Um Real

moeda-1-realEra uma tarde de domingo ensolarada, ainda que fria, em que João caminhava pela rua e se deparou com uma moeda de um real perdida pelo chão. “Que sorte!,” pensou. Não era incomum encontrar moedas pelo chão – todo dia via algumas de um centavo, ou cinco centavos, ou talvez até, com alguma sorte, dez centavos. Encontrar uma de um real inteiro, no entanto, era bastante raro. Inclinou-se e a recolheu e guardou no bolso, voltando em seguida a fazer o que quer que o tivesse motivado a sair para caminhar naquele dia. Alguns dias depois já havia até esquecido do ocorrido, e gastou a moeda comprando leite e pão na padaria da esquina de casa.

Dez meses depois, João estava sentado em uma sala fria e escura, iluminada apenas por uma lâmpada baixa mirada diretamente contra o rosto, dividindo espaço com dois homens engravatados, um deles sentado na sua frente, o outro de pé atrás do primeiro.

– Nós não lhe queremos nenhum mal. – disse calmamente o que estava sentado. – Só queremos que você confesse, e assim poderemos todos seguir adiante com nossas vidas.

– Mas eu não fiz nada. – respondeu João, suando e tremendo.

– Não adianta mentir, cara! – agora era o homem de pé quem falava, o tom quase o de um grito. – Sabemos muito bem que você está enrolado até o pescoço! Temos provas disso!

– Provas? – João se virou para o homem de pé, num gesto misto de medo e curiosidade. Na sua frente, o homem sentado lhe empurrava algumas folhas.

– Esta é a sua declaração do Imposto de Renda deste ano. – disse, ainda calmo. – Nós conferimos várias vezes. Está faltando um real.

– É isso mesmo. – era homem de pé novamente. – Você achou que podia ser esperto, achou que podia nos enganar, mas esqueceu desse pequeno grande detalhe. E é aí que nós te pegamos! – apoiou-se na mesa, se inclinando para frente, e João pôde ver seus olhos quase vermelhos de raiva. – Vamos, confesse! É tráfico de drogas? Armas? Prostituição? Tem algo podre aqui, e não é o meu almoço!

– Eu… Eu… Eu não fiz nada! – João já começava a chorar sob aquela luz insuportável.

Os dois homens levantaram-no e levaram até a sala ao lado. Algemaram-no com as mãos nas costas, e o empurraram até próximo de um tonel cheio de água com gelo. O próprio ar parecia congelar ao redor do aposento.

– Vamos, confesse! – disse o homem que na outra sala estava de pé, segurando João pelos cabelos.

– Eu não fiz nada! – respondeu João, e sentiu a cabeça empurrada em direção ao fundo do tonel. A pele doía e se contorcia em contato com a água, que entrava pelo nariz e a boca até preencher os pulmões. Alguns minutos depois, foi puxado para fora.

– Confesse!

– Eu não fiz nada! – e mais uma vez a cabeça foi jogada para dentro do tonel.

A cena se repetiu uma dúzia de vezes. João já nem sentia mais o rosto, anestesiado e marcado por pequenos cortes causados pelo frio. Foi então que, já quase sem saber se estava vivo ou morto, desperto ou sonhando, lembrou daquela tarde de domingo ensolarado em que encontrou uma moeda atirada pelo chão. Quando foi puxado para fora novamente e ordenado a confessar, já sabia o que dizer.

– Eu achei a moeda no chão! – as palavras saíam como lágrimas.

– O quê? E você acha que nós vamos acreditar nisso? – e o homem empurrou a cabeça de João de volta para o tonel.

Passaram mais trinta minutos de tortura, até que os dois homens desistiram de conseguir uma confissão. João foi levado para fora da sala e empurrado com violência até uma cela fria e escura, onde passou o resto dos seus dias solitários.

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