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Estação Perdido

estação perdidoUns anos atrás, o autor britânico China Miéville causou um certo frisson no mundinho da literatura fantástica nacional. Acho que eu mesmo tenho um pouco de culpa no cartório, uma vez que embarquei no hype train, li quase tudo de sua autoria que consegui por as mãos, e divulguei impressões em resenhas numa época em que blogs literários ainda engatinhavam. Em um mundo ainda pré-Game of Thrones, de poucas opções além do seu feijão-com-arroz tolkeniano, ele parecia mesmo diferente de tudo o que tínhamos disponível: linguagem ambiciosa, cenários urbanos decadentes, e uma orientação política progressista e assumidamente marxista, batendo de frente com o conservadorismo mais retrógrado de certos dinossauros do gênero.

Esse hype todo foi um pouco do que pautou o lançamento do seu primeiro romance, Rei Rato, pela hoje finada editora Tarja; mas seriam mais alguns anos antes que ele encontrasse uma casa mais definitiva (e alguns diriam adequada) na Boitempo, entre autores como Slavoj Žižek e Leonardo Padura. O primeiro romance publicado na editora foi A Cidade e A Cidade, pelo qual ganhou o prêmio Hugo de ficção fantástica; e, agora, temos finalmente em português Estação Perdido, provavelmente o seu livro mais conhecido. Acredito que seja uma boa oportunidade, assim, de retornar ao mundo de Bas-Lag, e ver o que você pode encontrar de mais provocante e revolucionário dentro dele.

Estação Perdido (ou Perdido Street Station) é o primeiro livro de uma trilogia, que se completa com The Scar (A Cicatriz?) e Iron Council (Conselho de Ferro? – estou chutando possíveis nomes traduzidos). Eles não contam exatamente uma história contínua, mas cada um possui um enredo fechado com personagens próprios, ainda que haja uma linearidade cronológica e acontecimentos de livros anteriores tenham consequências diretas nos posteriores. Principalmente, no entanto, os três livros dividem o cenário fantástico de Bas-Lag, em especial a metrópole pseudo-vitoriana New Crobuzon, onde se passa toda a ação do primeiro volume.

A verdade é que todo hype passa eventualmente, e gera aquela ressaca em que você se pega perguntando a respeito do que fez durante ele. Olhando hoje, tantos anos depois, penso que Estação Perdido é um livro irremediavelmente datado. É muito próprio do período em que foi escrito, ou ao menos de quando o li pela primeira vez. Tenho uma impressão sobre ele parecida com a que tenho sobre Neuromancer, do William Gibson, também fundador de um gênero: a de que pode-se com certeza reconhecer as suas qualidades e a revolução que causou; mas, quando o seu primeiro contato é com os imitadores, acaba parecendo algo menos do que foi no contexto original.

Há no livro uma ânsia muito evidente de ser uma ruptura, e chocar, às vezes até gratuitamente, o leitor. Falamos de um livro que praticamente abre com uma cena de sexo bastante gráfica entre o protagonista e uma mulher-besouro. Muitas das escolhas de enredos, personagens e ambientação parecem claramente feitas para gerar contraste com clichês e padrões da literatura fantástica mais tradicional – da ambientação urbana e decadente, muito distante da utopia idílica do Condado, até os próprios protagonistas de ocupações um tanto mais mundanas do que os guerreiros, reis e aventureiros que você encontrará num romance de Dragonlance ou Forgotten Realms. Uma das passagens mais comentadas entre os leitores, aliás, é a contratação de um grupo de mercenários exploradores de masmorras pelos protagonistas, e o quanto ele difere da visão que se tem ao ler um cenário de campanha de um jogo de RPG.

Essa ênfase na ruptura, e o seu próprio sucesso em fazê-la, é uma das razões pelas quais ele hoje, quinze anos depois da publicação original, soa um pouco diminuído. Mas isso não quer dizer que o livro simplesmente não seja mais recomendável, muito longe disso. Se tudo o que você conhece de literatura fantástica for Tolkien, George R. R. Martin e produtos relacionados de cenários de RPG – em outras palavras, se as suas próprias referências ainda não passaram do período em que ele foi publicado originalmente -, ele ainda pode acertá-lo como um soco no estômago. Se a sua contestação literária soa um pouco datada, a sua contestação social e política, os seus amores proibidos e revoltas populares, permanecem – e, em tempos como os atuais, temo dizer que não serão diminuídos tão cedo. E acima de tudo, Miéville é um autor com uma imaginação única, capaz de criar cenários, personagens e criaturas que são ao mesmo tempo assustadoras, cativantes e absolutamente fascinantes. Você não vai terminar a leitura sem ter uma impressão muito forte causada pelo monstro-aranha Weaver, o imponente Construct Council, ou os tenebrosos slakemoths.

Olhando em retrospecto, no entanto, tantos anos depois, tenho a impressão mesmo de que Estação Perdido é menos sobre contar uma história, e mais sobre provar um ponto. O verdadeiro astro não parece ser realmente qualquer um dos personagens, mas sim a ambientação, o clima e a própria cidade de New Crobuzon; um pouco como a Terra-Média de Tolkien, transformada aqui em uma megalópole decadente, que os protagonistas devem explorar e viajar de um lado a outro para cumprir a sua missão, e chega mesmo a, como uma entidade dotada de vontade própria, agir e interferir com as suas ações.

Quem conhece a obra posterior do autor sabe que há uma evolução muito clara com o passar dos livros. Mesmo os seguintes ambientados em Bas-Lag me parecem ser mais bem realizados, uma vez que já tinham o terreno preparado pelo anterior. The Scar é um épico fantástico sobre piratas – mas também, e talvez muito mais, sobre política, imperialismo e feminismo. E Iron Council é talvez a verdadeira magnum opus de Miéville, onde a sua visão de uma fantasia concebida por ideais políticos é levada mais longe; é ambiciosa desde a própria linguagem, nos personagens e protagonistas, até a própria trama épica de fantasia revolucionária.

No fim, Estação Perdido talvez chegue sim um pouco tarde, mas há quem argumentará que nunca é tarde para se conhecer uma obra como essa. Se as suas tentativas de ruptura hoje parecem fora de contexto, em grande parte é pelo próprio sucesso que ele teve originalmente. De um jeito ou de outro, China Miéville continua sendo um dos meus autores preferidos, e qualquer lançamento com o seu nome é capaz de me animar e empolgar.

Aniquilação

aniquilaçãoJeff VanderMeer tem um problema com fungos. Não se tratam de micoses ou pés-de-atleta, claro (ou pelo menos até onde eu posso falar); mas é uma fixação tão constante na sua obra que chega a ser curioso, no mínimo. O ciclo de histórias de Ambergris, por exemplo, que são as suas obras mais conhecidas, possui como elemento central uma civilização de cogumelos que existiria sob a cidade, influenciando de alguma toda a sua história repleta de mistérios – algo assim como um gritty reboot de Super Mario Bros., digamos. E também na sua trilogia do Comando Sul, cujo primeiro volume, Aniquilação, foi lançado recentemente em português, o tema volta a ser recorrente.

Mas vamos por partes. Segundo a sinopse do livro, décadas atrás algum tipo de catástrofe ambiental se abateu sobre uma região do planeta, cuja localização exata nunca sabemos realmente, isolando-a do resto do mundo. Aos poucos a natureza foi tomando os últimos vestígios da presença humana, dando origem a uma fauna e flora exótica e surpreendente. Para entender exatamente o que aconteceu, uma série de expedições foram organizadas e enviadas para lá. Nem todas retornaram; algumas tiveram mesmo resultados catastróficos, com o desaparecimento, morte ou mudança de todos os membros enviados.

No livro conhecemos o destino da décima segunda destas expedições, formada por quatro mulheres: uma antropóloga, uma topógrafa, uma psicóloga, que é também a líder da missão, e uma bióloga, a narradora da história. Não sabemos, a princípio, quase nada sobre seus passados, apenas que foram escolhidas por critérios obscuros e enviadas para lá de uma maneira misteriosa. Aos poucos, no entanto, o que ocultam sobre suas vidas é justamente o que vai semear a catástrofe na missão, sobretudo na medida em que elas se depararem com situações imprevisíveis e encontros que desafiam a sua sanidade e o seu entendimento sobre o mundo.

VanderMeer domina como poucos a narrativa de suspense. Há algo de tenso e sombrio na sua escrita praticamente desde a primeira frase – você consegue perceber logo de início que algo muito errado acontecerá, e a tensão sobre o que o desencadeará o acompanha a cada virada de página. Essa sensação se intensifica a cada novo encontro com os horrores impossíveis que se escondem na Área X. Para quem joga videogames, a história lembra um jogo do auge dos survival horrors, como Silent Hill ou os primeiros Resident Evil: há um ambiente misterioso e perigoso, em que você nunca sabe ao certo o que está acontecendo; e a ansiedade a cada parágrafo de não saber se ele será seguido um novo confronto aberrante ou uma revelação perturbadora sobre aquilo que o cerca. Cada solução encontrada se abre em dez novos mistérios, porém sem a garantia de que tudo acabará bem no final.

Uma coisa muito pontual, apenas, acaba quebrando o clima que o autor constrói com tanta habilidade no resto do tempo. Há um papel muito grande dado aos efeitos da hipnose sobre as personagens, usado como deus ex machina para garantir certos desenvolvimentos em alguns momentos importantes. Para os céticos (como eu), é preciso forçar um pouco a suspensão de descrença e passar por cima deste detalhe. (Por outro lado, estamos falando de um livro de horror cósmico de ascendência lovecraftiana, então há quem vá dizer que este é o elemento menos fantástico da história de qualquer forma…)

Em todo caso, Aniquilação ainda é uma história de suspense e horror cósmico muito bem escrita e executada, recomendadíssima. Aguardo com bastante ansiedade pelos próximos livros da trilogia, que lancem mais luzes (e consequentemente tragam mais mistérios) sobre o que se esconde afinal sob a assustadora Área X.

No Pântano da Escuridão

The_Dark_SwampAlém das Montanhas da Morte, depois do Deserto Sem Fim, atravessando a Floresta Lamentosa e cruzando o Rio Invencível, fica o Pântano da Escuridão. Coberto de uma vegetação densa que bloqueia a luz do sol, ele é habitado por grandes crocodilos, peixes carnívoros e insetos venenosos. Gases putrefatos emanam das suas águas escuras, e sons misteriosos são ouvidos vindos de todas as direções. Galhos e cipós se interrompem a jornada, atirando-se na sua frente como salteadores macabros. E bem no seu centro, no coração da escuridão, uma pequena cabana de madeira se ergue sobre as águas, iluminada porcamente por lamparinas gastas, suas paredes cobertas de musgo e fungos, com uma placa ao lado da porta onde se lê: aqui tem uma consultora Natura.

The Future is Japanese

TheFutureIsJapanese_coverVez por outra a gente passa por fases em que lemos praticamente só coisas dentro de um mesmo campo temático. Já tive a minha fase new weird, a minha fase autores russos / soviéticos… Atualmente, estou na fase Japão. E nem falo só de Haruki Murakami, claro – tenho lido alguns autores japoneses mais alternativos, classificados no próprio país dentro daquele paradigma da literatura “de gênero.”

Tenho que agradecer por isso à editora Haikasoru, que tem se dedicado a traduzir algumas obras de gênero de lá para o inglês, permitindo o contato com essa vertente da literatura de um país que tanto desperta curiosidade pelos lados de cá do meridiano de Greenwich. Graças a ela pude entrar em contato com a romanização do videogame Ico, por exemplo; bem como uma obra tão única no seu escopo como Ten Billion Days and One Hundred Billion Nights. E é ela também que editou este The Future is Japanese, que em treze contos busca fazer um pequeno panorama da literatura de gênero, em especial a ficção científica, do e sobre o Japão.

Como esta premissa parece indicar, nem todos os autores presentes nela são realmente japoneses. Há muitos autores ocidentais no meio, que possuam alguma ligação particular com o país ou que se disporam a escrever histórias que de alguma forma remetessem à sua cultura, inclusive nomes conhecidos como Bruce Sterling (um dos pais do cyberpunk ao lado de William Gibson), Ekaterina Sedia (premiadíssima autora de Alquimia de Pedra, recentemente publicado em português pela Tarja Editorial) e Catherynne M. Valente (autora também premiada de Palimpset e do fenômeno de financiamento coletivo The Girl Who Circumnavigated Fairyland in a Ship of Her Own Making); e também alguns outros naquele campo mais nebuloso dos autores de dupla nacionalidade, como o sino-americano Ken Liu.

De maneira geral, foram estes autores que se fixaram mais fortemente nos paradigmas e clichês tão associados à terra do sol nascente. Há as distopias cyberpunk, realidades virtuais, seres folclóricos… Algo esperado até, já que eles tinham que justificar a sua seleção para uma coletânea com este tema. Mas isso também não os impediu de entregar histórias bastante interessantes. Chitai Heiki Koronbin, de David Moles, por exemplo, é a única história que envolve os famigerados mecha, ou robôs gigantes; mas é um conto envolvente sobre pilotos jovens enfrentando seres alienígenas, e poderia ser mesmo o começo de um bom mangá ou anime. A história de Sterling, Goddess of Mercy, que envolve um futuro distópico onde Tóquio foi destruída por um ataque nuclear norte-coreano, é bastante instigaste politicamente; e Rachel Swirsky foi uma das poucas autoras que fugiram da ficção científica, se aventurando pelas histórias de fantasmas em The Sea of Trees. Por fim, Cathrynne M. Valente talvez tenha entregue a história mais tocante do livro, One Brush, One Stroke, um pequeno conto com ares folclóricos que versa, entre outras coisas, sobre a paixão platônica de um pincel por uma mulher-caracol.

É claro, no entanto, que, para o leitor ocidental, o grande astro do livro são os autores nipônicos. Talvez tenha havido aqui um certo corporativismo safado da editora: muitos dos autores tem sido publicados em inglês pela Haikasoru, como uma rápida no catálogo presente nas páginas finais permite constatar. Nada fora do esperado também, acredito. Acho que o único autor que já conhecia anteriormente seja Hideyuki Kikuchi, cujos livros já foram adaptados como animes relativamente conhecidos como Vampire Hunter D e A Wind Named Amnesia. Seu conto aqui se chama Mountain People, Ocean People, e é uma pequena fantasia / ficção científica com ares pulp sobre uma civilização de homens voadores nos picos da montanhas, incluindo aí batalhas com monstros e conflitos juvenis. Outro autor que achei bastante interessante foi Issui Ogawa, que em uma pequena space opera chamada Golden Bread fez uma inversão de papeis bem curiosa, com um descendente do império japonês no futuro distante sendo confrontado com uma colônia caucasiana em um asteroide onde os costumes orientais atuais estão mais vivos do que nele.

Dois dos contos mais marcantes do livro foram os de Project Itoh (pseudônimo do autor Satoshi Ito) e TOBI Hirotaka. O do primeiro se chama The Indifference Engine, e, apesar do nome fazer referência à obra fundadora do steampunk, possui ecos mais fortes de A Laranja Mecânica, mas trocando os delinquentes juvenis irlandeses por crianças-soldado africanas. E o do segundo é chamado Autogenic Dreaming: Interview with the Columns of Clouds, um pequeno épico virtual que brinca com a forma da entrevista, e é repleto de ideias provocantes e uma extrapolação muito instigante sobre o Google e o seu projeto de digitalizar as grandes obras da humanidade.

Na soma final, como todo livro de contos, e ainda mais os que reúnem uma dúzia de autores diferentes, The Future is Japanese também possui seus altos e baixos, com algumas histórias que andam e andam sem avançar, e outras que você deseja que continuassem em livros maiores. Mas achei o saldo bastante positivo, e foi interessante poder entrar em contato com alguns autores novos que posso procurar conhecer melhor no futuro.

Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children

miss-peregrines-home-for-peculiar-childrenMiss Peregrine’s Home for Peculiar Children conta a história de Jacob Portman, um jovem californiano que, após ter um colapso nervoso devido à morte do seu avô, viaja para uma ilha na costa do País de Gales para desvendar o seu passado e as histórias fantásticas que ele contava sobre a época em que era um judeu refugiado em um orfanato local durante a Segunda Guerra Mundial. Munido de um conjunto de estranhas fotos de época deixados por ele, a verdade que ele eventualmente descobrirá desafiará a sua credulidade e mudará por completo a vida ordinária que levava até então.

Acho que posso resumir toscamente o livro como um “X-Men feito ao modo Harry Potter” – quer dizer, o próprio título já parece uma referência ao Instituto Xavier para Jovens Superdotados, e é impossível não pensar nos mutantes da Marvel conforme você avança os capítulos e vai descobrindo os segredos que o local esconde. Ao mesmo tempo, o tom é o de uma história de fantasia juvenil clássica, daquelas em que um garoto solitário aprende a superar suas limitações ao ser confrontado com um mundo sobrenatural secreto. Você pode até fazer o bingo da jornada do herói do Joseph Campbell se quiser.

Claro, tudo isso é feito com cuidado e esmero, com personagens cativantes caracterizados de forma bastante vívida. No entanto, o que realmente torna a leitura única e, ahem, peculiar, é o uso que o autor faz da fotografia. Fazem parte do livro cerca de cinqüenta fotografias de época retratando cenas bizarras, como crianças contorcionistas, vestindo fantasias macabras e outras. Todas são verdadeiras, vindas do acervo de colecionadores, e estão espalhadas ao longo dos capítulos para ilustrar seus personagens e situações. São o ponto de partida do enredo, sendo as pistas iniciais que Jacob possui para ir atrás dos segredos do seu avô, e é de se imaginar que o próprio livro e seus personagens tenham sido estruturados pelo autor a partir das imagens que encontrava.

O resultado é um cenário extremamente atmosférico, em que as imagens são usadas para intensificar o senso de mistério, tornando em especial os dois primeiros atos da história bastante envolventes. Com o tempo talvez até fique um elemento um pouco cansativo, com algumas fotos que talvez poderiam ser cortadas por não adicionar nada de realmente relevante à trama, e passa a ser até um pouco previsível quando uma nova imagem irá aparecer; mas não há como negar que é isto que torna o livro realmente único e tão cativante.

Há que se destacar também que é o primeiro livro do autor, e isso é visível pela forma como ele faz algumas escolhas não muito boas ao longo dele. A narrativa em primeira pessoa, por exemplo, não parece combinar com a história que ele quer contar, quebrando muitas vezes o clima. A ânsia em caracterizar os personagens vividamente também passa do ponto algumas vezes, em especial na Miss Peregrine do título, que parece sob todos os aspectos uma espécie de Mary Poppins genérica. Todo o terceiro ato, comprimido inteiro em um único capítulo de tamanho desproporcional com os demais, é um pouco dissonante do resto, parecendo às vezes ter sido pensado sob medida para um filme de verão (e, não surpreendentemente, parece que já há um em produção, com provável direção do Tim Burton). E, claro, há o final em aberto para a óbvia continuação…

Mesmo com esses detalhes, no entanto, ainda é uma leitura bastante única e envolvente, e mais de uma vez até um pouco assustadora, daquelas que você devora rapidamente em um par de noites acordado. Vale uma olhada.

The Invitation of Sir Cthulhu

Como não comprar uma edição de The Call of Cthulhu com essa capa?

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As Dez Torres de Sangue

deztorresAs Dez Torres de Sangue, de Carlos Orsi, conta a história do aventureiro Suleiman Ibn Batil e da fidalga Dona Teresa, enquanto ambos desvendam os segredos da cidade misteriosa de Antares no deserto do Saara e tentam pôr fim aos atos sombrios que lá são realizados. Ambientado na era dos descobrimentos, o livro busca criar para si um ambiente semi-histórico, bebendo na mitologia cabalística e do ocultismo árabe para se desenvolver como uma aventura de espada e feitiçaria que não envergonharia os clássicos de Howard e Leiber.

O foco, como em toda boa história do gênero, está muito mais na ação e na aventura, com uma certa dose de horror, do que propriamente no desenvolvimento dos personagens e profundidade do enredo. Mas isso não é um defeito, é claro: para quem busca justamente isso, é um prato cheio. A trama se desenvolve praticamente como uma exploração de masmorra, e você consegue imaginá-la sem dificuldades como uma aventura de RPG. No caminho, monstros grotescos, artefatos mágicos e uma boa dose de coragem frente ao desconhecido.

A narrativa é fluida, embora, para quem tiver um olhar mais crítico, haja uma passagem ou outra que poderia ser revisada; nada que realmente incomode. Há alguns desvios mais problemáticos na construção do cenário histórico, no entanto. O que mais me incomodou foi uma citação a uma adaga que teria sido forjada no Afeganistão, país que só passou a existir como tal no século XX. Outros pontos podem requerer um pouco mais de conhecimento histórico e apego a detalhes para serem percebidos (leia-se: chatice mesmo), mas em geral são pontos que poderiam ter sido evitados sem dificuldade com um pouco mais de cuidado.

Outro ponto relevante a se destacar é que é um livro bastante curto, pouco mais do que um conto longo, que você lê em uma ou duas sentadas tranquilamente. Mesmo com o lindo trabalho gráfico, como é padrão na editora, isso pode afastar aqueles que gostem de ter o máximo de leitura pelos seus reais investidos. Mas não acho que aqueles que forem menos pães-duros vão se decepcionar – por mais que seja uma leitura curta, ainda é uma boa leitura, que, mesmo com alguns problemas pontuais, entretém pela sua duração.

Enfim, é um bom livro, que eu recomendo para os que gostam de histórias de aventura e feitiçaria.


Sob um céu de blues...

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