Arquivo de abril \29\UTC 2009

Chapeuzinho Vermelho

Era uma vez uma linda menina de olhos verdes e cabelos dourados encaracolados, que morava em uma casa no campo, longe da cidade grande, junto com a mãe. Chapeuzinho Vermelho é como era conhecida, pois gostava de usar um manto com capuz vermelho quando saía a caminhar saltitante pelas redondezas.

Um dia, a mãe de Chapeuzinho Vermelho pediu para a filha levar uma cesta de doces até a avó, cuja casa ficava após um grande bosque. A menina pegou a cesta, vestiu o velho manto vermelho, e foi feliz visitar a vovózinha, de quem gostava muito. No meio do caminho, no entanto, encontrou um velho lobo.

– Olá, menina! O que fazes por aqui? – perguntou o lobo.

– Uau! Um lobo falante! – respondeu, surpresa, Chapeuzinho Vermelho, que nunca tinha visto um lobo que falasse antes.

– Er… Ehm… Ahh… Au! Au! – respondeu o lobo.

Um pouco confusa, Chapeuzinho seguiu o caminho até a casa da avó. Chegando lá, entregou os doces, e ganhou como recompensa um delicioso pedaço de torta de chocolate. Voltou antes de escurecer.

E todos viveram felizes para sempre, exceto o lobo, que foi encontrado morto alguns dias depois em uma armadilha colocada por caçadores, e virou um lindo tapete comprado pela mãe de Chapeuzinho Vermelho para colocar na porta de entrada da casa.

The New Weird

the-new-weird-ann-and-jeff-vandermeerA new weird é como é chamado um subgênero recente da literatura fantástica que tem tido um certo destaque nos mercados de língua inglesa na última década, comparado por alguns críticos ao cyberpunk dos anos 80, como se estivesse acontecendo hoje na fantasia a revolução que houve então na ficção científica. Claro que todo novo rótulo acaba sendo um pouco polêmico e questionável, ainda mais na new weird, que em primeiro lugar já nem é mais tão new assim, e ainda parte da premissa justamente de não reconhecer as barreiras entre gêneros e subgêneros; tem muito a ver com a mania dos editores de língua inglesa, norte-americanos principalmente, de encontrar um nicho para tudo, e com a necessidade dos autores de encontrar espaço em um mercado assim. Por outro lado, como destaca o organizador Jeff VanderMeer, ele próprio um autor identificado com o movimento, no prefácio desta coletânea sobre o tema, essa classificação passa a ter uma certa relevância quando se nota que muitos dos principais prêmios de literatura fantástica dos últimos anos foram entregues a autores de alguma forma identificados com ela.

E o que é a new weird, então? Fundamentalmente, é os autores de fantasia, horror e ficção científica tomando as rédeas das suas próprias criações, se recusando a seguir fórmulas prontas ou linhas editoriais ao escrever suas obras; eles não querem copiar Tolkien ou Asimov, não querem escrever sobre cavaleiros nobres enfrentando dragões nem robôs em crise existencial, muito menos sobre guerras intergaláticas ou buscas épicas por artefatos ancestrais capazes de salvar o mundo – querem, muito mais, voltar aos tempos seminais da revista Weird Tales, onde foram publicados nomes como H. P. Lovectaft e Robert E. Howard, quando tais distinções ainda não estavam tão enraizadas. A partir daí, no entanto, toda definição acaba ficando um pouco arbitrária, embora haja alguns elementos comuns que sejam marcantes, como: o cuidado técnico com a linguagem, maior do que é comum na literatura de massas; uma ênfase nos ambientes urbanos, diferente do ambiente rural típico das histórias de fantasia; o uso de uma estética grotesca e bizarra como forma de chocar e surpreender o leitor; o uso de analogias e metáforas para falar, a partir da fantasia, do nosso próprio mundo; e uma certa predileção por transpor barreiras de gênero, misturando fantasia, ficção científica, horror e outros rótulos como se tudo fosse a mesma coisa. Estas, ao menos, são as características que mais me chamaram a atenção ao ler os contos desta coletânea, ainda que nenhuma delas possa ser considerada como canônica e imutável – afinal, um gênero que parte da premissa de não seguir fórmulas prontas fica meio sem sentido no momento em que ele próprio se torna uma fórmula.

O livro é dividido em quatro partes. A primeira, chamada Stimuli, traz contos de autores anteriores à new weird que de alguma forma influenciaram os principais nomes do movimento, e é onde estão alguns dos melhores momentos da coletânea. Destaque para In the Hills, In the Cities, de Clive Barker, com uma bizarra competição entre duas cidades, facilmente a história que mais me impressionou em todo o livro (se algum conto neste livro merece a alcunha de weird, certamente é este); e Crossing Into Cambodia, do Michael Moorcock, uma releitura de O Coração das Trevas passada na terceira guerra mundial, claramente inspirada por Apocalipse Now. The Braining of Mother Lamprey, de Simon D. Ings, é outro bom momento, uma viagem de fantasia urbana caótica, com algumas das passagens mais bizarras e divertidas que eu já li em histórias fantásticas; bem como The Neglected Garden, de Kathe Koja, uma história de suspense bizarro à lá Stephen King.

A segunda parte, Evidence, é onde encontramos os autores identificados com a new weird propriamente ditos. Em geral, no entanto, não achei esta parte tão interessante quanto a anterior – há alguns bons momentos, principalmente nas histórias com monstros espantosos e bizarros, mas ela sofre um pouco daquele mal de coletâneas: as histórias são curtas demais para você se envolver o bastante com elas, e algumas são ainda longas demais para passar apenas por leitura de banheiro. Outro problema é que alguns dos contos são na verdade excertos de obras maiores, de forma que você fica bastante perdido sobre o que está acontecendo. Há alguns bons destaques, no entanto: Jack, de China Miéville, revisita o seu cenário tradicional de Bas-Lag para contar a história do maior herói da mertrópole New Crobuzon – é uma história interessante, que questiona o próprio papel de heróis em uma sociedade, mas não achei ela tão instigante e envolvente quanto os romances do autor; Watson’s Boy, de Brian Evenson, lembra aqueles contos e mundos labirínticos do Jorge Luís Borges; At Reparata, de Jeffrey Ford, apesar do ambiente medieval mais tradicional, tem personagens criativos, um monstro legal e uma história envolvente e cativante; The Ride From the Gabbleratchet, de Steph Swainston, mesmo sendo um excerto sem começo nem fim, vale pelos monstros e paisagens fantásticas; e The Gutter See the Light That Never Shines, de Alistair Rennie, apresenta uma cidade fantástica repleta de psicopatas bizarros.

A terceira parte, Symposium, é a mais decepcionante. A premissa era a de ter alguns autores e críticos comentando sobre a new weird, o que ela é e os seus elementos mais marcantes; na prática, no entanto, a maioria dos artigos acaba se estendendo demais em questionar e responder até que ponto vale a pena criar um rótulo novo e por que aderir a ele, repetindo os mesmos argumentos que já aparecem no texto que abre este pedaço do livro, este sim bastante interessante e relevante, uma transcrição editada das discussões entre autores no forum Third Alternative que levaram à criação do termo (e que podem ser lidas na íntegra, em inglês, aqui). A exceção fica para o ótimo texto de Darja Malcom-Clarke, Tracking Phantoms, que fala sobre alguns dos elementos que se tornaram identificados com o gênero, especialmente a estética do grotesco e a mistura de gêneros.

Por fim, fecha o livro o Laboratory, com a história Festival Lives, um experimento coletivo em que um grupo de autores de fantasia tradicional foram chamados a escrever em turnos uma história a partir do que eles entendiam como new weird. O resultado é interessante, embora sofra um pouco de falta de foco – cada escritor seguiu por um caminho diferente as idéias apresentadas pelos anteriores, adicionando elementos e personagens novos e avançando o enredo de forma indireta ao invés de linear. É um pouco estranho de acompanhar, mas no fim até que é uma leitura interessante, especialmente para quem gosta de cidades fantásticas e criaturas bizarras.

Em geral, The New Weird é um livro interessante para quem gosta de literatura fantástica e quer descobrir que é possível ser original e autoral dentro do gênero, fugindo daquela mesmice dos clones tolkenianos. Como toda coletânea de vários autores, é mais um ponto de partida do que de chegada, mas é um ótimo ponto de partida – eu, pelo menos, ganhei uma boa quantidade de autores para procurar assim que o dólar voltar a um patamar razoável. A grande decepção mesmo é perceber que um movimento literário tão prolífico lá fora não demonstra qualquer eco em terras tupiniquins, onde nenhuma obra associada foi lançada e poucos se propõem a escrever a partir das idéias que eles apresentam. Fica aí a bronca para as editoras nacionais.

O Silêncio

Com calma, cuidadoso, o viajante conferiu a regulagem da roupa de proteção. Em meio à vastidão silenciosa que o cercava, um único erro poderia ser fatal; sem problemas aparentes, seguiu atrás do guia, flutuando pelo vácuo sonoro. A profunda imensidão daquela ausência de som era melancolicamente poética. Milhares de anos-béis havia em todas as direções antes que se pudesse sentir o menor sinal de uma onda sonora viajando pelo espaço.

O guia parou subitamente, e fez um sinal para dobrarem. O viajante tentou segui-lo, usando de toda a destreza possível no desajeitado traje de sononauta, mas um rasgo se abriu na roupa, deixando-o desprotegido contra a fluxo de som que fugiu para a região. Sentiu o grito correndo pelo corpo, subindo em direção à garganta, fazendo os lábios tremerem com a sua aproximação; a face se contorceu, desesperada – bastavam mais alguns segundos e não seria possível segurá-lo.

Mas o guia se aproximou, tapando o buraco com a mão e logo fechando-o com uma mordaça adesiva. O viajante suspirou aliviado, e seguiu adiante na viagem guiada por aquele infinito silencioso.

Hegemonia: O Herdeiro de Basten

11016110Uma das coisas que eu considero mais curiosas dos hoje míticos anos 80 foi a profusão de desenhos animados que misturavam quase sem pudor temas de ficção científica e fantasia. Não digo que fosse então uma mistura nova – autores como Jack Vance já faziam isso com pelo menos uma década de antecedência, séries mais antigas como Os Herculóides e Galaxy Trio também, e acho que dá pra remontar ela ainda desde as histórias do Flash Gordon publicada em jornais nos anos 30, se não antes, numa época em que FC e fantasia ainda não eram gêneros tão canônicos e divididos a ponto de intimidar quem quisesse cruzá-los -, mas não deixo de achar interessante a forma como eles se expandiram como praga naquela década, de He-Man e os Mestres do Universo a Thundercats e Silverhawks. É um chute longo, mas imagino que tenha algo a ver com o mega-sucesso do primeiro Guerra nas Estrelas ainda no fim dos anos 70, que também promovia uma fusão semelhante, tanto que ainda hoje há quem se recuse a considerar a saga de George Lucas propriamente como uma ficção científica.

Corte de vinte anos, então, e chegamos a Hegemonia: O Herdeiro de Basten, de Clinton Davisson, que, apesar do nome, é brasileiro. Também ele investe numa mistura semelhante, colocando dragões cuspidores de fogo ao lado cruzadores espaciais, e guerreiros espadachins vestindo armaduras ultra-tecnológicas. É difícil ler as descrições das diferentes civilizações do planeta Elôh, dos soberanos de Basten às cidades dos frânios e as vilas dos gelfos, e não pensar de alguma forma em Eternia, com seus reis, rainhas e príncipes medievais desfilando em tanques e naves e portando armas de raios. E eu digo isso no bom sentido, é claro, como alguém que cresceu vendo estas séries animadas – não consigo ler uma história assim sem sentir um certo gostinho de nostalgia na boca -, e tem um gosto assumido pelo pastiche.

A forma como se dá essa fusão é bastante interessante, extrapolando aquela máxima do Arthur C. Clarke segundo a qual toda tecnologia suficientemente avançada é indistingüível de magia. A tecnologia da Hegemonia, o vasto império galáctico governado pela raça dos disonianos, certamente é assim, capaz feitos notáveis como a esfera de Dison, uma espécie de casco construído em volta da estrela da capital do império de forma a maximizar a captação da sua energia; as macronaves, embarcações espaciais com quilômetros de comprimento e poder de fogo suficiente para destruir planetas e estrelas; e as dermas, as avançadas armaduras de bio-tecido usadas pelos disonianos, que conseguem ter mais funções disponíveis que um celular moderno. Todo o cenário do livro, aliás, é repleto de idéias interessantes que extrapolam conceitos científicos de forma imaginativa, como o anel incandescente em torno de Elôh, que o mantém em um dia eterno e causa diversas anomalias gravitacionais, ou as diversas espécies de criaturas fantásticas, das superlativas gulitemas às sereias merfolks.

Mas é claro que o livro não se resume apenas a uma abordagem fantástica da ficção científica. O autor também se propõe a discutir de maneira crítica diversas questões sociais mais sérias, que são evidenciadas já nas duas páginas de epígrafes que abrem a obra, citando trechos de Gramsci, Morin e McLuhan entre alguns autores de ficção. A Hegemonia é descrita como um império vasto e avançado, mas também decadente, e as contradições e divisões internas são expostas constantemente ao protagonista, que reflete e divaga a respeito. Outro tema constante é a comunicação, e especialmente a falta dela, geralmente com conseqüências catastróficas.

O grande problema de O Herdeiro do Basten é a narrativa. O livro é escrito como um diário neural, um aplicativo embutido na armadura do protagonista Ron Schwolen, príncipe do reino provinciano de Basten enviado à capital Dison como estudante, a partir da qual ele grava seus pensamentos e reflexões em tempo real. Até há alguns pontos bem positivos nessa narração em primeira pessoa e no tempo presente, como uma espécie de fluxo de consciência; é interessante acompanhar o choque entre a sua formação racionalista e “Dison-cêntrica”, por assim dizer, e a realidade que ele encontra ao retornar à terra natal após algumas decepções pessoais, que o leva a questionar suas convicções e visão de mundo. No entanto, também não deixa de ser um pouco estranho imaginar alguém que consiga pensar de forma tão analítica e articulada em meio a momentos tensos como uma discussão acalorada com o irmão ou um combate contra um exército de dragões; qualquer um que já tenha se envolvido em situações semelhantes sabe que as coisas não funcionam dessa forma, e, por mais que seja óbvio que foi uma necessidade narrativa, não deixa de soar um pouco artificial da mesma forma. Não ajuda muito também a linguagem utilizada, especialmente nos diálogos, que parecem ter um sotaque lusitano com seus “vou estar a fazer”, e colabora bastante pra essa impressão de artificialidade que eu tive em muitos momentos.

O enredo também dá uma derrapada no final, quando precisa acelerar alguns acontecimentos para concluir a história e apresentar algumas soluções que parecem meio sacadas de última hora, mas em geral consegue ser bastante interessante e bem encadeado, apresentando a típica jornada de exploração do mundo das histórias de alta fantasia e romances planetários, junto com a jornada individual de amadurecimento e auto-conhecimento do protagonista, algo bem Joseph Campbell. E há, por fim, dois apêndices que fecham o livro, com um pequeno glossário de termos da Hegemonia e um mini-dicionário da língua dos dragões. O primeiro, talvez, poderia ser mais completo; muitos elementos interessantes que aparecem no livro e poderiam ser aprofundados não estão lá, enquanto outros termos e explicações parecem não ter tanta relevância para a história contida no volume. E o segundo vale mais por curiosidade mesmo, já que não possui muita utilidade além de ajudar a desvendar uma referência escondida a Star Wars.

De maneira geral, Hegemonia: O Herdeiro de Basten é uma obra bastante interessante e criativa, e que eu gostei de ter lido. Alguns problemas mais formais impedem que eu a recomende com veemência, mas acho que merece uma lida, não só para valorizar todo o esforço que é necessário para uma obra nacional de gênero ser publicada, mas também porque há, sim, bastante a se gostar nela. E, talvez o mais importante, ela consegue despertar a curiosidade para o mundo de Hegemonia, deixando boas possibilidades de desenvolvimento em aberto para os volumes seguintes, já que o projeto do autor, conforme destacado na orelha do livro, é de estendê-la em duas trilogias.

Blues Blues Blues

jimmyrogers-bluesbluesbluesfrontÀs vezes algumas pessoas têm tendência em considerar o blues uma música um tanto simplória demais. Não culpo elas: é de fato uma música simples, feita por pessoas simples, em geral sem uma educação musical formal, com uma série de fórmulas típicas e manjadas; grosso modo e nas devidas proporções, dá até pra dizer que é uma espécie de funk dos anos 40 e 50. No entanto, é justamente essa música simples e manjada que está nas raízes do rock e todas as suas vertentes, e, assim, de todo o paradigma da música popular ocidental na segunda metade do século XX.

A questão que alguns parecem ignorar é que é justamente essa simplicidade a maior virtude do estilo – é uma música fácil de tocar, basta ter algum suingue e ritmo na batida das cordas, e que tem resultados mais ou menos garantidos uma vez que se entenda essa simplicidade; Eric Hobsbawn já destacava, no seu clássico livro sobre a história do jazz, que a escala tradicional de blues é essencialmente expressionista, e não vejo onde discordar. Quem toca blues não está interessado em explorar todas as expressões das tonalidades musicais, nem em fazer experimentos eruditos, nem em ir atrás de novas formas de fruição estética ou elevação intelectual; está interessado apenas em tocar, livre e espontaneamente. Qualquer um que entenda do estilo vai dizer que um bom blues não se toca com as mãos, mas com a alma; à parte pela pseudo-religiosidade, não é uma afirmação de todo exagerada. O importante, e a graça no estilo, não está em encontrar todas as notas no lugar certo, num arranjo perfeitinho e bem acabado, mesmo que cuidadosamente dissontante – está em encontrar as notas lá, do jeito que estão, como simplesmente saíram na hora em que os músicos se reuniram para tocar.

Por isso, não é incomum encontrar em discos de blues as mesmas e mesmas músicas, por vezes até tocadas pelos mesmos artistas. Uma música que é marcante na carreira de um músico pode ficar completamente diferente nas mãos de outro, ou até nas do mesmo em um momento diferente; dificilmente duas gravações serão rigorosamente iguais, nota por nota. Há espaços demais para a expressão pessoal, para esticar o bend em um solo, ou adicionar um slide onde havia um hammer-on, ou abafar as notas de um acorde de base, ou usar um timbre diferente de guitarra, ou qualquer outra possibilidade; é quando está sem essa expressividade que o blues realmente fica um tanto simplório, com melodias e harmonias comuns e manjadas.

O que nos leva, então, a esse Blues Blues Blues, do lendário guitarrista Jimmy Rogers, que fez parte da formação clássica da banda de Muddy Watters, reunido com um grupo bastante seleto de estrelas admiradoras. É um álbum marcante por uma série de razões – por exemplo, por ser o último gravado pelo guitarrista, completado pouco tempo depois da sua morte; ou então por todas as estrelas reunidas, de Eric Clapton a Robert Plant & Jimmy Page a Mick Jagger & Keith Richards a um punhado de outros; ou apenas pelo repertório de clássicos escolhidos, como Blow Wind Blow, Everyday I Have the Blues, Sweet Home Chicago, Worried Life Blues e outros tantos. Enfim, uma grande festa de blues, onde todos se divertem e fazem o que gostam mais do que qualquer outra coisa. Quem não vê graça no estilo dificilmente vai achar qualquer graça no disco; felizmente, no entanto, o meu caso é o extremo oposto.

O Grande Globalizador

3396965440_67acdc2a84O mundo, como qualquer um que não esteja vivendo os últimos meses em uma cápsula de proteção contra um holocausto de zumbis sabe, está em um período de crise. Os pessimistas dizem que é o apocalipse definitivo do capitalismo internacional, enquanto os otimistas dizem que é só a pior crise econômica desde 1929. É o momento de olhar para trás e lavar a roupa suja, apontando os erros de política econômica internacional nos últimos vinte, trinta ou mesmo oitenta anos, e criticando e demonizando abertamente o neo-pós-novo-ultra-power-liberalismo, o crédito virtual, a especulação financeira, a globalização da economia, o comércio livre, a Alca, o FMI, a direção do Grêmio, o técnico da Seleção, etc, etc, etc.

E é, também, o momento de parar por um instante, e refletir e questionar outros elementos do mundo em que vivemos. Pois a mesma globalização que transforma uma crise local em mundial em poucos dias afetou também a nossa cultura em dúzias de outras formas. Hoje, você pode conversar com um amigo virtual indonésio sobre um videogame japonês que os dois conhecem e jogaram, criticar uma nova banda alemã por plagiar os grandes nomes do rock inglês, ou mesmo ler as regras da última sensação do RPG norte-americano enquanto come um Big Mac no centro de uma cidade brasileira. Você pode estar em Tóquio ou em Berlim, e estranhamente se sentir no mesmo local; talvez visite uma loja de histórias em quadrinhos na primeira e os restos de um muro pichado em outra, mas ainda assim verá os mesmos prédios de concreto e vidro, o mesmo asfalto escuro, os mesmos carros em cores neutras, as mesmas multidões sóbrias andando apressadas de um lado para o outro. O mundo globalizado é, em certo sentido, o mundo uniformizado.

Há um elemento, no entanto, que supera todos os outros pelo seu poder uniformizador. O grande globalizador, afinal, não é o McDonald’s ou a Coca-Cola, nem o Tom Hanks ou o Naruto; o maior de todos os globalizadores é um só: o catchup.

Sim, o catchup, este molho de peixes de origem oriental que, no início do século XIX, passou a ser feito com tomates nos Estados Unidos, e hoje é onipresente na cozinha ocidental. Esqueça o símbolo e o seu alcance internacional, no entanto; o seu poder globalizador vai mesmo além deles, e atinge a sua própria função prática enquanto condimento. A comida, afinal, é como a cultura – possui dezenas de sabores e gostos diferentes, é mais rica na diversidade, e é mesmo capaz de se misturar para dar origem a novas e impensáveis possibilidades gastronômicas. Você não vai à África atrás de retiros espirituais, nem à Índia para ver girafas e leões; da mesma forma, não come chocolate quando quer um salgado, e nem um cachorro quente na sobremesa.

No entanto, coloca catchup para tirar o gosto forte de calabresa no salgado que comprou na padaria, e enche dele até as bordas o cachorro quente que comprou na barraquinha da esquina. Você pode ir a qualquer restaurante no mundo e colocar catchup na comida, e assim uniformiza os sabores e destrói a sua individualidade, tirando-lhes o direito de serem únicos e jogando-os todos no mesmo paladar global. E então já não importa se é uma pizza portuguesa ou mussarela, ou se pediu um xis-bacon ou xis-galinha: você está saboreando, efetivamente, o catchup.

Pense bem, portanto, na próxima vez que for colocar catchup na sua porção de batatas fritas. Não é apenas um ato culinário, como pode parecer em um primeiro momento; é um ato político, e não deve ser feito levianamente.

Fuga de Valkaria

Arton, ano 1411 do Calendário Élfico. A Aliança Negra invadiu o sul do Reinado, tomando a maior parte do território de Tyrondir, além de pedaços de Ahlen e Wynlla. Em meio a esse momento crítico, o rei-imperador Thormy morreu em condições misteriosas, enquanto sua filha e legítima herdeira, a princesa Rhana, ainda se aventurava por Arton, com paradeiro exato desconhecido. Para assumir o trono até o seu retorno, foi nomeada uma junta de nobres de Deheon sob comando do regente interino Johann Stratsburg. Muitos reinos, no entanto, não aceitaram a nova regência, e se rebelaram contra o domínio de Deheon; liderados por Yuden e Tapista, formaram uma aliança que ameaça invadir e conquistar o reino central. Esperam apenas um momento de fraquejo do governo interino para iniciar o ataque.

O maior golpe sofrido por Deheon, no entanto, foi interno. Sem a força dos séculos de tradição da família real, a junta de governo não foi capaz de ganhar a confiança o povo da capital Valkaria, que se reuniu em torno de diversos pequenos líderes marginais e se revoltou. O regente interino respondeu com força, apertando as leis reais, diminuindo a liberdade do povo, e aumentando a repressão, o que resultou em revoltas cada vez mais violentas; a situação chegou a tal ponto que foi necessário para a junta de governo fugir da cidade e estabelecer uma nova capital na cidade-fortaleza de Stratsburg, ao norte, enquanto um grande muro de pedra foi erguido magicamente por dezenas de magos reais para impedir que os revoltosos saíssem.

Valkaria é hoje uma prisão – a maior de todo o Reinado. A junta de governo manda para lá seus presos políticos e outros que perturbem a ordem do reino, abandonando-os à própria sorte. Uma grande bolha mágica foi invocada em torno da cidade para impedir que qualquer tipo de feitiço de dentro tenha efeito do lado fora, e vice-versa. Guardas de elite montados em grifos patrulham os céus, enquanto outros percorrem dia e noite a extensão das muralhas com permissão para matar todos os que tentarem fugir. Muitos já tentaram. Nenhum conseguiu.

Até agora.

****

As tochas nas paredes pouco iluminavam o grande corredor de pedra, por onde os cinco homens caminhavam. Atrás e dos lados, soldados do exército real de Deheon, as cotas de malha refletindo a luz das chamas, bestas carregadas em punho prontas para disparar ao menor sinal reação. À frente, no centro, um único homem: alto, o porte de um atleta, vestindo calças e botas negras, um colete de couro sem mangas e um colar de ferro negro apertado no pescoço, com os cabelos loiros caindo até os ombros, barba por fazer, um único olho azul e um tapa-olho negro do lado esquerdo. Estava algemado e andava apressado pelos guardas, com uma expressão indisfarçada de aborrecimento no rosto.

Os cinco entraram em uma sala à direita do corredor. O homem de tapa-olho se sentou em uma cadeira, enquanto os soldados saíram, fechando a porta atrás de si. À frente da cadeira estava uma mesa iluminada por uma pequena esfera de vidro brilhante, e atrás dela um homem musculoso portando uma armadura de placas olhava para o prisioneiro.

– O grande Cobra Klespin. – disse o homem de armadura, num tom claro de ironia.

– E você é o grande quem? – as palavras saíam devagar, desgostosas, da boca do prisioneiro.

– General Rauk. – o general baixou os olhos e observeu as folhas de pergaminho na sua frente. – Você era um herói. Fez parte do Protetorado. O que aconteceu?

– Cansei de ser herói.

– Posso ver. Perturbação da ordem, brigas em público, participação em torneios clandestinos, porte ilegal de armas… Apenas para ficar nos mais comuns.

– Eu tenho andado ocupado.

– Já pensou em se redimir, Klespin?

– Me chame de Cobra.

– Responda a pergunta. Já pensou em se redimir?

– Já. Mas aí eu mudei de idéia.

– Eu tenho uma proposta que pode interessá-lo.

– Não estou interessado.

– Ouça a proposta primeiro. Temos fontes que indicam que a Princesa Rhana está em Valkaria.

– Não parece muito inteligente da parte dela.

– Acreditamos que ela já estivesse lá quando o governo foi transferido para fora e a muralha erguida em torno da cidade. Não sabíamos até recentemente. Tirá-la de lá e entroná-la como é seu direito pode ser o que o reino precisa para se estabilizar.

– E como vocês esperam fazer isso?

Um sorriso discreto do general foi resposta suficiente.

– E por que eu? – continuou Cobra. – Por que não mandar o Protetorado?

– Nós mandamos. Eles não retornaram.

– E por que eu deveria aceitar?

– Nós lhe garantimos o perdão completo de todos os seus crimes, e a retirada imediata de todas as recompensas pela sua cabeça.

– Não estou interessado.

– Recuse e você será mandado para Valkaria da mesma forma, mas como um prisioneiro comum e sem possibilidade de retorno.

– Parece bom para mim.

– Você não está entendendo, Cobra. – o general olhou seriamente para o prisioneiro. – Você não acha que nós damos estes colares de presente para todos os prisioneiros, acha?

Cobra arregalou o olho, surpreso. Levou as mãos algemadas até o colar que recebera junto com as algemas, e que pensava ser apenas um meio de identificação: ao simples toque ele apertou mais forte contra o pescoço.

– É amaldiçoado!

– Exatamente. Ele está lentamente apertando o seu pescoço até o ponto em que você será estrangulado. Você tem cerca de 10 horas. Qualquer tentativa de retirá-lo apenas o fará apertar mais forte e mais rápido. E não tenha esperanças de encontrar qualquer mago em Valkaria com poder suficiente para removê-lo; se não foram capazes de vencer nossa bolha anti-mágica, também não serão capazes de anular a maldição.

Em um surto de raiva, Cobra pulou sobre Rauk, tentando agarrá-lo com as mãos; elas apenas atravessaram o corpo do general.

– Eu imaginei que você tentaria algo assim. – em outra sala, o general falava calmamente em uma mesa, tendo à sua frente uma esfera de vidro semelhante à que estava em frente ao prisioneiro. – Quando estiver pronto, avise os guardas do lado de fora para continuarmos com os preparativos. Lembre-se de que você é quem tem a maior pressa em completar a missão.

Cobra se levantou e se dirigiu à saída. Antes de abrir a porta, no entanto, parou.

– Torçam para que eu não retorne. – então a abriu, e saiu.

****

– É bom que você esteja familiarizado com o equipamento que estamos fornecendo. – o jovem mago apontava para os vários itens sobre a mesa, enquanto Cobra observava com uma expressão de aborrecimento. – Esta é uma besta de mão de repetição. Você pode segurar o gatilho e seguir disparando até que acabem as setas na carga. Você terá três cargas ao todo, incluindo a primeira.

– Eu sei como funciona. – Cobra pegou a arma, estudou-a por alguns instantes, e prendeu-a no cinto, no lado direito.

– Ótimo. – o garoto pegou uma pequena espada com o cabo coberto de runas. – Uma espada curta mágica. É ágil e fácil de guardar. As runas sobre o cabo aumentam a força e a profundidade dos golpes, fazendo com que o dano seja semelhante ao de uma espada bastarda.

Cobra prendeu a bainha no cinto, no lado esquerdo, e guardou a espada.

– O que são estes aqui? – Cobra apontava para um par de pequenos frascos de vidro sobre a mesa.

– Muito cudiado com estes! – o mago se apressava em afastar as mãos do prisioneiro dos frascos. – São um produto alquímico especial. Agite o frasco algumas vezes e ele explodirá em poucos segundos. Você pode arremessá-lo para atingir vários oponentes de uma só vez.

Cobra pegou os frascos com cuidado e guardou-os no cinto, pouco a frente da besta de repetição, certificando-se de que estavam bem presos.

– Este aqui é muito importante. – o mago entregou um anel para Cobra. – É um anel de elo telepático. Permitirá que você fique em contato com a nossa equipe do lado de fora da muralha. É também o fetiche que nos permitirá localizá-lo através da bolha anti-mágica. Não o tire sob hipótese alguma.

Cobra pegou o anel, e colocou no dedo anular esquerdo.

– Leve também este bracelete. Ele contém uma carga de um feitiço de cancelamento. Apenas diga as palavras magius sumis e qualquer feitiço que esteja funcionando sobre você irá cessar seus efeitos. – o mago pausou por um instante, então completou: – E não o gaste tentando retirar o colar, não irá funcionar.

Cobra examinou o bracelete por alguns instantes, então decidiu prendê-lo na canela direita, escondido sob a calça.

– Como eu entrarei na cidade?

– A bolha mágica sobre Valkaria será baixada por alguns instantes, tempo suficiente para que você seja teletransportado por um ritual mágico até um ponto seguro.

– E como eu voltarei quando estiver com a princesa?

– Vá até a estátua de Valkaria e lance um sinal mágico. – o mago entregou um pergaminho a Cobra, que o guardou em uma bolsa presa na calça. – Basta ler o pergaminho. Um soldado montado em um grifo irá resgatá-los em poucos minutos, mas apenas se você estiver com a princesa.

– E como eu saberei que ele não vai levar apenas a princesa?

– Você terá que confiar em nós.

Cobra foi levado até uma sala iluminada pelo brilho de um círculo ritual desenhado no seu centro. A um sinal do general Rauk, caminhou até o centro do círculo e esperou que os magos em volta começassem a entoar seus cânticos místicos. Um clarão de luz preencheu a sala e, quando se apagou, ele não estava mais lá.

****

Surgiu em um clarão de luz em uma área escura, sem qualquer iluminação além das luzes de patrulha dos cavaleiros em grifos pelos céus. Era possível distinguir na noite apenas a silhueta de pequenas casas esféricas de pedra. Cobra conhecia o local: a Favela Goblin, imunda e perigosa ainda quando Valkaria era a próspera capital do Reinado, certamente aindas mais agora que era uma prisão isolada do mundo e abandonada à própria sorte. Não pretendia esperar para confirmar o pensamento: sacou a espada curta da bainha e, sem baixar a guarda, caminhou apressado em direção ao bairro vizinho. Podia sentir os olhos que o seguiam a cada passo, esperando apenas uma brecha para atacar; quando percebeu que estava a poucos metros da saída, começou a correr, e logo passou a ser perseguido pelos sons de passos desordenados e gritos guturais.

Saiu da favela ainda correndo, dobrou por uma ruela iluminada por pequenas piras incandescentes em postes e seguiu adiante, até ser parado subitamente por um impacto inesperado.

– Ei! Olhe por onde anda! – um homem diminuto caído no chão reclamava do esbarrão. Uma capa esverdeada cobria-lhe o corpo arredondado, deixando apenas os pés peludos à mostra. – Espere um pouco… Eu conheço você! Você é Cobra Klespin! Cara, você era um herói!

– Estou ficando cansado de ouvir isso.

– Recém chegado? Eu posso ajudar você! Você vai precisar de um guia pela cidade, não tem noção de como isso aqui mudou!

– Não estou interessado. – e virou as costas para o halfling. Antes de seguir, no entanto, se voltou de novo para ele. – Você sabe alguma coisa sobre a princesa Rhana?

– A princesa? Mas é claro! Chegou faz alguns meses. Tentou reunir um grupo de seguidores para fugir da cidade, mas acabou virando uma das prisioneiras de Yedal.

– Yedal?

– Glastul Yedal. Ex-gladiador da Arena Imperial. Depois que Valkaria foi fechada para o mundo exterior, reuniu uma gangue e governa toda a área em volta do velho estádio.

Cobra se virou em silêncio e começou a caminhar. O halfling foi atrás dele.

– Ei, espere um pouco! Você precisa de mim, cara! Não tem noção de como isso aqui está diferente! Tudo está de pernas pro ar! Veja só os tamuranianos, por exemplo. Você achava que eles resistiriam a tudo, apoiados em todas aquelas tradições babacas? Claro que não! Foi só o antigo líder deles morrer que tudo foi por água abaixo, o crime tomou conta, e três grupos diferentes dividiram o bairro entre si. Qualquer um que não tenha os contatos certos não dura dez minutos lá dentro.

– Eu não pretendo passar por lá.

– Então deixe-me levá-lo até a Arena Imperial, se é onde você quer ir. Eu conheço um atalho, desde que você saiba andar em silêncio.

Cobra parou e sacou rapidamente a espada curta da bainha.

– Leve-me. – disse, apontando a lâmina na direção do pescoço do halfling.

– Ei, ei, calma aí, cara! Você não precisa disso, eu já disse que ia te levar, certo? – Cobra guardou a espada. – Venha por aqui. A propósito, meu nome é Bill. Bill Botas-Rápidas. – Bill seguiu para o oeste, e Cobra seguiu atrás.

****

– Cobra. – a voz ressoava na cabeça de Cobra, vindo de direção nenhuma. – Cobra!

– Quem é? – respondeu com desgosto, já entendendo o que acontecia.

– Aqui é o general Rauk. Estamos nos comunicando através do anel telepático.

– O que você quer?

– Como está indo a missão?

– A princesa está na Arena Imperial. Estou indo para lá agora.

– Ótimo.

– Fale que eu estou aqui. – era uma voz distante, fraca.

– Quem está aí?

– Sinta-se honrado, Cobra. A sua missão está sendo acompanhada pessoalmente pelo regente interino, o Lorde Johann Stratsburg.

– Espero que saiba o quão importante a sua missão é para Deheon e todo o Reinado. – o regente agora falava alto, de forma pomposa e bem articulada. – Contamos com você.

– Foda-se Deheon. Foda-se o Reinado. – Cobra respondeu de forma áspera. – Eu só quero tirar esta porcaria do meu pescoço.

– O que será feito assim que você retornar com a princesa. Boa sorte. – e o elo foi interrompido.

****

Cobra e Bill seguiam sorrateiros na escuridão. Ao fundo, um conjunto de torres negras se lançava ao céu, mesclando-se de forma anti-natural à paisagem: as paredes atravessavam muros, árvores, casas, como algum tipo de colagem; ao redor, voavam morcegos, corvos e criaturas que não deveriam existir. Brilhos de luz surgiam e apagavam de suas janelas constantemente, e de tempos em tempos um grito estridente cortava a noite.

– Muito cuidado. Não faça qualquer barulho. Você não vai querer que eles nos encontrem. – disse Bill, se escondendo entre a vegetação.

– Você é quem está fazendo barulho. – Cobra seguia atrás, agachado sob a grama alta. – Quem são “eles”?

– Magos. Ex-alunos da Academia Arcana. Quando a Aliança Negra conquistou a maior parte do sul do Reinado e a junta de nobres foi obrigada a assumir o governo de Deheon, eles pressionaram o Mestre Máximo da Academia para utilizar os recursos da instituição como forma de pesquisa de equipamentos bélicos. Um dos experimentos foi especialmente desastroso: Talude e os professores mais antigos desapareceram, e o semi-plano da Academia foi grotescamente mesclado a uma parte de Valkaria.

– E os garotos mágicos enlouqueceram.

– Exatamente. Muitos não sobreviveram à loucura que virou Valkaria desde que foi transformada em prisão. Os outros pesquisam desesperadamente nas dependências da antiga escola por uma forma de sair da cidade, buscando toda fonte de poder mágico que possam encontrar, desde itens encantados até sacrifícios humanos consagrados à entidades demon…

Bill parou subitamente, sem completar a frase. Cobra tentou se mexer, mas os músculos não respondiam; era como se estivessem acorrentados a uma rocha com dezenas de toneladas. Com muito esforço, conseguiu virar o rosto para o lado, onde um pequeno ser encapuzado apontava as mãos contorcidas para ele. Então veio a pancada na cabeça, e tudo ficou escuro.

****

– Senhor, estamos com problemas. – disse o jovem mago que olhava para esfera de vidro. – Não consigo localizar Klespin.

– O que aconteceu? – perguntou o regente Stratsburg, apreensivo.

– Ele deve ter retirado o anel telepático.

– Ou retiraram o anel dele. – o general Rauk continuava calmo. – Alguma das gangues da cidade deve tê-lo feito prisioneiro.

– E o que ele irá fazer? – era o regente.

– Confie em Klespin. Ele já escapou de situações piores.

– Talvez seja melhor enviar o exército, como era o plano original.

– Não. Uma brecha na bolha grande e duradoura o suficiente para que um exército seja teletransportado será logo percebida, e dezenas de presos escaparão. Além disso, nós não sabemos como eles reagirão. Você não pode esquecer que eles estão com aquilo.

– Talvez ainda nem saibam o que é.

– Não podemos correr riscos. Temos que confiar em Klespin… Pelo menos por enquanto. – o general olhou novamente para a esfera de vidro, na esperança de que algum milagre fizesse o prisioneiro aparecer novamente.

****

Cobra acordou com um súbito aperto contra o pescoço. Estava sobre uma maca de madeira, sem os equipamentos com que havia chegado na cidade. Ao seu lado, de pé, havia um homem com um manto negro segurando uma adaga na mão esquerda; seu rosto era coberto de marcas, cicatrizes abertas e manchas escuras e avermelhadas. Próximo a uma parede, seis garotos com mantos e marcas semelhantes no rosto observavam os dois.

– Vejo que acordou. – o homem ao lado falava sussurando, deixando as palavras se misturarem com o vento. – Você veio bem equipado para cá. – e apontou para os itens sobre uma mesa atrás de si: o anel de elo telepático, a besta de repetição com as cargas, a espada com o cabo coberto de runas, os dois frascos de poção alquímica, o pergaminho com o feitiço sinalizador. – Mas todos estes são inúteis! Peças simples, encantamentos baratos! Agora, este colar… Este colar de ferro no seu pescoço, esse sim parece interessante. Sinto muito poder mágico nele. Se de alguma forma conseguirmos canalizar essa energia, talvez possamos vencer a bolha anti-mágica em volta da cidade, e finalmente sair daqui!

Cobra tentou se debater, mas não conseguia se mover.

– Não tente. Você está sob efeito de um feitiço paralisante. – continuou o homem de aspecto asqueroso. – Infelizmente, não conseguimos remover a maldição que impede o colar de ser retirado do seu pescoço. Cada vez que tentávamos ele apenas apertava mais forte. Assim, teremos que fazer isso à moda antiga. – o homem aproximou a adaga do pescoço Cobra, que pôde sentir o cheiro de podridão e pus que exalava da sua pele. – Sinto muito, não é nada pessoal. Alguma última palavra antes de perder a garganta?

– S-sim… – Cobra falava com dificuldade. – Magius sumis!

Um pequeno círculo brilhante apareceu sob sua calça, na região da canela direita, e logo sumiu. Cobra podia se mexer; agarrou a mão do homem com a adaga e o fez perfurar a própria garganta, jorrando sangue podre. Os outros garotos hesitaram por um instante antes de começar a recitar cânticos e realizar gestos; foi tempo suficiente para Cobra pegar a besta de repetição na mesa e derrubar a todos com uma única rajada de setas. Então pegou o cinto com as armas e a bolsa com o pergaminho de sinalização e saiu da sala.

– Ei, Cobra, me tire daqui! – era Bill Botas-Rápidas, amarrado na parede do lado de fora. Cobra o ignorou e seguiu adiante. – Vamos, cara, me tire daqui! Eu sei como sair daqui, você precisa da minha ajuda!

Voltou e cortou as cordas que prendiam Bill. Um grupo de garotos encapuzados bloqueou a saída para o corredor; Cobra derrubou os que estavam à frente com outra rajada de setas e correu por entre os outros, empurrando-os e derrubando-os contra as paredes. Seguiram até o lado de fora da torre e foram em direção à escuridão.

– Espere, Cobra, não vá por esse lado! – Bill gritou.

– Por que não?

– Para lá fica a Floresta dos Elfos. – Bill corria para alcançar o companheiro. – A antiga Vila Élfica, totalmente engolida pela vegetação. Acredite, você não quer ir para lá. Os elfos são piores que os tamuranianos, não aceitam que ninguém entre no seu território. Até mesmo os magos da Academia evitam o local.

Uma pequena explosão atingiu o chão próximo a Bill. Os dois olharam para trás e viram outro grupo de garotos encapuzados correndo na sua direção; Cobra disparou mais uma rajada de setas, derrubando os primeiros deles antes que a carga acabasse.

– Parece que não temos muita escolha. – bradou Cobra, seguindo adiante e adentrando a floresta. Bill hesitou, mas logo foi atrás.

A vegetação da floresta era alta e intrincada – um labirinto de galhos, ramos, arbustos e folhas, que tornava impossível manter uma mesma direção por mais do que alguns passos na escuridão da noite. Mas não pareciam estar sendo seguidos.

– Aaaaahhh! – Bill gritou de repente, alertando Cobra; ele virou para trás e encontrou o halfling preso em uma armadilha de cipós. Deu um passo na direção dele e sentiu um puxão na perna, levantando-o também do chão e deixando-o de ponta-cabeça. Então ouviu alguns passos se aproximando na vegetação.

– Ora, ora… Se não é o grande Cobra Klespin.

– Essa voz… – Cobra tentava se virar no cipó que prendia sua perna. – Certeira como sempre… Selena.

****

– Então nós fomos enviados a Valkaria para salvar a princesa Rhana? – a humana falava em um tom incrédulo, vestindo uma capa e um capuz esverdeados que cobriam parte do seu rosto e tronco, mas deixando à mostra a barriga com um brinco dourado no umbigo.

– Foi o que me disseram. Há outra versão? – Cobra falava sob o olhar desconfiado de uma dúzia de elfos enquanto caminhavam pela floresta.

– A verdadeira. O Protetorado foi pouco a pouco desmantelado após a junta interina assumir o governo. Membros eram demitidos, outros enviados para missões suicidas sem esperança de retorno. Os que restaram fugiram da cidade pouco antes dela ser isolada, ou então ficaram presos, como eu e Julian.

– O mago? Ele está aqui?

– Não mais. Os ex-alunos da Academia o capturaram e sacrificaram a alguma entidade demoníaca que não respondeu ao chamado.

– Sinto muito.

– Não sinta. – Selena falava com pesar, mantendo os olhos fechados. – Há coisas mais importantes com que se preocupar. Você tem certeza de que a princesa está em Valkaria?

– Foi o que me disseram, e o nosso amigo halfling parece confirmar.

– Você sabe onde ela está?

– Na Arena Imperial.

– Área de Yedal. – Selena parou e refletiu por alguns instantes. – Cobra, você precisa tirá-la de Valkaria.

– É o que pretendo fazer.

– Mas você não pode entregá-la ao regente. Ele não é confiável.

– Isso sou eu quem vai decidir. Você vai me ajudar?

– Parece a coisa certa a fazer.

****

A velha Arena Imperial se erguia imponente das ruas de Valkaria – ou, pelo menos, o que restou dela; um desabamento derrubara todo um lado, transformando-o em uma murada de entulho. Guardas portando bestas rodeavam o estádio, cercando todo o perímetro. Um deles olhou para baixo ao ouvir um barulho: era um pequeno frasco de vidro fechado jogado em direção a ele. O conteúdo parecia ser uma espécie de líquido borbulhante, que se agitava cada vez mais, e mais… Até que explodiu, atingindo todos os guardas próximos.

– Você precisa aprender a ser mais discreto, Cobra! – gritava Selena enquanto corria através da explosão até a entrada da arena, seguida por seu bando de elfos.

– Não há tempo para ser discreto! – Cobra falava com pressa, o aperto no pescoço já começando a ficar incômodo.

– Por aqui! – chamou Bill, levando todos por uma entrada lateral.

Entraram na arena, derrubando com flechas e setas de besta os guardas que tentavam bloqueá-los. Eles vinham de todos os lados, disparando suas bestas contra os invasores; três elfos foram derrubados do lado de fora, outros dois ao entrar na arena, e outros dois ainda alguns metros dentro do edifício. Os líderes da invasão, no entanto, seguiam sem dificuldades, até que, pouco antes de dobrarem em um corredor, Selena foi atingida por uma seta pouco abaixo do peito; Cobra virou para segurá-la enquanto caía, acertando uma rajada de setas no guarda que a havia atingido.

– C-cobra… – as últimas palavras da arqueira saíam com dificuldade. Cobra se aproximou do rosto, tentando escutar o que dizia. – N-não entr… Entregue… A prin…cesa… Você… E-está… S-sendo… Engan… – e calou-se, morta.

Cobra hesitou por um segundo, o suficiente para sentir uma forte pancada na cabeça. As últimas palavras que ouviu tinham a voz de Bill Botas-Rápidas:

– Sinto muito, Cobra, mas é assim que as coisas funcionam em Valkaria, certo? Você tem que ajudar aqueles que podem te ajudar. Não é nada pessoal, certo? – e então tudo ficou escuro.

****

Acordou com um forte aperto no pescoço. Se recuperou devagar, balançou a cabeça, e analisou a situação: estava desarmado, algemado e sem o colete, o torso à mostra revelando a grande tatuagem de serpente que se enrolava pela barriga e se erguia em direção ao ombro direito, onde a cabeça se mostrava em posição de ataque. O ambiente era uma cela de prisão; do lado de fora das barras de ferro, ao ver que Cobra despertava, um guarda fez sinal para outro, que caminhou até a saída das celas. Pouco tempo depois retornou com outros dois, abriu a cela e o puxou para fora, empurrando-o até a saída. Antes que saísse, no entanto, um dos guardas fez um sinal para que esperasse. Podia ouvir o som e o movimento que vinha de fora, onde uma espécie de mestre de cerimônias falava ao público.

– E agora, senhoras e senhores, o momento que todos esperavam! Você o conhecem! Ouviram suas histórias! Invejaram suas façanhas! De volta a Valkaria, pela primeira vez na Arena Imperial, o primeiro, o único, Cobraaaaaaaaa Klespin!

Os guardas fizeram sinal para que Cobra seguisse para fora, entrando na arena principal. Ouviu uma longa vaia da platéia, indo de um lado a outro da área ainda ocupável das arquibancadas. Três grandes piras queimavam e iluminavam a noite; na tribuna de honra, reparou em um homem negro alto e forte – Glastul Yedal. Em um de seus lados estava o halfling Bill Botas-Rápidas; do outro, uma mulher de cabelos vermelhos, as roupas rasgadas e as mãos e o pescoço algemados e presos por um pino ao chão.

A princesa Rhana.

O guarda soltou as algemas de Cobra, que entrou na arena massageando os pulsos. O mestre de cerimônias continuou.

– E quem pode enfrentar o grande Cobra Klespin? Quem poderia derrotá-lo em um combate feroz, brutal e sem regras? Sim, apenas uma criatura em toda Arton! O campeão da Arena Imperial, Grrrrrrrrrrrrrrrrunto!

A platéia aplaudiu calorosamente, gritando o nome de Grunto. O mestre de cerimônias correu até uma porta lateral enquanto, do lado oposto ao de Cobra, um grande portão de ferro abria vagarosamente. De trás dele saiu um humanóide sem pêlos com duas vezes o tamanho do prisioneiro; seus músculos eram irregulares e trêmulos, como se fossem gordura, distribuídos por todo o corpo, e um par de presas saíam da mandíbula inferior, a da esquerda quebrada pela metade.

Os dois lutadores se aproximaram do centro da arena. Um guarda atirou uma clava do tamanho de um homem para Grunto, e uma rede para Cobra. Foi o ogro quem tomou a iniciativa: um ataque desajeitado, com muita força e pouca precisão; Cobra desviou com facilidade. Jogou a rede sobre o adversário, mas ele a rasgou em duas sem dificuldade e começou a marchar em direção a Cobra, cada passo sentido com um leve tremor no chão. Cobra esperou que se aproximasse e desferiu um forte soco contra sua barriga: nada; era como socar uma parede. Grunto acertou o oponente com um tapa no rosto, arremessando-o para longe. A platéia vibrou; Yedal sorriu na tribuna, se insinuando para a princesa.

Cobra se levantou com dificuldade. Um dos guardas arremessou um tridente com haste de madeira ao seu lado. Grunto recebeu um machado de batalha e partiu com tudo para cima do inimigo; Cobra pegou o tridente do chão e usou para bloquear o ataque do ogro. Forçou o machado para o lado, fazendo o monstro largar a arma, e tentou acertálo-lo com as pontas do tridente, mas ele bloqueou com o braço, se deixando perfurar pela arma e, em um gesto brusco, partindo-a em duas. Pegou Cobra pelo braço e levantou-o, abraçando-o pelo tronco e apertando-o contra o corpo.

Cobra tentava se soltar, usando os braços do ogro como apoio para se empurar para cima. Grunto gargalhava e apertava cada vez mais forte, já começando a sentir o estalo das costelas de Cobra se fraturando; tinha um olhar sádico ao observar a expressão de dor do adversário. A platéia vibrava. Cobra levantou o braço direito o mais alto que pôde e desceu com toda a força o cotovelo sobre o olho esquerdo do ogro; ele gritou de dor, soltando a presa. Aproventando a chance, Cobra pegou um pedaço da haste do tridente e cravou a ponta quebrada com força no pescoço do ogro, abaixo da mandíbula, atravessando-o até o outro lado e espirrando sangue escuro sobre o chão.

A platéia ficou em silêncio enquanto o campeão caía, morto. Aos poucos começaram a gritar o nome de Cobra, em um gesto que se espalhou de um lado ao outro da arena; Yedal observava incrédulo e irritado. Bill Botas-Rápidas rapidamente saiu da tribuna, se perdendo nos corredores internos do estádio, enquanto o ex-gladiador puxava sua lança e seu escudo e pulava na arena.

– Vamos ver como você se sai contra um guerreiro de verdade, Klespin! – bradava para o oponente ainda se recuperando da batalha anterior.

– Me chame de Cobra. – a resposta áspera soava como um desafio.

Yedal investiu contra Cobra, que desviou para o lado e o deixou passar alguns passos adiante, e então pulou contra as suas costas, derrubando-o de frente. Yedal revidou acertando Cobra com o escudo, fazendo-o cair para o lado, próximo aos entulhos do desabamento da arena. O ex-gladiador subiu sobre o oponente, desferiu uma cabeçada contra sua testa para atordoá-lo, e levantou a lança contra o céu, preparando o golpe final, enquanto Cobra tateava o chão em busca de alguma coisa que pudesse usar como arma.

Encontrou o pedaço superior do tridente que Grunto havia partido; cravou-o com toda força que contra a barriga de Yedal, que soltou um urro de dor. Cobra então o empurrou para o lado, se levantou, e subiu os entulhos em direção à platéia.

Foi rodeado por um grupo de espectadores portando espadas e machetes em posição de ameaça. O primeiro investiu contra Cobra, que desviou e o agarrou pelo braço, roubando a espada e arremessando-o para a arena. Investiu contra os demais, bloqueando ataques e derrubando-os com chutes e empurrões, enquanto tentava avançar em direção à tribuna de honra.

Chegou até lá com alguma dificuldade, passando pela platéia descontrolada. Retirou com um chute um homem que tentava se aproveitar da situação de impotência da princesa, e, usando a espada como alavanca, quebrou as correntes que a prendiam ao chão. Ela permanecia em silêncio, sem saber se deveria temer ou agradecer ao seu salvador.

– Vamos sair daqui. – Cobra disse asperamente, pegando a princesa pelo braço. – O regente está esperando.

– O regente? – Rhana se recompôs, entendendo rapidamente o que acontecia. – Espere, não podemos sair assim. Não podemos deixar aquilo aqui.

– Não é hora de ser uma princesinha mimada. – Cobra tentava puxá-la para os corredores.

– Se foi o regente que mandou você, aquilo é o que ele realmente quer. Se não estiver comigo quando voltar você não receberá qualquer coisa que ele tenha lhe prometido.

Com um suspiro de raiva, Cobra seguiu a princesa pelos corredores internos da arena. Passaram por espectadores e guardas, derrubados por chutes e golpes de espada de Cobra; Rhana se defendia bem, utilizando as correntes das algemas como arma. Entraram em uma sala e fecharam a porta atrás de si, fazendo uma barricada com a mobília.

Virando para sala, Cobra encontrou espalhados pelo chão seu colete de couro e armas e equipamentos que trouxera, que prontamente recolheu e vestiu. Rhana, enquanto isso, vestia um velho manto remendado, e mostrava um pergaminho para Cobra.

– Aqui está o que o regente quer.

– E o que é isso?

– Um pergaminho com um feitiço experimental para conjurar uma área de Tormenta.

– Não parece um grande tesouro.

– Mas é. Este feitiço é diferente de tudo o que já foi visto antes. A área de Tormenta conjurada é praticamente perfeita, em quase nada deve à tempestade verdadeira. Uma arma terrível, que o regente pretende utilizar contra os inimigos de Deheon.

– Não me parece muito inteligente, trocar um inimigo por outro pior.

– Aí é que está a grande diferença. A área é completamente maleável; o conjurador pode controlar o tamanho, desde um formigueiro até uma cidade inteira, e todo o seu conteúdo, desde as criaturas até as tempestades de raios e ácido. Pode até anulá-la quando bem entender. Quem tiver este pergaminho em mãos será como um legítimo Lorde da Tormenta. – a princesa pausou por um instante. – E é por isso que você não pode deixar o regente botar as mãos nele.

– Pensei que você assumiria o trono ao voltar.

– Foi o que eu pensei também, quando voltei escondida a Deheon, meses atrás. Mas o regente não queria deixar o poder. Tentou me forçar a casar com ele para que se tornasse o governante legítimo. Eu me recusei, e fui enviada em segredo para Valkaria.

– Mas ele não percebeu quando você levou o pergaminho.

– Exatamente. – Rhana pausou por um momento. As batidas na porta da sala começavam a ficar mais fortes. – Entende agora porque você não pode entregar a mim e a este pergaminho ao regente? É uma arma terrível. Eu jamais a usaria, mesmo contra o meu mais odiado inimigo.

– Tanto que nem tentou destruí-la quando teve a chance. – Cobra arrancou o pergaminho das mãos da princesa. – Acho melhor eu ficar com isso.

– Espere um pouco… – a princesa tentou reclamar, mas a barricada de móveis cedeu, derrubando a porta. Cobra sacou a besta de repetição e descarregou a carga de setas contra os que entraram; então puxou Rhana pelo braço e correu para fora, empurrando e derrubando todos os que estavam no caminho.

Correram até o lado de fora da arena, onde hesitaram por um instante sobre qual caminho deveriam seguir.

– Ei, Cobra! Aqui! – era Bill Botas-Rápidas que chegava em uma carroça puxada por um par de cavalos velhos. Cobra e Rhana correram até ele.

– Leve-nos para a estátua de Valkaria! – gritou Cobra. – E não tente fazer qualquer gracinha!

Bill balançou os arreios e os cavalos começaram a correr. Uma multidão de pessoas enfurecidas saía da arena, portando arcos e bestas, disparando aleatoriamente contra a carroça; Cobra trocou rapidamente a carga de setas da besta e disparou uma rajada para derrubar os que estavam mais à frente. Então se virou para frente e gritou para Bill correr mais rápido.

Logo chegaram na grande estátua de Valkaria, a deusa da ambição, no centro exato da cidade. Erguida pela vontade dos deuses, ela não pode ser destruída por meios mundanos; nada impediu, no entanto, que fosse vandalizada: pixações e desenhos obscenos agora cobriam a maior parte da sua superfície. Bill parou a carruagem em frente a ela, enquanto Cobra sacava o pergaminho de sinalização. Antes que pudesse abri-lo, uma seta de besta raspou na sua mão e atravessou a cabeça de Bill, que caiu morto da carroça.

– Cobraaaaaa! – gritava Yedal de uma carroça à cavalo que se aproximava rapidamente, com uma besta na mão e um machado de batalha nas costas.

Cobra pensou um xingamento para os deuses, guardou o pergaminho e levantou a besta, disparando o resto da carga contra a carroça de Yedal. Acertou o cocheiro e um dos cavalos, que caiu derrubando consigo a carroça e os seus ocupantes. Num pensamento rápido, Cobra pegou o segundo frasco da poção alquímica, agitou e atirou para cima, deixando-o explodir no ar; então se voltou para a carroça derrubada de Yedal a tempo de vê-lo avançar rapidamente com uma expressão de fúria e o gigantesco machado nas mãos.

Cobra sacou a espada do cinto bem à tempo de bloquear o ataque do ex-gladiador. As runas brilhavam intensamente no cabo; não fosse a força extra concedida pela magia, certamente não agüentaria a força do golpe. Forçou Yedal para trás, descruzando as armas; trocaram golpes uma, duas, três vezes, até que o ex-gladiador desarmou Cobra, derrubando-o e jogando a espada curta para o lado. Se aproximou com raiva e levantou o machado sobre a cabeça, se preparando para desferir o último golpe…

Mas largou o machado para o lado, enquanto uma lâmina atravessava o peito. Cobra olhou por trás de Yedal e viu a princesa Rhana empurrando com raiva a espada curta contra o corpo do ex-gladiador, que desabou no chão. Ela caiu de joelhos e começou a chorar; olhando-a, Cobra pensou que parecia rir por trás das lágrimas.

****

Não demorou muito e dois guardas montados em grifos, alertados pela explosão da poção alquímica, chegaram para resgatar Cobra e Rhana. Levaram os dois até a cidade-fortaleza de Stratsburg, onde esperaram em uma pequena sala até a chegada do general Rauk e do regente interino. O regente era alto, tinha cabelos escuros curtos, barba bem feita, e vestia uma roupa luxuosa com uma longa capa púrpura, típica da nobreza.

– Vejo que a missão foi bem sucedida – se adiantou o regente logo que entrou no aposento, enquanto o general se posicionava ao lado da porta. Com pressa, se aproximou da princesa e começou a revistar suas roupas. – Onde está?

– Procura por isto? – Cobra estendeu um pergaminho com a mão direita.

– Muito esperto. – sorriu o regente. – Me entregue.

– Retire o colar.

– O mago que removerá a maldição está esperando do lado de fora. Depois, estará livre para ir aonde quiser. Basta que me entregue o pergaminho.

– Não faça isso! – era Rhana quem implorava. Mas ele fez.

O regente sorriu.

– Bom trabalho, Cobra.

– Meu nome é Klespin. – respondeu, áspero, antes de sair da sala.

– Agora, voltando ao nosso outro assunto. – o regente se voltou para a princesa. – Pronta para reconsiderar a minha proposta?

– Eu nunca me casarei com você!

– É uma pena… Nós formaríamos um casal tão belo. – o regente suspirou profundamente, fingindo decepção. – Agora, então, o que eu posso fazer com você? Que tal mandá-la de volta para Valkaria? Desta vez, no entanto, nos certificaríamos de que você não iria levar nada. Digamos, mandaríamos você completamente nua. Tenho certeza de que os prisioneiros adorariam recebê-la assim.

– Seu… Seu… Demônio!

– Elogios não a salvarão agora. – o regente parou e refletiu por um segundo. – Aliás, eu tenho uma idéia melhor. Porque não testarmos a magia do pergaminho? Afinal, ela deve ser capaz de controlar a área conjurada. Pode ser do tamanho desta cidade… Ou de uma pessoa. O que acha, general Rauk?

– Parece uma ótima idéia.

– Vamos para fora então.

Seguiram para fora da sala, de onde foram escoltados por um grupo de guardas até uma área aberta das muralhas da cidade. Posicionaram Rhana, algemada, entre dois dos guardas, alguns metros a frente do regente e do general.

– Vai ser uma pena ver um rosto tão bonito derreter com a chuva ácida. – disse o regente. – Não pretende mesmo voltar atrás?

– Nunca!

O regente não respondeu. Abriu o pergaminho e começou a recitar as palavras nele contidas; logo uma névoa púrpura saiu da folha, seguida de uma bola luminosa que subiu até o céu e explodiu em um clarão de luz.

– O pergaminho-sinalizador! – gritou o general.

– Klespin! – respondeu o regente; e então, para os guardas: – Rápido! Não deixem que ele saia da cidade!

Mas já era tarde. Cobra desaparecia em meio a um bosque, caminhando vagarosamente, os cabelos loiros balançando com a brisa que soprava, deixando para trás um pergaminho queimando em uma fogueira de gravetos. Acima, nuvens púrpuras começavam a se formar sobre a cidade-fortaleza.


Sob um céu de blues...

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