fiquei pensando. Será que todo suicídio é uma morte física? Existem formas de estar vivo e, ainda assim, ter morrido. Suicídio não por veneno, ou overdose, ou pulsos cortados… Mas por simplesmente deixar de viver, e só esperar que a morte chegue pra te levar por inércia.

Eu fico pensando, às vezes, se eu já não morri há muito tempo. Só não tive coragem completar o processo ainda.

O mito da überparty

Existe aquele conceito filosófico, o übermensch, “super-homem”, conhecido principalmente como foi formulado por Friedrich Nietzsche. A ideia de que um ser humano, na sua individualidade, é capaz de superar os valores da sociedade e tornar-se superior a ela, transcendendo-a para elevar, a partir das suas conquistas individuais, toda a humanidade.

Isso é uma simplificação grosseira, é claro, que não abrange a complexidade que o próprio Nietsche possui no seu pensamento. Se parece algo complicado, que pode vir a justificar fascismos e autoritarismos, é porque foi assim mesmo que a ideia foi interpretada (mal interpretada segundo pessoas mais inteligentes que eu) diversas vezes desde que foi proposta, fazendo do pensador alemão uma figura bastante controversa. Mas também é uma ideia que está na origem daquele produto máximo da nossa cultura pop contemporânea, o super-herói, desde o próprio Super-Homem que não esconde a referência nem no nome, até o que é pra muitos o seu exemplar ficcional mais bem acabado, o Marvelman / Miracleman dos quadrinhos britânicos na fase roteirizada pelo Alan Moore.

Bem, em oposição a esse conceito, eu gostaria de propor um outro pseudo-conceito, que vou chamar de überparty. A tradução literal aqui é meio enganadora, pois quando falamos em “super-grupo” a imagem que nos vêm à mente é justamente grupos de super-heróis, como os Vingadores e Liga da Justiça, que na verdade são muito mais amontoados de übermensch do que grupos coesos em si mesmos. Mas a imagem que quero resgatar é muito mais a da “party” de um jogo de RPG, em especial aqueles da tradição japonesa.

Penso em Final Fantasy, Crono Trigger, Persona, Xenogears, todos esses jogos japoneses que marcaram pelo menos duas gerações de consoles de videogames. Não são histórias sobre indivíduos que transcendem a sociedade e a superam com seus dotes individuais, mas, antes disso, sobre grupos de indivíduos que se complementam, as limitações de um compensadas pelas qualidades de outro, e assim, pela força da amizade e coesão dos ideais, atingem o mesmo tipo de transcendência que o übermensch do Nietzsche – às vezes quase literalmente, dentro daquele tropo máximo do gênero em que as histórias sempre terminam de alguma forma (em alguns casos mais literalmente do que em outros) com o grupo derrotando Deus.

Às vezes penso que foram essas as histórias que mais marcaram a minha formação como pessoa. Até quando a minha referência eram os super-heróis norte-americanos, aqueles que eu lia realmente e sempre foram os meus preferidos eram um super-grupo que mais se aproximava desse tipo de ideal – os X-Men. Com todos os seus subtextos políticos, acho que o que me pegava realmente nas suas histórias era como ele não funcionava como o seu super-grupo típico, o amontoado de übermensch referido acima, indivíduos extraordiordinários que venciam pela força da sua extraordinariedade; pela sua própria formação, ele parecia muito mais com uma comunidade coesa, indivíduos que não viam espaço na sociedade e eram obrigados a se unirem como forma de sobrevivência, em que as diferenças entre eles eram parte da sua força e do que os mantinha unidos.

Eu lembro muito de uma citação da Naoko Takeuchi, criadora da Sailor Moon, sobre como ela criou a série como forma de sublimar a solidão que ela própria sentia, formando na ficção o grupo de amigas que ela gostaria de ter na vida real. Bem, eu sempre fui uma pessoa muito solitária, na infância, na adolescência, ainda hoje luto contra essa tendência. Tenho dificuldade em fazer e mais dificuldade ainda em manter amigos; acho que tenho um único que carrego comigo desde a adolescência até hoje, e mesmo ele por vezes parece distante, na medida em que ficamos semanas ou meses sem nos falar.

Quando penso em retrospecto, acho que essas histórias de fato supriram um pouco a minha necessidade de conexão. Talvez se tivesse afundado no universo individualista de um mundo de super-heróis, tivesse me tornado um desses nerds amargurados que jogam no resto do mundo a frustração de não conseguirem serem iguais aos personagens que têm como modelo. Mas os meus heróis nunca venceram sozinhos; se não tivessem outras pessoas com eles, que os levantam e sacodem e emprestam a força e os poderes, teriam sucumbido.

Eu penso muito no quanto eu levei disso pra minha vida posterior. A minha desconfiança de hierarquias e de tudo que não é feito a partir de consenso e coesão de ideias; talvez aí esteja a origem da minha simpatia pelo anarquismo. A minha dificuldade em lidar com autoridade e figuras de liderança, e mesmo (talvez principalmente) em ser essa figura de liderança. A minha dificuldade em me colocar primeiro do que o grupo, e a frustração quando percebo que ninguém em um determinado ambiente está disposto a fazer o mesmo por mim. Mesmo o meu gosto por jogos cooperativos, como o RPG, no lugar de esportes de esportes de competição.

Pro bem e pro mal, eu vejo isso até na minha prática como professor. Lidar com alunos adolescentes é sempre complicado, porque eles não tem ainda essa capacidade de auto-crítica, de olhar para si mesmo e reavaliar aquilo que fazem e pensam. A culpa é sempre do outro, e a figura do professor, revestida de uma aura de autoridade, é uma daaquelas a quem eles podem se opor na busca de entenderem a si mesmo. É sempre frustrante pra mim quando preciso ser essa figura de autoridade, e abusar de uma posição hierárquica com a qual eu nem concordo em primeiro lugar para que consiga pelo menos fingir que há uma aula acontecendo.

Essa pedagogia da autoridade, do opressor… Não é uma pedagogia com a qual eu concorde. Mas por vezes parece ser a pedagogia que esperam de mim. E essa tensão entre o professor que eu queria ser, e o professor que esperam que eu seja, é muito angustiante. Eu nunca me senti confortável de verdade na profissão que caiu no meu colo, mas acho que faz muito tempo que não me questionava tanto a respeito dela.

Enfim. O texto dá uma volta muito grande nos assuntos, mas são algumas coisas que eu queria realmente colocar pra fora. Nem liguem.

Primeira pessoa do singular, de Haruki Murakami

Se me entristeço por essas mulheres terem envelhecido, talvez seja porque isso me força a reconhecer que os sonhos que tive quando jovem já não são mais possíveis. Em certo sentido, a morte de um sonho é mais triste do que a morte de algo vivo.


Sob um céu de blues...

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