Mali to Memphis

Se podemos acreditar nas teorias científicas sobre a evolução e a origem das espécies (e eu pessoalmente não vejo razão para duvidar delas), a espécie humana, o famigerado Homo sapiens sapiens, se originou na África. Não parece tão surpreendente, assim, imaginar que a raiz de toda a arte e, mais especificamente, da música humanas esteja por lá também. Na verdade, mesmo que ignoremos algum resgate aleatório de uma ancestralidade pré-histórica, praticamente todos os ritmos mais populares atualmente podem ter sua origem traçada de alguma forma até o continente negro em tempos relativamente recentes – seja o blues e o jazz norte-americanos, bem como o seu filhote rock e todos os seus derivados, e mesmo o samba e o pagode de terras tupiniquins. Se tais estilos são tão marcantes e importantes na genealogia musical contemporânea, é possível que tenha muito a ver com a forma como ele toca, mais do que a nossa alma, as próprias moléculas do nosso DNA mitocondrial.

Mali to Memphis – An African-American Odyssey pode ser ouvido como uma espécie de estudo sobre essa relação entre a África e a música ocidental de maneira geral, ou pelo menos a música norte-americana. Organizado e editado pela Putumayo World Music, uma gravadora de Nova Iorque especializada no grande caldeirão de estilos rotulado por lá como world music, ele reúne de forma alternada nomes consagrados do blues e artistas pop africanos contemporâneos, a grande maioria deles oriundos do Mali. Desta forma, durante a audição, mais do que apenas a fruição de belas canções, ele nos convida de fato a um exercício de reflexão e comparação, tentando descobrir onde cada um é influência ou foi influenciado pelo outro.

Do lado de cá do Atlântico, o disco se concentra em oferecer um panorama geral do blues elétrico do pós-guerra. Você vai encontrar lá desde um clássico como I’m in the Mood, de John Lee Hooker, passando por um artista consagrado em vários estilos como Muddy Waters (com My Home Is in the Delta), até artistas mais contemporâneos, como Eric Bibb (Don’t Let Nobody Drag Your Spirit Down). De destaques mais interessantes, temos Guy Davis com uma interpretação vocal inspiradíssima do clássico You Don’t Know My Mind; e Queen Bee, do mestre Taj Mahal.

É claro, no entanto, que o grande astro do disco são os artistas africanos, dos quais nós raramente ouvimos falar, mesmo que sejam tão próximos tanto culturalmente como geograficamente. O que mais surpreende nas músicas selecionadas, acredito, é o belíssimo trabalho com instrumentos de cordas, que prendem a atenção praticamente desde a primeira nota de Mon Amour, Ma Cherie, da dupla Amadou and Mariam. Sejam elétricos ou acústicos, as composições são recheadas de riffs, solos e dedilhados fantásticos, muitas vezes praticamente uma segunda (ou terceira, quarta…) voz nos arranjos, como acontece no blues mesmo. É difícil saber até que ponto tais artistas foram influenciados pelos músicos ocidentais contemporâneos, que certamente chegaram até lá com estações de rádio e lançamentos internacionais de discos, ou pelos próprios estilos que influenciaram estes músicos em primeiro lugar.

Como anteriormente, também se tentou fazer uma espécie de panorama geral da música pop malinesa, trazendo desde artistas mais antigos, com estilos oriundos mesmo das tradições dos griots e da música folclórica, até outros mais jovens e contemporâneos. Destaco faixas como Sirata, de Habib Koité; Kar Kar Madison, do músico folclórico malinês Boubacar Traoré, cujos sucessos chegaram a embalar a independência do país; e a bela Dounouya (que significa “O Mundo”, segundo o encarte biográfico), de Lobi Traoré.

Na soma geral, Mali to Memphis é uma coletânea muito interessante, tanto pela qualidade das canções como pelo estudo de antropologia musical que propõe. Na mesma linha de um Refugee All-Stars, é daqueles discos que, mais do que nos encantar com boa música, nos faz refletir um pouco sobre o próprio significado que a arte e aqueles que a fazem possuem para nós.

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