Clapton

Eu tenho uma relação bem pessoal com a música, e acredito que não só eu – possivelmente qualquer um que seja músico, ou já tenha tido a pretensão de ser (o que é mais próximo do meu caso), tenha um sentimento parecido a respeito. É bem diferente ouvir uma canção como um leigo, apenas apreciando a melodia ou a letra, e ter uma noção mais aprofundada do que cada instrumento está fazendo, do que representa cada mudança de ritmo, cada variação de acorde. Em certo sentido, tocar um instrumento pode mesmo vir a estragar algumas músicas – sei de muitas que eu adorava antes de começar a tocar, mas agora me são totalmente inaudíveis; e, a bem da verdade, há diversas outras que eu não gostava anteriormente mas hoje em dia acho fantásticas.

O fato é que depois de um tempo você deixa de procurar apenas as músicas que são boas de ouvir. Tão importante quanto passam a ser aquelas boas de tocar, que façam você se sentir bem no instrumento, e tenham uma melodia gostosa de se reproduzir. Talvez você chegue até a se questionar sobre essa necessidade meio doente que alguns vêem nos artistas de sempre inovar, sempre lançar canções novas a cada álbum, como se a criação, e não a performance, fosse o ponto máximo da música – e para alguns pode mesmo ser, é claro, apenas me permitam discordar.

Acredito que Eric Clapton é um artista que concordaria comigo, ao menos em parte. Suas performances ao vivo são repletas de clássicos do blues, músicas das décadas de 1920 ou 1930 que ele simplesmente admira e gosta de tocar, mesmo que não sejam exatamente as preferidas do público; e mesmo entre estas, na verdade, há grandes sucessos que ele resgatou simplesmente porque são canções das quais ele gosta, de artistas que admira – Crossroads, Nobody Knows When You’re Down and Out, Before You Accuse Me. Há mesmo um disco inteiro gravado apenas com o objetivo de homenagear Robert Johnson, músico de blues morto em 1938 e considerado uma grande influência por praticamente todos os roqueiros britânicos.

Claro, ele chegou nesse ponto após quase cinquenta anos de uma carreira consagrada, que já lhe deu um lugar entre os deuses da música popular. Alguém que compôs canções como Sunshine of Your Love, Layla ou Tears in Heaven dificilmente precisa provar muito sobre a sua capacidade artística, de forma que há mais espaço para tocar aquilo que gosta. Assim, em um disco como Clapton, seu mais recente trabalho, ele pode se dar ao luxo mesmo de participar da composição de uma única canção inédita – Run Back to Your Side, que na verdade possui uma base suspeitamente parecida com o clássico do blues Rollin’ and Tumblin’ -, e de resto se dedicar à função de intérprete, resgatando algumas canções clássicas do cancioneiro popular anglo-saxão.

E isso não significa, é claro, que seja um disco ruim. Bem pelo contrário: Clapton é um grande intérprete, capaz de dar vida e sentimento a estas canções, como já fez com outras no passado. Algumas chegam a ter interpretações bastante inspiradas, na verdade, como em Rocking Chair e Autum Leaves. Os riffs de guitarra que o consagraram também estão lá, com destaque para arranjos marcantes como os de River Runs Deep e That’s No Way to Get Along, bem como as baladas em que um solo suave acompanha a melodia, como na ótima versão de How Deep is the Ocean. Há espaço mesmo para o blues tradicional do Mississipi que ele tanto admira, em Hard Times Blues. Em geral apenas umas poucas músicas podem ser difíceis de ouvir, como Judgement Day ou Milkman, mas não exatamente por serem ruins – seus arranjos apenas tem algo de nostálgico, o que pode reduzir o seu alcance a um público mais específico, capaz de entender e apreciar esse tipo de saudosismo.

No fim, não consigo imaginar Clapton como um sucesso incontestável de vendas, capaz de empilhar sucesso atrás de sucesso nas rádios populares. Dificilmente qualquer destas canções vai ser mais pedida em shows do que Layla ou Cocaine, por exemplo. Apenas não deixam de ser ótimas canções por isso, com direito algumas grandes interpretações. E, sinceramente, é injusto também esperar muito mais.

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