Arquivo para setembro \30\UTC 2011

X-Men Noir

Marvel Noir é uma série de histórias lançada pela Marvel Comics desde 2008, e que agora chega ao Brasil com os encadernados X-Men Noir e Homem-Aranha Noir, os dois primeiros a saírem por aqui. Ela tenta reimaginar os personagens clássicos da editora em um ambiente diferente, nos Estados Unidos da década de 1930, com uma influência pesada da literatura policial da época, que viria a ser conhecida como noir no cinema devido seus ambientes escuros e violentos (para quem não sabe, noir significa preto em francês) – enfim, fazendo aquilo que eu costumo chamar de pastiche, e que eu, pelo menos, tendo a achar muito divertido.

A versão dos heróis mutantes deste novo universo Marvel possui algumas diferenças significativas para os seus originais. A mais importante é que não há super poderes – ao invés disso, os alunos da Escola Xavier para a Juventude Excepcionalmente Transviada são simples sociopatas, isolados da sociedade por não serem capazes de viver corretamente dentro dela. Isso dá margem a algumas idéias bastante toscas – em especial a tese do Professor X da sociopatia como um estágio evolucionário da humanidade, que certamente está lá apenas para manter a referência ao material original. Por outro lado, traz também algumas coisas bem interessantes, como a forma em que os poderes são reinterpretados de forma mais mundana, com destaque para os da Jean Grey e da Vampira.

Outro detalhe relevante é que os protagonistas da história não são os X-Men propriamente ditos. Ao invés disso, os roteiristas resgataram um personagem clássico da editora da década de 1940, o Anjo (não confundir o Anjo dos próprios X-Men, que tem apenas uma ponta rápida), e, além dele, a história também é contada do ponto de vista de Eric e Peter Magnus (ou Magneto e Mercúrio), aqui transformados em um inspetor corrupto da polícia e o seu filho idealista. Acho que o primeiro, principalmente, poderia ter sido trocado por algum personagem do próprio universo dos mutantes, já que acaba ficando um pouco deslocado no contexto, sem contar nas confusões devido ao seu nome; poderia ser mesmo o Jamie Madrox, por exemplo, devido a um certo “poder” dele que é revelado no último capítulo.

A parte por isso, em todo caso, a história é bem interessante, um conto policial que abraça muito bem todo o ambiente noir, sem abandonar as referências ao universo fantástico que lhe deu origem. Há espaço para um assassinato misterioso, uma femme fatale e chefões do crime, além, é claro, de dúzias de participações especiais de personagens clássicos das franquias mutantes. A história possui um desenvolvimento muito bom, com viradas ao fim de cada capítulo que te deixam com vontade de seguir lendo, e algumas reviravoltas finais bastante surpreendentes (ainda que uma delas, ao menos, seja descaradamente plagiada do filme O Grande Truque).

O volume também termina com um pequeno conto chamado Os Sentinelas, que seria uma história de ficção científica publicada em revistas pulp dentro do universo da série. É uma leitura muito divertida, pelo menos para quem acompanhou os personagens a vida toda – é escrita propositadamente com um estilo tosco e exagerado, e faz referências a diversas sagas famosas e personagens do universo, do Massacre de Mutantes à Era do Apocalipse, com participação dos Sentinelas, dos Morlocks e mesmo da Fênix.

Em todo caso, X-Men Noir é um lançamento muito bacana, uma reinvenção criativa de personagens clássicos em um ambiente diferente, e muito bem executada. Além disso, foi lançado em um formato luxuoso, com papel especial e capa dura, e ainda assim com um preço até bem razoável. Recomendo para quem é fã dos mutantes.

O Alinhamento

João saiu feliz de casa num sábado de sol à tarde, pronto para jogar bola com os amigos. Mal sabia, no entanto, que um peculiar alinhamento planetário no Sistema Solar iria mudar seriamente os seus planos para aquele dia…

Aconteceu que, no instante em que João abria a porta de casa, um cometa passava próximo à órbita de Júpiter, alterando levemente o formato do seu campo gravitacional. Como resultado, um pequeno meteorito próximo a Marte foi precipitado à sua superfície, atingindo o solo e levantando partículas de poeira em direção ao espaço, que refletiram e modificaram o movimento de dois raios solares que atravessavam o planeta naquele momento. Um deles viajaria por milhares de anos-luz até o distante planeta Klorton, próximo à nebulosa M-92, onde iniciaria uma reação em cadeia de outros milhares de anos em que terminaria por destruir toda a avançada civilização que existia naquele quadrante da galáxia.

O outro daria uma volta mais curta, chegando à Terra, onde estimularia o crescimento de uma única bactéria que acabava de se bipartir e se lançaria em direção a um cachorro vira-lata, contaminando-o com uma doença cerebral degenerativa que em poucos segundos faria com que ele roesse as raízes de uma árvore crescendo próximas à calçada, puxando-as para fora.

E foi nestas raízes que João tropeçou ao sair correndo de casa para não perder o ônibus, caindo ao chão e quebrando a perna, e então rolando até o meio da rua onde, naquele instante, o motorista do ônibus que ele precisava pegar, ofuscado pelo primeiro raio de sol, que passava por ali, não viu o corpo de João se aproximando e passou por cima do seu braço esquerdo, separando-o do corpo, enquanto um cano de escapamento solto do veículo atingia a cabeça do rapaz, causando um traumatismo craniano que o deixaria com um sério retardo mental, e uma inclinação no asfalto pressionava e rompia a sua coluna, deixando-o para sempre em estado vegetativo.

A Fantástica Fábrica de Chocolates 3D&T

Não adianta vir com guaraná pra mim, é chocolate o que eu quero beber, já diz o grande sábio da pós-modernidade Tim Maia. Depois do 3D&T Coffee Break, era necessário, é claro, adaptar também a outra grande especiaria do mundo moderno, sem o qual milhares de pessoas não sobreviveriam no caos e stress da sociedade contemporânea. Falemos, então, sobre quais são os efeitos de comer chocolate em 3D&T!

Um Pouco de História
Nem todos sabem, mas o chocolate possui uma história bastante antiga. O cacau, de cuja semente ele é produzido, é cultivado na região da Mesoamérica e América do Sul há pelo menos três mil anos, e as primeiras evidências do seu consumo vêm da civilização Olmeca, na região do atual México, entre 1100 e 1400 a. C.

Durante a maior parte da sua história, o chocolate foi consumido como uma bebida – o seu próprio nome atual vem do termo asteca xocolãtl, que significa algo como água amarga. Dizia-se que ele era útil para enfrentar a fadiga e que tinha propriedades afrodisíacas, e era usados muitas vezes também em rituais religiosos. Sua importância era tamanha que as sementes de cacau chegaram a ser usadas como moeda na América pré-Colombiana.

Após a conquista do Império Asteca pela Espanha, no século XVI, o cacau também passou a ser importado e consumido na Europa, onde fez bastante sucesso. Casas para a venda e consumo chocolate foram abertas em Londres durante o século XVII, e os próprios espanhóis aumentaram a sua produção com o uso de trabalho escravo. A produção de cacau se espalhou para várias ilhas do mar do Caribe, em especial a Jamaica, bem como o nordeste brasileiro e o noroeste africano, em especial a Costa do Marfim, atualmente a maior produtora da fruta.

A forma atual do chocolate sólido foi inventada em 1847 pelo inglês Joseph Fry, utilizando o pó de cacau criado pelo holandês Coenraad van Houten e adicionando leite e açúcar para criar uma espécie de pasta que poderia ser moldada em diversas formas. E em 1879 o suíço Daniel Peter teve a idéia de usar leite condensado, criando o chocolate ao leite como é conhecido hoje.

Gorad. Em Arton não existe o chocolate propriamente dito (a menos, é claro, que o mestre decida diferente), mas, no lugar dele, temos o gorad, uma especiaria criada no pequeno reino de Hersey com uma mistura de frutas locais e leite, e muito apreciada por jovens e crianças. Você pode considerá-lo exatamente como o chocolate para todos os efeitos relevantes de regras descritos a seguir.

Efeitos do Chocolate
Chocolates são alimentos extremamente energéticos. Em regras, comer uma barra de chocolate permite ao personagem recuperar 1 PM, como uma poção de Magia. Cada barra custa 1 PE para o personagem.

Diferente de uma poção comum, no entanto, os PMs ganhos com um chocolate podem ultrapassar o valor máximo permitido pela sua Resistência – então um personagem com R2, por exemplo, poderia comê-los até chegar a 11, 12, 15 ou até 20 PMs, por exemplo. Isso acontece porque não se tratam propriamente de poções mágicas, mas sim de simples alimentos altamente calóricos.

A contra-partida é que se eles não forem gastos rapidamente, o personagem corre o risco de ganhar peso e eventualmente se tornar uma pessoa obesa, o que diminui as suas resistências e capacidades físicas. Em regras, para cada 5 PMs que um personagem tiver acima do seu limite normal, ele terá um redutor de -1 em todos as suas jogadas de dados para situações físicas, incluindo jogadas de FA e FD, bem como testes de qualquer atributo. Por exemplo, um personagem R2 que coma até chegar a 20 PMs teria um redutor de -2 em todas estas jogadas.

Por fim, um efeito menor dos chocolates é que eles têm propriedades anti-depressivas. Após comer um chocolate, qualquer personagem recebe, durante uma hora, um bônus de +3 em quaisquer testes para resistir efeitos emocionais ou de mudança de humor, incluindo feitiços como O Canto da Sereia e outros efeitos sobrenaturais.

Tipos de Chocolate
Existem ainda diversas variedades de chocolates, que podem possuir efeitos diferentes para os personagens que os comerem. Abaixo estão alguns exemplos, e o mestre pode, é claro, criar outros para a sua campanha.

Chocolate Branco. O chocolate branco é feito com a gordura extraída da semente do cacau, ao invés da semente propriamente dita – por causa disso, muitos se recusam mesmo a considerá-lo um chocolate verdadeiro. Isso dá a ele um gosto mais doce, além da coloração diferente. Em regras, os PMs ganhos com ele não podem ultrapassar o limite normal do personagem, e o bônus para resistir a efeitos emocionais e de mudança de humor é de apenas +1. No entanto, com 1 PE o personagem pode comprar três barras de chocolate branco, ao invés de apenas uma.

Chocolate Dietético. Chocolates dietéticos são feitos de forma a terem um valor calórico reduzido, eliminando ingredientes como açúcares e outros, para reduzir os efeitos da obesidade. No entanto, não costumam ter o mesmo sabor de um chocolate tradicional. Em regras, um chocolate dietético não concede bônus para resistir a efeitos emocionais e de mudança de humor; no entanto, ele leva também o dobro do tempo para causar redutores nas jogadas do personagem – ou seja, causa apenas um redutor de -1 a cada 10 PMs além do seu limite normal. O seu custo é de 2 PEs por barra.

Chocolate Meio-Amargo. O chocolate meio-amargo é feito de forma a valorizar o gosto amargo do cacau, diminuindo a concentração de leite condensado e outros ingredientes. Isso aumenta a concentração de cafeína no produto final, e dá a ele, além dos seus efeitos normais, um efeito semelhante ao de uma dose de café: um bônus de +3 em testes para evitar a fadiga e o sono durante uma hora após ser consumido. O seu custo também é de 2 PEs, ao invés de 1.

Chocolate em Pó. O chocolate também pode ser pulverizado para ser depois misturado em outros ingredientes. Cada dose de chocolate em pó custa 1 PE, e, misturado com leite ou outros líquidos, pode ser usado para produzir uma bebida equivalente a uma poção de Magia Menor, gastando um minuto de preparação. No entanto, ele não possui o efeito de permitir os PMs ultrapassarem o limite normal do personagem.

Esquadrão Econômico BRICman

O planeta Terra está em perigo! O terrível Império do Neoliberalismo Galáctico invadiu os mercados mundiais, deixando atrás de si um rastro de destruição e calamidades – crises financeiras, inflação, desemprego, desvalorização em massa de papéis. Mas ainda há uma esperança! Quatro países emergentes uniram a força das suas economias e aceitaram a difícil missão de proteger o planeta do colapso total. Representado por seus presidentes e invocando a tradição e os poderes dos seus povos ancestrais, eles são o…

ESQUADRÃO ECONÔMICO BRICMAN!

Dilma Roussef, a Bric verde

F0 H2 R3 A1 PdF2 (elétrico) 15 PVs 15 PMs
Vantagens/Desvantegens: Aliado (Tupã), Arma Mágica (Arco-Relâmpago – PdF+1, Ataque Especial, Flagelo [especuladores] – 20 PEs / 2 pontos), Xamã

Tupã
F0 H3 R2 A1 PdF1 (sônico) 10 PVs 10 PMs
Vantagens/Desvantagens: escala Sugoi; Mecha, Metabot*, Voo

Dilma Roussef, presidenta do Brasil, é a Bric verde. Com poderes herdados dos povos tupi-guarani, ela é capaz de se comunicar com espíritos, bem como usar o poderoso Arco-Relâmpago para atacar os inimigos. Seu espírito guardião é Tupã, o deus-céu, que toma a forma de uma grande ave tropical para enfrentar os monstros do Neoliberalismo.

Dmitri Medvedev, o Bric branco

F1 (corte) H2 R2 A1 PdF0 10 PVs 10 PMs
Vantagens/Desvantagens: Aliado (Baba Yaga), Arma Mágica (sabre Shaska – F+1, Ataque Especial, Veloz – 20 PEs / 2 pontos), Invisibilidade, Mentor (Putin)

Baba Yaga
F1 (corte) H2 R2 A1 PdF0 10 PVs 10 PMs
Vantagens/Desvantagens: escala Sugoi; Mecha, Metabot*, Paralisia, Voo

Dmitri Medvedev é o atual presidente da Rússia, e também o Bric branco. Treinado nas técnicas furtivas da KGB pelo seu mentor Vladmir Putin, antigo detentor do cargo, ele também carrega toda a tradição dos cossacos e guerreiros das estepes geladas russas. Sua arma especial é um sabre Shaska, e seu espírito guardião é a bruxa Baba Yaga, que toma a forma de uma grande harpia para ajudá-lo quando necessário.

Pratibha Patil, a Bric azul

F1 (corte) H2 R2 A1 PdF0 10 PVs 20 PMs
Vantagens/Desvantagens: Aliado (Brahma), Clericato, Magia Branca, PMs Extras, Telepatia

Brahma
F2 (contusão) H0 R2 A1 PdF0 10 PVs 10 PMs
Vantagens/Desvantagens: escala Sugoi; Mecha, Metabot*, Membros Extras x2

Pratibha Patil é a atual presidenta da Índia, e por isso a Bric azul. Possui diversos poderes místicos herdados dos brâmanes hindus, e tem como espírito guardião Brahma, o deus criador, que toma a forma de um grande guerreiro humanóide com quatro faces e quatro braços.

Hu Jintao, o Bric vermelho

F2 (contusão) H3 R2 A1 PdF0 10 PVs 10 PMs
Vantagens/Desvantagens: Aliado (Shenlong) Arma Mágica (bastão de três partes – F+1 Ataque Especial, Veloz – 20 PEs / 2 pontos), Ataque Múltiplo

Shenlong
F1 (corte) H0 R3 A1 PdF2 (fogo) 15 PVs 15 PMs
Vantagens/Desvantagens: escala Sugoi; Mecha, Metabot*, Voo

Hu Jintao é o líder do Partido Comunista Chinês, e portanto o atual detentor do título de Bric vermelho. É treinado na ancestral arte marcial do kung fu e nos conhecimentos secretos dos monges Shaolin. Sua arma especial é um bastão de três partes, e seu espírito guardião é Shenlong, um grande dragão serpentino.

*a vantagem Metabot está descrita no netbook Mechas para 3D&T, e funciona basicamente como Parceiro, mas sem requerer que os envolvidos sejam Aliados.

O Poderoso BRIC
F2 (corte ou contusão) H3 R3 A1 PdF2 (fogo ou sônico) 15 PVs 15 PMs
Vantagens/Desvantagens: escala Kiodai; Mecha, Membros Extras x2, Paralisia, Voo

O Poderoso BRIC é o metabot formado pela união dos espíritos guardiões dos quatro BRICman, que eles utilizam para enfrentar os seus inimigos mais poderosos. Seguindo as regras normais de Metabot/Parceiro, ele reúne as melhores características de cada um e todas as suas vantagens, além de pertencer a uma escala superior à deles, ou seja, Kiodai.

Annabel & Sarah

Quando resenhei A Viagem de Chihiro, tempos atrás, gastei a maior parte do texto em uma longa digressão sobre os filmes mágicos que assistimos na infância e acabam virando memórias muito vívidas da vida adulta, praticamente bombas de nostalgia prontas para explodir à menor menção. Clássicos Disney, filmes de fantasia, desenhos animados orientais – tanto faz, na verdade, e cada época há de possuir os seus, ou será uma época muito triste no fim das contas. Annabel & Sarah, romance de estréia do escritor mineiro Jim Anotsu, conseguiu a façanha de me remeter praticamente desde a primeira linha a esses momentos, e me lembrar com os seus animais falantes e cenários surreais as horas e dias passados em frente à televisão e ao videocassete.

As protagonista deste conto de fadas pós-moderno são as irmãs adolescentes Annabel e Sarah (de onde o leitor astuto perceberá que veio o título do livro), que, apesar de serem gêmeas, não possuem praticamente nada em comum. A primeira é cheia de atitude e sarcasmo, veste jeans surrados e tênis All-Star, enquanto a segunda, ao contrário, é alegre e apaixonada por moda, e sonha mesmo em se tornar uma top model. Como seria de esperar, ambas também se odeiam mutuamente. As coisas mudam, no entanto, quando Sarah é seqüestrada por uma mão monstruosa que sai de dentro de uma TV, e resta à irmã ir atrás da flor Amor-Perfeito que poderá libertá-la.

A partir daí o livro se divide em dois, contando em capítulos alternados as aventuras pelas quais cada uma delas passa, os perigos que enfrentam, e como aprendem eventualmente o quanto precisam realmente uma da outra. Sarah vai parar em um mundo onde a felicidade é a lei, literalmente, e quem não a obedece corre o risco de sumir da sociedade; e Annabel, na sua busca para salvar a irmã, se alia com um lobo detetive particular em um mundo de animais falantes inspirado na literatura noir. E a história segue assim, um misto de Lewis Carrol e George Orwell de um lado e Jack Kerouac e Dashiell Hammett do outro; perdidas no meio do caminho, dúzias de referências literárias e ao universo pop, de nomes de músicas e bandas a personagens e autores, que adicionam toda uma camada extra muito bacana à leitura.

Jim possui um estilo muito gostoso de se ler, dando muita vida e expressividade às personagens. Não há como não ser cativado pela personalidade das duas irmãs, bem como todos os coadjuvantes surreais que encontram pelo caminho, sejam mímicas com problemas de dicção ou raposas, lobos e gatas falantes. Há apenas alguns problemas menores em alguns momentos,  coisas que talvez pudessem ser ajeitadas em uma última revisão, mas na maior parte do tempo o texto é fluido e impecável. De defeito mesmo, acho que só o fato de ser um livro curto – não necessariamente pequeno, mas o roteiro é bastante linear e direto ao ponto, e é uma leitura simplesmente tão deliciosa que é difícil não chegar no final querendo mais.

Em todo caso, Annabel & Sarah é um excelente livro, e um dos começos de carreira mais promissores da literatura nacional recente. Recomendo muito.

Rei Rato

Rei Rato traz de volta um velho conhecido do blog, mas de quem eu não falava fazia algum tempo – o escritor britânico China Miéville. Trata-se, no caso, do seu romance de estréia, e também o primeiro a ser traduzido para o português e lançado no Brasil pela Tarja Editorial, que, dizem os boatos, está trabalhando em uma edição nacional do clássico Perdido Street Station.

O livro conta a história de Saul Garamond, um jovem londrino que um dia é acordado pela polícia para descobrir que o seu pai está morto depois de cair da janela do apartamento. É claro que não foi um simples acidente, e esse é o estopim que o colocará em contato com todo o mundo estranho e fantástico que existe sob as ruas de Londres, bem como lhe revelar detalhes obscuros sobre o seu nascimento e ascendência.

Em alguns aspectos, o cenário e a história lembram bastante Lugar-Nenhum, do Neil Gaiman – ambos lidam, afinal, com universos escondidos sob as ruas londrinas, e a queda de alguém “de cima” até eles. Se Gaiman cria um mundo colorido e cheio de magia, no entanto, Miéville é muito mais duro na sua caracterização, enchendo a sua anti-Londres de sujeira e podridão, e até mesmo fazendo os seus protagonistas se alimentarem dela. Por outro lado, achei o cenário do primeiro muito mais vivo e pulsante, repleto de personagens únicos e ambientes envolventes, o que me levou mesmo mesmo a refletir algumas coisas sobre o nosso próprio mundo; o universo mágico de Miéville, ao contrário, parece mais simples e objetivo, quase um cenário teatral mesmo, apenas um pano de fundo para o seu roteiro se desenvolver. Muito mais viva são as suas descrições da Londres original, e da cultura urbana do drum and bass que permeia a narrativa.

Já no roteiro propriamente dito, Miéville é de fato muito mais eficiente do que o Gaiman. Trata-se de uma história de jornada do herói, auto-descoberta e amadurecimento bastante simples, a bem da verdade, mas muito bem executada. Ela reconta e atualiza um conto de fadas clássico – O Flautista de Hamelin -, trazendo-o para a Londres moderna, recheando-o com drum and bass e transformando-o, em alguns momentos, quase em uma história de super-heróis, ou mesmo em um mangá shonen, desses em que personagens super-poderosos se debatem por sobre os prédios da cidade. Longe de ser uma história juvenil, no entanto, ela é também pesada e forte, sem se furtar de descrever mortes e amputações de forma bastante gráfica, e com um quê de romance policial em alguns momentos.

Considerando o meu conhecimento de obras posteriores do autor, é interessante notar também a sua evolução enquanto escritor. Pode-se ver bem que se trata do seu primeiro romance, pela forma como ele organiza as descrições e o roteiro, e também como tateia um tanto receoso em algumas delas. A sua ideologia política assumida também se faz presente, embora raramente de forma panfletária – apenas a cena final quase me fez rir em voz alta, pelo seu exagero intrínseco.

A tradução de Alexandre Mandarino também merece todos os méritos. Pela apresentação já dá pra perceber que se trata de uma obra difícil – muitas passagens e diálogos são escritos no dialeto cockney, que é falado pela classe trabalhadora em alguns locais de Londres, o que torna uma tradução e adaptação bastante complicadas. O uso de gírias comuns acabou funcionando bem, acho eu, e o resultado é uma leitura fluida e fácil. O uso extensivo de notas de tradução, algo com a qual eu geralmente tenho algumas reservas, também serviu bem pra elucidar as poucas dúvidas que surgiram, e o seu posicionamento no fim dos capítulos não atrapalha o fluxo da narrativa – você pode facilmente ignorá-las por completo se assim quiser.

Enfim, Rei Rato é um livro muito interessante, o livro de estréia de um dos principais e mais premiados autores de fantasia atuais, finalmente publicado em português. Para os que liam o blog e ficavam curiosos a respeito mas não entendem o suficiente de inglês para ir atrás dos originais, essa é a chance de vocês.

A Sinfonia

Josué caminhou para fora da sacada como fazia todas as manhãs ao acordar. A rua onde morava, no meio da cidade grande, era coberta de silêncio. Calmamente abriu a partitura, posicionou-a à sua frente e bateu a bengala na beirada da casa.

Virou levemente para a esquerda, e, em movimentos curtos, começou a reger a passagem dos transeuntes. O som dos seus passos era firme e constante, como a percussão que marcava o ritmo de uma orquestra. Elevou um pouco mais as mãos e os passos apressaram; apontou levemente para a frente e pessoas começaram a sair das suas casas, deixando os portões atrás de si baterem ao fechar, no ritmo em que o velho os regia. Na direita, os quartetos de carros passavam, ditando com seus motores as bases para os solistas – pássaros que chegavam aos seus ninhos, cantando para os filhotes.

Assim seguiu durante o dia, a vida no ritmo regido por Josué, com refrões e crescendos ao meio-dia e às seis da tarde, até encerrar em um solo derradeiro de portas e portões exatamente ao anoitecer e tudo voltar ao silêncio de sempre.


Sob um céu de blues...

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